Crianças e adolescentes brasileiros estão sendo aliciados em comunidades online de ódio para praticar automutilação em troca de dinheiro. Em alguns casos, criminosos oferecem até R$ 200 para que jovens escrevam nomes de servidores ou membros em partes do corpo com objetos cortantes, transmitindo a agressão ao vivo por vídeo. As denúncias se concentram especialmente em servidores da plataforma Discord, que desde 2023 tem sido foco de investigações por abrigar grupos que incentivam violência, crimes e até abusos sexuais.
A prática foi revelada por um relatório assinado pelas pesquisadoras Letícia Oliveira e Tatiana Azevedo e por uma investigação em curso da Polícia Federal. De acordo com os levantamentos, esses ambientes digitais operam com uma estrutura hierárquica — os chamados “panelas” — e organizam sessões de violência com hora marcada, promovidas como espetáculo em busca de audiência e sadismo, sob o pretexto de obter “lulz”, um termo derivado do “lol” (“rindo alto”), usado como justificativa para infligir dor por diversão.
Nas interações captadas pelas pesquisadoras, adolescentes são induzidos a cortar pulsos, pernas, rosto ou pescoço. O valor do pagamento varia conforme a região do corpo e a exibição da automutilação. “Eles escrevem o nome dos servidores ou dos membros do grupo, ou uma letra do nome do grupo. E aí, eles pagam. No rosto, é mais caro, assim como no pescoço. Na perna ou na coxa é o mais barato”, afirma o delegado Flávio Rolim, chefe da Unidade de Repressão a Crimes Cibernéticos de Ódio (Urcod) da Polícia Federal.
Segundo ele, há registro de transações realizadas por meio de Pix e até em criptomoedas, o que amplia a complexidade da rastreabilidade desses crimes. “Quando começar um fluxo financeiro com isso, nós teremos pessoas produzindo e vendendo esses conteúdos. Pessoas que odeiam aquele tipo de vídeo, mas produzem e vendem pela questão financeira”, alerta o delegado.
A gravidade dos crimes mobilizou diferentes frentes de investigação. Em São Paulo, a Secretaria de Segurança Pública criou o Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), voltado à identificação e repressão desses grupos. Já no Rio de Janeiro, uma operação policial realizada em abril mirou uma organização criminosa que, pela internet, induzia menores à prática de crimes de ódio, apologia ao nazismo, divulgação de exploração sexual infantil e maus-tratos de animais.
As torturas impostas às vítimas vão além da automutilação. O relatório aponta que, principalmente meninas, são coagidas a participar de sessões de estupro virtual, sendo obrigadas a exibir o corpo ou introduzir objetos pontiagudos na genitália, sempre diante de uma plateia oculta. Há também registros de ingestão de substâncias tóxicas, queimaduras, arranhões, espancamentos e arrancamento de cabelos.
O Discord, plataforma utilizada para hospedar os servidores onde esses crimes são promovidos, afirmou por meio de nota que “reitera de forma veemente que esse tipo de conteúdo não tem lugar na nossa plataforma” e garantiu manter uma política de “tolerância zero” para conteúdos ilegais, com medidas como banimento de usuários e remoção de servidores. “Seguimos totalmente comprometidos em colaborar com as autoridades locais para ajudar a garantir um ambiente seguro e positivo para todos os nossos usuários no Brasil”, declarou a empresa.
Para o delegado Rolim, o problema transcende a tecnologia. “O problema não é o Discord. O problema não é a moderação do Discord. O problema não é a legislação. O problema é tudo isso funcionando junto”, afirma. Ele destaca a expansão de redes extremistas, a fragilidade das políticas de acesso e, sobretudo, a ausência de acompanhamento de jovens no ambiente virtual.
O levantamento da ONG Safernet reforça a urgência do tema: entre janeiro e março de 2025, as denúncias relacionadas ao Discord cresceram 172,5% em comparação ao mesmo período do ano anterior. As autoridades alertam que, diante da sofisticação e do alcance dessas redes, a prevenção e a educação digital de pais, escolas e responsáveis são hoje tão importantes quanto a repressão criminal.





