A economista Daniella Marques Cosentino, responsável pela coordenação do programa econômico da pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), integrou o Conselho de Administração do Banco Digimais entre fevereiro de 2024 e dezembro de 2025. A informação é da colunista Andreza Matais, do portal Metrópoles. A instituição financeira, controlada pelo bispo Edir Macedo, passou a ser alvo da Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal para investigar supostas irregularidades na gestão do banco.
Registros da Junta Comercial de São Paulo apontam que Daniella permaneceu no conselho até 8 de dezembro de 2025. Ela não é investigada na operação e não foi alvo de medidas cautelares determinadas pela Justiça.
Na última terça-feira (23), a Polícia Federal cumpriu mandados de busca contra executivos do Digimais. Entre as medidas autorizadas estão a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Edir Macedo, além de uma ordem de indisponibilidade de bens que pode alcançar R$ 670 milhões, envolvendo o empresário e outros investigados.
A reportagem do Metrópoles informou ter solicitado entrevistas à economista, ao senador Flávio Bolsonaro e ao Banco Digimais, sem obter resposta.
Conexão com o Banco Master
Um dos pontos investigados pela Polícia Federal envolve investimentos realizados pelo Digimais em ativos relacionados ao Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro, preso no âmbito das investigações.
De acordo com a apuração, o Digimais aplicou cerca de R$ 600 milhões em carteiras de crédito vinculadas ao Master. Para os investigadores, a combinação entre esses investimentos, a manutenção de créditos considerados de “origem duvidosa” e uma política agressiva de captação de recursos, oferecendo remuneração acima dos padrões do mercado, pode indicar a prática de gestão temerária ou fraudulenta.
Suspeitas de manipulação contábil
A Polícia Federal sustenta que há indícios de manipulação de mercado e de demonstrações financeiras para mascarar a situação patrimonial da instituição.
Segundo comunicado da corporação, “Os investigados teriam manipulado demonstrativos contábeis e registros regulatórios para ocultar a real situação financeira da instituição, para aparentar solvência perante os órgãos de controle e para viabilizar operações supostamente irregulares”.
Na representação encaminhada à Justiça, a PF afirma que o modelo operacional investigado guarda semelhanças com práticas atribuídas ao Banco Master.
O documento registra que o Digimais “adotou práticas financeiras temerárias e estreitamente análogas às do extinto Banco Master”.
Ainda conforme a investigação, “A diretoria do Banco Digimais replicou a prática de superavaliar ativos mediante a emissão de títulos com rentabilidades desproporcionais aos indicadores de mercado, efetuando manipulações nos balanços, com o objetivo de ocultar dos órgãos de controle a deterioração da sua carteira de crédito”.
Mudanças no conselho e operação milionária
Outro aspecto citado pela Polícia Federal envolve alterações na estrutura de governança do banco no fim de 2025.
Segundo a investigação, o Conselho de Administração do Digimais foi extinto em 8 de dezembro daquele ano. Daniella Marques fazia parte do colegiado e seu mandato estava previsto para terminar apenas em 20 de junho de 2026.
Dias após a extinção do conselho, a controladora da instituição, B.A. Empreendimentos e Participações S.A., adquiriu do próprio banco R$ 741 milhões em cotas do fundo Hermon FIDC-NP.
A auditoria independente anexada às demonstrações financeiras destacou que a operação “não reflete condições usuais de mercado”, observando que os valores envolvidos não eram compatíveis com parâmetros convencionais e que os pagamentos dependeriam de aportes realizados pelos próprios controladores.
A mesma auditoria aponta um crescimento expressivo dos ativos da controladora, que passaram de R$ 785 milhões em 2024 para R$ 1,8 bilhão em 2025.
Trajetória de Daniella Marques
Daniella Marques ganhou projeção nacional ao assumir a presidência da Caixa Econômica Federal em 2022, durante o governo Jair Bolsonaro, substituindo Pedro Guimarães.
Antes de comandar a instituição financeira, integrou a equipe do então ministro da Economia, Paulo Guedes.
Em 2018, foi chamada pelo Ministério Público para prestar depoimento na Operação Greenfield, investigação que analisava a atuação de Paulo Guedes na administração de fundos de pensão. O procedimento acabou arquivado por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
Neste ano, a economista deixou a consultoria Legend Capital para assumir a coordenação do programa econômico da pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Ela já declarou que não pretende ocupar os cargos de ministra da Fazenda ou da Economia em um eventual governo do senador.
Tentativa frustrada de compra do Digimais
A reportagem também relembra que, em janeiro de 2025, Maurício Antonio Quadrado, ex-sócio e ex-executivo do Banco Master, tentou adquirir o Banco Digimais por meio da holding Bluebank.
A operação, no entanto, acabou sendo barrada pelo Banco Central, que identificou riscos associados à transação.
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