Encontrar um pinguim-de-magalhães caminhando pela areia de uma praia do Rio pode parecer um acontecimento raro. A cena desperta a curiosidade de banhistas e costuma gerar a mesma pergunta: o que um animal típico das paisagens geladas da Patagônia, na Argentina, está fazendo no litoral fluminense? Todos os anos, essas aves deixam seus locais de reprodução e enfrentam uma longa travessia pelo oceano em busca de alimento. É uma jornada tão desafiadora que nem todos chegam ao destino: alguns morrem no mar, enquanto outros desembarcam nas praias brasileiras debilitados, sem forças para continuar. Ainda assim, essa migração faz parte do ciclo natural da espécie e se repete todos os invernos.

Entre junho e setembro, centenas dessas aves migram da Argentina e do Chile em direção ao litoral brasileiro. A viagem pode ultrapassar milhares de quilômetros e é guiada, principalmente, pela busca por alimento. No caminho, alguns animais chegam debilitados a diversas praias como a da Barra da Tijuca, São Conrado, Urca, Ipanema, Recreio, Niterói e na Região dos Lagos, precisando ser resgatados por equipes especializadas.

A médica veterinária Mariana Cadena, do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS Área RJ), explica que a migração faz parte do comportamento da espécie.

“Os pinguins são aves, muita gente não sabe, são migratórias. A casa deles fica lá na Patagônia, na Argentina, então todo ano, no meio do ano, que é o inverno do Hemisfério Sul, eles viajam da Patagônia até o Sudeste do Brasil”, narra a especialista.

Pinguins resgatados em praias do Rio | Crédito: Reprodução / PMP-BS

Ela destaca que o deslocamento não representa um desvio de rota. “Eles chegam até o Espírito Santo, nadam toda essa costa da América do Sul até o Espírito Santo. Faz parte da natureza deles. Por isso que agora, no meio do ano, é normal encontrarmos pinguins na praia.”

Em 2026, o Projeto de Monitoramento de Praias registrou o resgate de 132 pinguins-de-magalhães entre Paraty e Saquarema. A maior parte dos animais, no entanto, não resistiu à longa viagem: 84 foram encontrados mortos, enquanto 48 chegaram vivos e puderam receber atendimento especializado. 

Apenas no município do Rio de Janeiro, há 54 registros, dos quais 39 eram de animais mortos e 15 de pinguins resgatados com vida.

Para explicar essa jornada, o Agenda do Poder conversou com especialistas que acompanham de perto a migração dos pinguins-de-magalhães, trabalho de resgate realizado no litoral fluminense e porque ele só deve ser feito por pessoas especializadas. Eles detalham como funciona esse fenômeno natural e quais fatores colocam esses animais em risco durante a viagem.

Uma viagem de aprendizado

Essa migração começa logo após o período reprodutivo. Os primeiros a partir são, principalmente, os animais jovens, que deixam os ninhos para enfrentar o oceano pela primeira vez.

O professor do Departamento de Biologia Marinha da Universidade Federal Fluminense (UFF), Cassiano Monteiro, aponta que esse processo é essencial para o desenvolvimento da espécie.

“Os pinguins-de-magalhães são uma espécie fantástica. Todos os anos, os jovens saem dos seus ninhos e vão para a água para aprender a se deslocar e se alimentar. Isso é um processo cíclico.”

Segundo ele, esses animais acompanham correntes marítimas durante a jornada. Ao longo do percurso, aprendem a localizar alimento e enfrentam as primeiras dificuldades da vida no oceano.

Professor Cassiano Monteiro | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

O professor e pesquisador do Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha da Universidade Federal do Rio (UFRJ), Rodrigo Tardin, reforça que o principal objetivo da migração é garantir a sobrevivência da espécie.

“A presença desses pinguins no litoral brasileiro pode revelar que as condições atuais ainda são adequadas para que essa espécie siga o fluxo da sua rota migratória e chegue até o Brasil. De forma geral, os pinguins-de-magalhães tendem a se reproduzir lá pro início do ano, janeiro, fevereiro, até março. E depois disso começam a migração”, detalha.

Ele explica que nem todos percorrem exatamente a mesma rota. Enquanto muitos adultos permanecem no Sul do Brasil, onde a oferta de alimento costuma ser maior, parte dos juvenis segue viagem até o Sudeste, alcançando o litoral fluminense.

“Dentro dessa migração, é que eles vão seguindo como norte, e dependendo de quem é o indivíduo, se é fêmea, macho, um adulto ou juvenil, eles vão para lugares diferentes. E essa migração acontece principalmente seguindo comida. Os pinguins migram em busca de alimento, muitas vezes cardumes de peixes, como anchova, sardinha…” 

Nem todos conseguem completar a jornada

Percorrer milhares de quilômetros exige grande gasto de energia. Por isso, muitos animais chegam ao Brasil bastante debilitados, especialmente os mais jovens, que ainda estão aprendendo a sobreviver sozinhos.

Mariana explica que essa diferença de experiência faz toda a diferença durante a migração.

“Como é uma viagem muito longa, ela demanda muita energia. É um grupo grande que vem, são adultos e juvenis. E a maior parte dos juvenis não sabem lidar muito bem com a vida ainda. Então, costumam não ter uma alimentação muito boa e, por conta disso, acabam ficando mais fracos. Por isso que eles encalham”, explica a veterinária.

Animais resgatados passam por exames clínicos, recuperação nutricional e acompanhamento veterinário | Crédito: Reprodução / PMP-BS

Ela afirma que esses animais chegam aos centros de reabilitação com perda de peso, fraqueza intensa e, muitas vezes, pneumonia, consequência do esforço físico e das dificuldades enfrentadas durante a viagem.

Cassiano destaca que esse cenário faz parte da dinâmica natural das populações. 

“Em toda população, você tem aqueles que são os mais fortes e os mais fracos. Muitos acabam não concluindo essa jornada e chegam vivos, mas muito debilitados à beira da praia”

Cassiano Monteiro, biólogo marinho

O trabalho que começa na areia

É nesse momento que entra em ação o Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS Área RJ). A Econservation Estudos e Projetos Ambientais é a responsável técnica pelo monitoramento dos trechos 11 a 15, entre Paraty e Saquarema, realizando o resgate de animais marinhos vivos debilitados e também de animais mortos para pesquisas e necropsias.

Segundo Mariana, o trabalho acontece diariamente: “A gente tem uma equipe de campo. Todo dia essa equipe trabalha na praia fazendo o monitoramento da costa, procurando animais encalhados.” 

Após o atendimento, os animais passam por exames clínicos, recuperação nutricional e acompanhamento veterinário. Somente depois de recuperados são devolvidos ao mar.

“Eles têm que estar nadando bem, mantendo a temperatura boa, com massa muscular adequada, conseguindo se alimentar sozinhos e com os exames de sangue dentro da normalidade”, enumera as condições de saúde que indicam a melhora do animal, que está pronto para retornar à natureza.

Ciência que acompanha cada viagem

Nem todos os pinguins resgatados voltam ao oceano de forma anônima. Alguns recebem um microchip de identificação que permite aos pesquisadores acompanhar parte da trajetória da ave ao longo dos anos.

Foi exatamente isso que aconteceu com um pinguim resgatado recentemente em Piratininga, em Niterói. Durante a avaliação, a equipe descobriu que o animal já havia sido reabilitado anteriormente e reintroduzido na natureza, em abril deste ano, na Praia Norte, em San Clemente del Tuyú, na Argentina.

Mariana Cadena, médica veterinária do PMP-BS Área RJ | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

“Sempre que a gente reabilita um animal, o ideal é marcar. Então, qualquer ave, tartaruga, marcamos com uma anilha, que tem um número só dela. O pinguim não tem uma área de anatomia para a gente conseguir botar uma anilha que seja confortável para ele. Então, acabou implementando o microchip”, explica Mariana.

“Cada microchip tem o seu número individual. E por que isso é legal? Conseguimos ler e ver a origem. Se foi aplicado na Argentina, a gente sabe que foi uma ave que já passou por reabilitação e que conseguiu fazer esse nado até aqui”

Mariana Cadena, médica veterinária do PMP-BS Área RJ

Para Cassiano, esse tipo de monitoramento amplia o conhecimento científico sobre a espécie.

“Esse tipo de informação é importante para os pinguins. Toda essa informação, no fundo, traduz o tamanho populacional. Para saber se uma espécie está em perigo ou não, é importante conhecer sua população”, enfatiza.

Desafios que vão além da natureza

Embora a migração seja um comportamento natural, os pinguins enfrentam ameaças cada vez maiores provocadas pela atividade humana. Rodrigo Tardin explica que a sobrepesca compromete diretamente a alimentação da espécie.

O Projeto de Monitoramento de Praias registrou o resgate de 132 pinguins-de-magalhães | Crédito: Reprodução / PMP-BS

“Os pinguins muitas vezes dependem dos recursos de peixes que nós também comemos, então se nós pescamos muito esses peixes acabamos com as populações deles e não sobra comida para os pinguins”, explica o especialista.

Além disso, a poluição, os microplásticos, o esgoto lançado no mar e os efeitos das mudanças climáticas tornam a jornada ainda mais difícil.

“Avaliar todas essas ameaças ao mesmo tempo no contexto de impactos cumulativos é mais importante do que elencar uma ou outra ameaça. Muitas vezes, no mesmo local, há pesca, poluição, plástico e aquecimento das águas”

Rodrigo Tardin, professor e pesquisador do Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha da UFRJ

Segundo o pesquisador, o aquecimento dos oceanos já altera a distribuição das espécies marinhas e pode reduzir áreas historicamente utilizadas pelos pinguins durante sua migração. 

“É claro que nesses corredores migratórios a gente não pode dizer, na qual é difícil, pelo menos, conseguir que não haja nenhuma atividade humana, mas que pelo menos essas atividades se entendam de forma sustentável, elas não se acumulem”

Para ele, preservar esse corredor natural depende de políticas públicas, manejo sustentável dos recursos pesqueiros e cooperação entre os países que compartilham essa rota migratória. 

Quando a melhor ajuda é manter distância

Ao encontrar um pinguim na areia, o impulso de devolvê-lo ao mar costuma ser imediato. No entanto, essa atitude pode colocar a vida do animal em risco. Mariana explica que o comportamento mais comum da população é justamente o contrário do recomendado.

“Acaba sendo instintivo ver um bicho que é da água e devolver para a água ou botar no gelo. Isso é completamente errado. Eles chegam muito cansados. Estão indo para a areia justamente para descansar. Jamais devolver para a água, jamais botar no gelo”, explica.

A orientação é simples: manter distância, evitar contato e acionar imediatamente uma equipe especializada. Se possível, o animal pode ser protegido do vento com uma toalha ou canga, sem que seja manipulado. Ligue imediatamente para as equipes do PMP-BS, através do número: 0800 999 5151.

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