Eu sei que você de cara não vai acreditar, mas houve um tempo em que Sepetiba era chamada pelos jornais como a “Copacabana da Zona Norte” — embora esteja na Zona Oeste, mas isso é detalhe. Segundo os registros históricos, desde o início do século XIX a família real portuguesa já frequentava o local para lazer, com direito até a touradas! Sepetiba era “uma das mais surpreendentes maravilhas de Neptuno” dizia o jornal “Molhe Imperial”, em 1884, em reportagem que celebrava o point, e o capricho das peixadas vendidas em restaurantes nas colônias de pescadores.
O convite visual era tão irresistível que a televisão brasileira decidiu levar suas lentes até ali, gravando novelas e humorísticos como O Bem-Amado, a primeira novela em cores da TV, A Sucessora e o humorístico Chico City, exibindo para todo o Brasil seu coreto no qual Odorico Paraguaçu discorreria coma peculiaridade habitual.
Hoje, o cenário digamos, mudou. A areia virou lodo, a fama virou drama. A floresta, os rios, e os moradores vêm lidando com poluição, metais pesados, esgoto e um assoreamento severo, emoldurados por uma Baía de Sepetiba que parece prestar um tributo involuntário à cor cinza do “progresso” industrial.
Sepetiba, com seus dias de glória que encantaram nobres, pintores, diretores de TV e veranistas desavisados, virou uma lição custosa de como o descaso ambiental, a industrialização e a ausência de planejamento batem forte — e feio.

História
Nos tempos do Brasil Colônia, Sepetiba funcionou como um porto natural de grande importância para a Coroa portuguesa, especialmente na exportação do pau-brasil.
Localizada em posição estratégica na Baía de Sepetiba, a enseada oferecia águas calmas e profundas, ideais para o ancoradouro de embarcações que seguiam rumo à Europa carregadas da madeira avermelhada. Além disso, a proximidade com extensas áreas de mata atlântica no entorno facilitava o corte e o transporte da madeira até os navios.
Essa vocação portuária, ainda no século XVI, foi o embrião da ligação de Sepetiba com atividades comerciais e extrativistas que, de certa forma, anteciparam tanto o auge aristocrático do balneário quanto a posterior industrialização que marcaria sua decadência ambiental.
O parque de diversões da Família Real
No início do século XIX, a Praia de Sepetiba foi o recreio da família real portuguesa, recém-instalada no Brasil, e sua corte, que frequentava o balneário em busca de tranquilidade longe da efervescente Guanabara. A região oferecia clima ameno, águas limpas e abundância de peixes, além de ser ponto estratégico de lazer com festas, saraus e até touradas, um lazer comum entre nobres da época.
Mais tarde, e durante todo período imperial, todo mundo que era alguma coisa queria passar o verão em Sepetiba, consolidando a fama de praia refinada. O acesso, inicialmente feito por embarcações, ganhou linhas de diligências e bondes puxados por animais, permitindo que a nobreza se deslocasse para veraneios sofisticados.
Assim, antes de se tornar vítima de dragagens, indústrias e esgoto, a praia foi palco de uma breve “corte à beira-mar”, lembrada ainda hoje como símbolo de um apogeu perdido sob as camadas de lama.
De onde saiu a história de “Copacabana da Zona Norte”?
É mais uma daquelas tradicionais lendas urbanas, utilizada ocasionalmente de forma sarcástica ou irônica, realçando o contraste entre o passado de prestígio de Sepetiba e sua situação atual de degradação ambiental.
Ela decorre de um uso figurado, e evidentemente jocoso, que destaca a decadência de Sepetiba frente ao esplendor que Copacabana representa na memória carioca.
É uma forma mordaz de lembrar que, sob o verniz do passado glorioso, hoje restam apenas ecos de uma grandeza que o tempo e o descaso ajudaram a enterrar.
Por que a praia entrou em decadência?
Tudo começou com a primeira dragagem do canal de acesso ao Porto de Itaguaí em 1977, quando o porto foi implantado. Essa obra deu forma ao canal que permitiu a navegação de grandes embarcações na Baía de Sepetiba.
Porém, ao mesmo tempo em que abriu caminho para o “progresso portuário”, também iniciou um ciclo de impactos ambientais: a movimentação de sedimentos e a alteração do fundo marinho favoreceram o assoreamento e contribuíram para a degradação da Praia de Sepetiba, que ao longo das décadas seguintes foi soterrada por lodo e esgoto.
Oficialmente, o processo foi considerado ambientalmente sustentável, mas os moradores continuam a apontar que o custo ecológico para a baía — já combalida pela poluição industrial e urbana — foi muito maior do que o benefício econômico.

Mesmo assim, Sepetiba ainda brilhou na TV?
De certo modo, sim. O coreto da Praça Washington Luiz virou símbolo político-humorístico na sensacional novela O Bem-Amado (1973), quando o prefeito Odorico discorria com pompa e grandiloquência à beira-mar — bom, num tempo em que ainda tinha mar, cabe lembrar. Também foram registradas cenas de Chico City e da novela A Sucessora, dando à praia uma “participação especial” na dramaturgia nacional.
Qual é a situação atual?
Os otimistas vão alegar que há esperança, e os ambientalistas, que a baía vem morrendo lentamente. Praia tem. Mas o fato é que, apesar de ações aqui e ali de diferentes governos, a balneabilidade continua ausente há mais de uma década. Os botos-cinza, importantes indicadores ambientais, antes comuns hoje são raramente avistados.
Ainda assim, sob o lodo, ainda há vida: mangues que filtram poluição, aves migratórias que pousam entre árvores e barcos, e moradores que resistem com orgulho após sua praia ser arrasada pelo tal “progresso”. Resta saber se isso tudo servirá de rascunho para uma reviravolta ou continuará apenas sendo uma lembrança de tudo que Sepetiba já foi.


Deixe um comentário