Os casos dos dois vereadores de São João de Meriti presos em um intervalo de menos de duas semanas por suspeita de ligação com facções fazem parte de uma ligação entre a política e o crime organizado nas últimas décadas na Baixada, em uma parceria marcada por sangue e impunidade. E trazem, ainda, um componente novo: em uma área de histórico domínio de milícias e de grupos de extermínio, agora as autoridades investigam a possível infiltração do Comando Vermelho (CV) e do Terceiro Comando Puro (TCP) no poder público.

O caso mais recente ocorreu com Ernane Aleixo (PL), preso nesta terça-feira (25) sob a acusação de fornecer material para a construção de barricadas em área dominada pelo TCP. Ele foi denunciado pelo Ministério Público por integrar uma associação criminosa armada. Marcos Henrique Matos de Aquino (Republicanos) foi preso no dia 14 deste mês com uma arma em nome de outra pessoa e caixas de remédios controlados no carro dele em Nova Iguaçu durante uma das etapas da Operação Contenção, que tenta frear a expansão territorial do CV. Mas acabou sendo solto no mesmo dia após pagar uma fiança de R$ 20 mil.

Preso com uma arma no carro, Marcos Henrique Matos de Aquino (Republicanos) liberado após pagar fiança / Crédito: Divulgação

A relação entre política e crime tem gerado também uma onda de violência na região. A Agenda do Poder fez um levantamento para analisar as ligações criminosas nos dois últimos pleitos. Em 2024, ao menos oito políticos foram assassinados às vésperas da votação. Em 2020, ocorreram sete atentados com três mortes. Mais de dez candidatos suspeitos de elo com milícias ficaram na mira de investigações após denúncias de proibição da presença de adversários políticos em seus territórios de atuação, segundo o levantamento.

A Baixada Fluminense concentra 25% dos homicídios de políticos da Região Sudeste, segundo o Observatório da Violência Política e Eleitoral da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UniRio). Os números traduzem uma realidade violenta apontada por especialistas ouvidos pela reportagem. “A ligação do crime com a política é de décadas. E, de fato, a Baixada é uma das poucas áreas do Brasil onde existe violência vinculada à disputa de poder”, diz o sociólogo Ignácio Cano.

“As eleições são sempre muito violentas, com alto índice de pessoas assassinadas durante o pleito. Isso acontece porque a política na Baixada Fluminense tem a marca da milícia”.
Fransérgio Goulart, cientista político e diretor da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial

Autor do livro “Dos barões ao extermínio: uma história da violência na Baixada Fluminense”, o sociólogo José Cláudio Souza Alves diz ver um avanço na relação do crime com o meio político após a aproximação das facções criminosas. “A relação entre a polícia com os grupos de extermínio e as milícias é um fenômeno consistente na Baixada, com estrutura por dentro do aparelho do Estado. Mas a estrutura do tráfico tem aprendido com as milícias a organizar esquemas e também vem atraindo políticos da região”.

O que se sabe sobre os vereadores de São João de Meriti presos

Vereador Ernane Aleixo (PL-RJ) foi acusado de fornecer material para barricadas do TCP na Baixada / Crédito: redes sociais

Ernane Aleixo é acusado de envolvimento com o tráfico e prestação de apoio logístico e financeiro ao TCP “em troca de benefícios financeiros e eleitorais”, diz a denúncia do Ministério Público. A facção criminosa está ligada aos crimes de extorsão, homicídios e lavagem de dinheiro na região.

As investigações revelam mensagens e áudios que indicam inclusive o uso de maquinário público na construção de barricadas erguidas por traficantes, permitindo a expansão e a consolidação do controle territorial da quadrilha.

Trecho da denúncia do MP

Aleixo construiu sua base eleitoral no bairro Vilar dos Teles, atuando em pautas como infraestrutura e assistência social. Mantinha, até então, imagem associada a projetos comunitários. Em sua biografia publicada no site da Câmara de São João de Meriti, afirma ser “um homem íntegro, honesto e cumpridor dos seus deveres”. Ele iniciou sua trajetória política em 2008, quando foi eleito pela primeira vez. E, desde então, conseguiu se reeleger consecutivamente. Atualmente, cumpre seu quinto mandato.

Marcos Henrique Matos de Aquino foi preso com uma arma e remédios controlados em seu carro / Crédito: redes sociais

Marcos Henrique Matos de Aquino, o outro vereador do município preso neste mês, tentou interferir nas buscas quando foi preso, segundo a Polícia Civil. Ele não era alvo inicial da operação, mas passou a ser investigado após o flagrante e a atitude suspeita, segundo a versão dada pelos investigadores que participaram da ação.

O parlamentar, o mais votado nas eleições de 2024 em São João de Meriti, não respondeu sobre os remédios apreendidos, mas afirmou que a arma pertence a um policial militar que presta apoio ao gabinete. Ele alegou ser vítima de perseguição política. A versão foi reforçada pela defesa do vereador, que declarou que a prisão “carece de fundamento jurídico”. Os advogados afirmaram que irão adotar “as medidas legais cabíveis para preservar sua honra”.

A polícia agora investiga se o parlamentar tem alguma ligação com o CV e verifica qual a procedência dos remédios encontrados.

Quem são os políticos da Baixada acusados de ligações com o crime

Marcinho Bombeiro está preso desde 2019 por suspeita de integrar a milícia e de participar de dois homicídios / Crédito: Divulgação

Marcinho Bombeiro – Mesmo atrás das grades, o bombeiro Márcio Cardoso Pagniez, o Marcinho Bombeiro, concorreu a vereador de Belford Roxo em 2020 pela quarta vez seguida. Ele está preso desde 2019 por suspeita de integrar uma milícia e de participar de dois homicídios. De acordo com denúncia do Ministério Público, as vítimas foram assassinadas a mando do vereador porque estariam fumando maconha. Um deles foi amarrado a um poste próximo a um campo de futebol. Nas redes sociais, ainda ativas, Marcinho Bombeiro pediu voto ao filho Matheus Pagniez, que concorreu ao cargo de vereador pelo PL em 2024.

Davi Brasil – Já em Queimados, o vereador e policial militar Davi Brasil foi preso no mesmo ano em que Marcinho Bombeiro acabou sendo detido. Davi, que também exerceu a função de secretário de Defesa Civil do município, foi acusado de chefiar uma milícia que praticava homicídios, extorsão e ameaças a moradores de condomínios populares. Ele foi condenado a oito anos de prisão em 2022 por crimes associados à milícia conhecida como “Caçadores de Ganso”. Na gíria, o nome do grupo paramilitar está relacionado a assassinatos de pessoas suspeitas de ligações com crimes, como roubo, furto ou tráfico.

Danilo Francisco da Silva, o Danilo do Mercado, e o filho, Gabriel da Silva | Reprodução

Danilo do Mercado – Eleito vereador em Duque de Caxias em 2020, Danilo do Mercado (MDB) foi morto a tiros em março do ano seguinte. Ele dizia andar sem segurança, era apontado como suspeito de chefiar um grupo de extermínio e investigado por homicídio. Gabriel Francisco Gomes da Silva, filho de Danilo, também morreu no atentado. Os criminosos conseguiram fugir em um carro. O político tinha 53 anos.

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