Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, transformou a moda brasileira ao resgatar cores, rendas e elementos da cultura nacional, enquanto vivia um drama em busca de respostas pelo desaparecimento do filho, Stuart Angel, vítima da repressão da ditadura militar. Zuzu viveu seus últimos anos de vida no Rio de Janeiro, antes de sofrer um acidente fatal encomendado pelo Estado.
A reportagem de Agenda do Poder alerta para a descrição de episódios de tortura, um dos métodos de censura perpetrados durante os anos de chumbo, que se estenderam de 1964 a 1985 — quando o país recuperou a democracia e promulgou a Constituição de 1988, elegendo José Sarney.
Nascida na pequena cidade de Curvelo, em Minas Gerais, no ano de 1921, Zuleika mudou-se algumas vezes para Belo Horizonte e Bahia, construindo efetivamente sua carreira no Rio. Não qualquer carreira, sem modéstia.
O mercado de moda era regido por homens nos anos 60 e 70. Mas em sua boutique no Leblon, na Zona Sul da cidade, Zuzu ditava as regras com um estilo calcado em elementos brasileiros, especialmente da moda baiana.

Com espírito inquieto, Zuzu não se conformava com o estilo dominante da moda europeia, que pouco dialogava com o clima tropical do Brasil. Logo, cravou o nome no mercado ao resgatar experiências da adolescência, quando viveu na Bahia — trouxe para a moda carioca características nordestinas: a influência do cangaço, rendas, saias, chitas, e cores vivas.
“Tudo isso compunha sua forma de pensar uma moda brasileira que pudesse também dialogar com o cenário internacional. Ela tinha uma boutique no Rio de Janeiro, aberta no final dos anos 1960 e início dos 1970, que foi um sucesso de vendas e abriu portas para que se tornasse uma estilista reconhecida nacionalmente e, depois, internacionalmente”, pontua o historiador e doutorando em Ciências Sociais, Rodrigo Rui.
Zuleika herdou o sobrenome de casada do norte-americano de origem mineira Norman Angel Jones, em 1943. A modista gostava de usar e abusar da tradução com símbolos em sua coleção, lembra Rui.
“Ela criou a figura de um anjo que passou a estampar suas coleções como uma espécie de logomarca. Esse anjo aparecia em vestidos, blusas, calças, acessórios e, em 1971, passou a ser também uma metáfora do próprio Stuart. Na época, ela acreditava que o filho estivesse preso, e não morto”.
Stuart Angel, o Paulo

Com Norman Angel, Zuzu teve três filhos: Stuart Angel, Hildegard Angel (a do meio) e Ana Cristina Angel (a caçula). A família tinha boas condições financeiras e se articulava com a elite carioca. Além de mãe e estilista, Zuzu era também uma budista vaidosa.
O filho mais velho, nascido em Salvador em 1945, teve a oportunidade de estudar na Faculdade de Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), antes conhecida como Universidade do Brasil.
No início da vida adulta, aos 23 anos, Stuart teve seu primeiro contato com movimentos estudantis — que mais tarde se tornaram epicentros da luta contra a ditadura.
“Especificamente sobre a Faculdade de Economia, embora o centro acadêmico ainda fosse dominado por grupos de direita, a partir do pós-golpe um grande grupo de esquerda começou a se formar e conseguiu retomar o centro acadêmico em 1967. Eles já se vinculavam, ou passavam a se vincular, a organizações políticas”, explica o pesquisador da Universidade Estadual de Campinas e autor do livro O MR-8 na luta armada: as armas da crítica e a crítica das armas, de 2019, Higor Codarin.

Durante o período, surgiu a Dissidência Estudantil da Guanabara (DI-GB), uma das várias originárias do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão. Stuart fazia parte desse conjunto junto a outros jovens militantes que tornaram-se relevantes antes e depois da ditadura, como Franklin Martins, Vera Sílvia Magalhães, José Roberto Spigner, Samuel Arão Reis, Lúcia Murack e Cecília Coimbra.
Eles criticavam a política da legenda, que apostava na revolução democrático-nacional liderada pelo presidente da época, João Goulart. Logo após o golpe, os jovens passaram a questionar fortemente a atuação política do partido.
“Se o PCB ainda defendia uma revolução democrático-nacional sem necessidade de confronto armado, muitos jovens concluíram, diante da repressão, que não havia outra saída senão a luta violenta. O assassinato do estudante Edson Luís, em março de 1968, foi um marco. Durante o cortejo fúnebre, slogans como ‘só o povo armado derruba a ditadura’ já apareciam”, conta Codarin.
A dissidência rompeu com o partido em 1966 e, no ano seguinte, já atuava de forma autônoma. Stuart se destacou no grupo e passou a integrar o Comitê Universitário, a direção da organização, ao lado de Vladimir Palmeira e Vera Sílvia Magalhães, em 1968. Ao mesmo tempo, o regime começava a intensificar a repressão, comandada pelo general Arthur da Costa e Silva.
Nesse mesmo ano, o militante entrou na clandestinidade junto a outros ativistas, como Samuel Arão Reis. Sob o codinome Paulo, era conhecido por participar de ações que captavam novos operários para o movimento — morou na Favela Nova Holanda, Zona Norte do Rio, enquanto fazia trabalho político com operários para aproximá-los do comitê.
Após o decreto do AI-5, a dissidência passou a enxergar a luta armada como a única possibilidade de resistência. A ideia não era isolada: muitos movimentos acumulavam coragem e conhecimento sobre a luta violenta como a única forma de resistir à repressão.
O mundo via resquícios globais da Revolução de 1959, em Cuba, descrita por Che Guevara, e movimentos contra o imperialismo norte-americano no campo. Em 1969, a organização caminhou para a luta armada e, mais tarde, passou a se chamar Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).
Teoria dos Dois Demônios

A reação popular civil abriu uma fenda para a criação de uma acusação aplicada tradicionalmente por militares. A chamada “Teoria dos Dois Demônios”, segundo essa interpretação, afirmava que existiam dois lados em guerra: a guerrilha e o governo, como se estivessem em conflito equivalente.
“A força militar de um Estado, com Exército, Marinha e Aeronáutica, é muito maior do que a de guerrilheiros. Eles não eram terroristas. É essencial deixar claro que ‘terrorista’ é um termo pejorativo que distorce o caráter da luta política da época. Era uma guerrilha, urbana e rural, uma forma de resistência organizada, que, como toda luta, envolvia violência, mas era essencialmente política“, defende a professora Beatriz Vieira.
Na clandestinidade, Stuart participou de duas ações armadas. À época, já era casado com Sônia, nora de Zuzu, o que lhe conferia uma fama diferente entre os dissidentes, salienta Codarin.
“Isso chamava atenção dentro da dissidência, que era uma das organizações mais avançadas em termos de costumes. Seu casamento monogâmico formal destoava de outros militantes, o que surpreendia alguns companheiros.”
Em fevereiro de 1969, Stuart participou de uma expropriação no Castelinho, lembra o pesquisador. Em março, se envolveu em outra ação, no Banco Crédito Territorial, em Bonsucesso. Na ocasião, atirou por engano dentro da agência e acabou afastado do grupo de ações armadas, atuando na frente operária.
O rapaz rompeu contato com a família, passou a viver com identidades falsas e morar em “aparelhos” – refúgios usados por grupos armados da resistência.
Surtos psicóticos e sequestros
O MR-8 ganhou projeção nacional com a captura do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em setembro de 1969, retratada no filme O que é isso, companheiro?. O jovem Stuart não participou do sequestro e, depois da ação, a perseguição à organização se intensificou.
No início de 1971, a militante responsável pela estrutura do movimento na Bahia, principalmente em Salvador, Solange Lourenço Gomes, teve uma crise de esquizofrenia e um ataque de pânico.
Levada à delegacia, acabou revelando todas as informações sobre a organização. De lá, seguiu para o Centro de Operações de Defesa Interna da 6ª Região Militar (Codi/6ªRM) na capital, ficou incomunicável e, sob tortura, disse o que sabia do grupo.
Com a prisão de diversos militantes, Stuart foi novamente alçado à direção geral do MR-8, ao lado de João Lopes Salgado e Carlos Alberto Muniz. Nesse período, voltou a participar de ações armadas.
Em 14 de maio de 1971, marcou um encontro em Vila Isabel com Alex Polari, dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). No entanto, Alex já havia sido preso, e Stuart caiu numa armadilha ao comparecer ao ponto combinado, sendo capturado.
Inimigo ‘número um’ da ditadura
Os encontros clandestinos monitorados pelos agentes da repressão eram chamados de “pontos frios” “‘Ter um ponto’ significava ter um encontro marcado em determinado local. Quando o ponto estava frio, queria dizer que a polícia já sabia, já tinha mapeado e prendia os envolvidos”, explica a professora Beatriz Vieira.
Segundo o pesquisador Higor Codarin, a captura de Stuart caiu como um soco no estômago do MR-8.
“A prisão dele foi um duro golpe para a organização. Além de ser dirigente, Stuart tinha informações sobre Carlos Lamarca, que havia acabado de se transferir da VPR para o MR-8. Depois da morte de Marighella, em novembro de 1969, Lamarca era considerado o inimigo número um da ditadura.“
Stuart foi levado à Base Aérea do Galeão e submetido a torturas brutais para revelar o paradeiro de Carlos.
Nessa altura, Zuzu sabia que o filho estava desaparecido. Procurava por todos os lugares e sempre recebia a mesma resposta: “Não está aqui”. Até que um dia recebeu a carta de Alex Polari, que relatou o assassinato de Stuart. Polari conseguiu descrever o ocorrido em uma carta, entregue por um advogado à Zuzu.
Em um dos episódios mais duros de tortura, os militares amarraram e prenderam o jovem com a boca no escapamento de um jipe, arrastando seu corpo por metros. O cadáver de Stuart Angel nunca foi encontrado.
Zuzu, então, foi à luta.
Moda incendiária e batalha pelo anjo
“Zuzu trabalhava em um nicho muito interessante, o da moda, que em princípio parecia despolitizado. O que aconteceu com Stuart — a tortura, o assassinato e o desaparecimento do corpo — fez com que ela politizasse a moda. Foi algo muito marcante”, conta Beatriz Vieira.
O papel de Zuleika, nesse contexto, é diferenciado. Ela não ingressou em organizações clandestinas, mas passou a lutar publicamente contra o regime, dando voz a outras mães de militantes presos, como Esmeraldina Carvalho Cunha.
Mãe de Nilda Cunha, militante do MR-8 na Bahia morta pouco depois de sair da prisão, Esmeraldina passou a denunciar o caso e foi assassinada em 1972, lembra a historiadora e pesquisadora de pós-doutorado da Universidade Federal Fluminense (UFF) Juliana Marques.
“Quando houve a batida policial, tudo acontecia ao mesmo tempo. Stuart foi assassinado dois meses depois; Nilda, presa. Liberada em 1971. Zuzu já estava em sua luta nesse período, mas Esmeraldina foi assassinada primeiro, em 1972.”
Em uma carta escrita pouco antes de morrer, desconfiando que também poderia ser assassinada, Zuzu refletiu sobre a própria dor, questionando-se enquanto o filho era torturado: “E eu tenho que sofrer? E meu filho morto na tortura, isso acontecendo no Brasil desde 1964, eu, na minha santa ignorância, fazendo moda. Vestidinho com flor e passarinho. Moda alegre e descontraída”.
Do sofrimento, partiu para a ação e encabeçou o movimento de resistência na classe média carioca. Escreveu dossiês e entregou ao secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, com detalhes do assassinato do filho, além de uma carta entregue ao então general Ernesto Geisel.

O anjo que estampava suas coleções tornou-se, em 1971, uma metáfora de Stuart. Em um desfile de sua coleção International Dateline Collection III no Consulado Brasileiro em Nova York, o símbolo virou a ausência do filho.
As peças apresentavam imagens de tanques, policiais, pássaros engaiolados e carros de guerra, compondo uma imagética carregada de denúncia.
Vistas isoladamente, as figuras poderiam não dizer muito, mas juntas contavam a história de repressão e violência. O desfile foi dividido e pensado em três atos, sendo o último, o mais político — no fim do desfile, Zuzu surgiu vestida de preto da cabeça aos pés, como um corvo.
“O mais interessante era a relação dela com o luto. Zuzu usava crucifixos pendurados na cintura, véu preto e roxo, e apresentava-se como mãe em luto e artista da moda que transformava sua dor em criação”, analisa Rui.
O acidente

Zuzu continuou na luta em busca de respostas sobre o filho até sofrer um atentado disfarçado de acidente de carro no Túnel Dois Irmãos, que mais tarde recebeu seu nome, em 1976.
Na cena do crime, seu charmoso Volkswagen Karmann-Ghia azul claro esmagado de cabeça para baixo. Ao fundo, um rosto conhecido das forças militares, Freddie Perdigão Pereira, o Coronel Perdigão, acusado de ser responsável pela Casa da Morte de Petrópolis e autor do atentado do Riocentro.
Mais de duas décadas se passaram até que o envolvimento do Estado na morte da estilista fosse comprovado, em 1998. Entre registros considerados suspeitos antes da morte, estava a carta que Zuleika enviou ao amigo Chico Buarque de Holanda, temendo ser executada. “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”, escreveu.
Stuart é um dos milhares de desaparecidos políticos do governo brasileiro. Há relatos de que seu corpo fora jogado, assim como muitos outros, no mar.
Morte certificada pelo Estado
Recentemente, a história de Zuleika teve um novo contorno. Em agosto deste ano, 49 anos após sua morte, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania certificou sua certidão de óbito. O documento foi entregue à família em Minas Gerais, no dia 28, junto com outras 20 famílias de vítimas da ditadura.
Desumanização e memória
Alex Polari de Alverga, companheiro de Stuart, traduziu a desumanização da perseguição dos militares em poesia. Em Canção para ‘Paulo (Stuart Angel), Polari escreve:
“Um sentido totalmente diferente de existir
se descobre ali,
naquela sala.
Um sentido totalmente diferente de morrer
se morre ali,
naquela vala.
Então houve o percurso sem volta
houve a chuva que não molhou
e a noite que não era escura
o tempo que não era tempo
o amor que não era mais amor
a coisa que não era mais coisa nenhuma.
Entregue a perplexidades como estas,
meus cabelos foram se embranquecendo
e os dias foram se passando.”

Chico Buarque compôs os imortais versos de Angélica, um acalanto para Zuzu: mãe em luto e em luta, que bordou com fios de dor e coragem o nome do filho nos tecidos da memória brasileira.
“Quem é essa mulher / Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo / E deixar seu corpo descansar
Quem é essa mulher / Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino / Que ele já não pode mais cantar”.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes


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