A seleção argentina disputou finais de Copa do Mundo, ergueu taças e revelou craques que encantaram o planeta. Mas, convenhamos, se futebol fosse só o que acontece no gramado, a história da albiceleste em Mundiais seria bem menos divertida. O que torna a trajetória dos hermanos verdadeiramente fascinante é uma coleção de episódios tão absurdos, tão cinematográficos e, cá entre nós, tão convenientemente suspeitos.
Não se trata aqui de manchar a memória de Messi ou de Maradona. Trata-se de reconhecer que, em matéria de criatividade, os hermanos não se limitam ao drible: eles inventam polêmicas, driblam regulamentos e, quando a coisa aperta, apelam para o que há de mais eficaz. Uma ajudinha extra, seja ela vinda de um ditador, de uma garrafa de água ou de um VAR que só aparece quando o estádio já está vazio. E o melhor: tudo isso, anos depois, é contado com um sorriso, como quem relembra uma travessura de infância.
Se o Brasil é pentacampeão nos campos, a Argentina é, no mínimo, pentacampeã da criatividade em situações-limite. E é exatamente essa alma controversa que alimenta a maior rivalidade do futebol sul-americano, transformando cada clássico em algo muito maior do que onze contra onze.

Por que Brasil e Argentina são a maior rivalidade do futebol sul-americano?
A rivalidade entre Argentina e Brasil no futebol é descrita pela FIFA como a “essência da rivalidade futebolística”. E não é para menos. São dois gigantes que se estranham desde o primeiro chute, em m 20 de setembro de 1914, em Buenos Aires, com vitória argentina por 3 a 0, e a partir daí o duelo nunca mais coube apenas dentro das quatro linhas.
As tretas deste clássico já começam na contagem de vitórias, que varia conforme a fonte consultada. Segundo a Fifa, as seleções se enfrentaram 111 vezes, com 43 vitórias brasileiras, 42 argentinas e 26 empates, números que a CBF, a AFA e até levantamentos jornalísticos independentes contestam em detalhes, já que cada entidade reconhece um conjunto diferente de partidas como oficiais. Mais do que estatística, o duelo carrega oito títulos mundiais somados entre os dois países, disputas históricas de hegemonia continental e um anedotário recheado de episódios em que o resultado do jogo foi o menor dos problemas.

Porque a Copa da Argentina em 1978 é tão polêmica?
Porque ela permanece na história do esporte como o exemplo mais flagrante de instrumentalização política do futebol por um regime autoritário. O país estava sob as garras de uma ditadura militar brutal, liderada pelo general Jorge Rafael Videla, que viu no torneio a oportunidade perfeita para mascarar as denúncias internacionais de violações massivas dos direitos humanos, torturas e desaparecimentos forçados.
Segundo as investigações extensivas detalhadas no relatório “Nunca Más” da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), o governo investiu fortunas na infraestrutura e na propaganda estatal para projetar uma imagem de paz, ordem e contentamento popular para os observadores estrangeiros.
O ambiente de intimidação e a urgência patriótica imposta pelos militares criaram uma atmosfera asfixiante sobre o torneio, na qual a vitória da seleção nacional era uma questão de Estado, e não apenas um objetivo esportivo. Arbitragens tendenciosas, horários de jogos manipulados para favorecer os donos da casa e a constante presença ostensiva de soldados armados nos estádios alimentaram as suspeitas internacionais.
Historiadores e jornalistas investigativos apontam que o triunfo esportivo da Argentina serviu temporariamente como um poderoso anestésico social, legitimando o regime perante sua própria população e ligando indissociavelmente a primeira estrela na camisa celeste e branca ao período mais sombrio da história política do país.

O resultado mais suspeito das Copas do Mundo
Para avançar à final, a Argentina precisava vencer o Peru por uma diferença de pelo menos quatro gols. Só que o time conseguiu bem mais: goleou por um sonoro 6 a 0, em Rosário. O Peru, que vinha de uma campanha respeitável na competição, com vitórias sobre a Escócia e empate com a Holanda, finalista do torneio, sucumbiu de um jeito tão desproporcional que o resultado passou a ser tratado, desde então, como um dos mais suspeitos da história das Copas.
No centro das suspeições estava o goleiro do Peru, Ramón Quiroga, nascido na própria Rosário, palco do jogo, e naturalizado peruano após anos de carreira no país vizinho. O fato de o goleiro adversário ser argentino de nascimento alimentou de imediato as teorias de que ele teria facilitado os gols, embora as imagens da partida, não mostrem falhas técnicas evidentes capazes de sustentar essa acusação de forma definitiva. Quiroga sempre negou qualquer arranjo e, em entrevista ao jornal argentino La Nación em 1998, declarou que “coisas raras” aconteceram antes da partida, atribuindo a culpa a outros companheiros de equipe.

Entre as teorias mais persistentes está a visita do próprio ditador argentino, o general Jorge Videla ao vestiário peruano antes da partida, como tentativa de pressão psicológica disfarçada de gesto protocolar de boas-vindas. Até o secretário de Estado norte-americano da época, Henry Kissinger, também teria passado pelo vestiário peruano antes do jogo, supostamente para desejar “sorte”.
O que ninguém iria imaginar é que anos depois o ex-jogador peruano José Velásquez afirmou, em entrevista ao jornal Trome, que ao menos seis companheiros de equipe teriam recebido dinheiro para perder a partida, citando nominalmente Quiroga entre os suspeitos. Tudo isso, junto e misturado fez, mais de quatro décadas depois, esse jogo manter a etiqueta de partida mais suspeita da história das Copas.
Branco e a água batizada de 1990
Nas oitavas de final da Copa do Mundo de 1990, na Itália, o clássico ganhou um capítulo que misturou trapaça médica e comédia pastelão no episódio que ficou mundialmente conhecido como a noite da água batizada. Durante uma paralisação para atendimento médico, o folclórico massagista argentino Miguel Di Lorenzo, o Galíndez, entrou em campo carregando garrafas plásticas com cores ligeiramente distintas. O lateral-esquerdo brasileiro Branco, consumido pela sede sob o calor italiano, aproximou-se e bebeu sofregamente de uma das garrafas oferecidas pelos adversários, sem imaginar a emboscada farmacológica armada.
Branco passou o restante da partida visivelmente tonto, errando passes e cambaleando em campo, enquanto a Argentina construía a vitória por 1 a 0 que a levaria, depois, à final daquele Mundial. Anos mais tarde, em entrevista concedida em 2004 e reproduzida por diversos veículos, Maradona admitiu, entre risadas, que a água continha uma altíssima quantidade de Rohypnol diluído. Trata-se de um sedativo e relaxante muscular indicado para induzir o sono em casos de insônia grave.
Em 2016, Branco revelou que o zagueiro argentino Oscar Ruggeri lhe contou os detalhes da armação. O técnico Carlos Bilardo, por sua vez, evitou falar diretamente sobre o episódio em entrevista à revista argentina Ventitrés, mas também não desmentiu a versão de Maradona quando questionado sobre ela. Décadas depois, o episódio resiste como um dos raros casos em que um time admite, ainda que rindo, ter recorrido a um artifício tão peculiar para vencer um clássico de Copa do Mundo.

A Copa na qual usar cabelo comprido custou caro à Argentina
Antes da Copa da França em 1998, o técnico Daniel Passarella decidiu impor um regulamento de conduta rígido à seleção argentina, banindo brincos, tiaras e, de forma especialmente controversa, cabelos longos, sob a justificativa de que tais hábitos seriam sinal de indisciplina. A medida dividiu o vestiário, com craques como Gabriel Batistuta optando por cortar o cabelo para garantir vaga na convocação, enquanto outros dois nomes de peso resolveram desafiar abertamente o comando técnico.
Fernando Redondo, então um dos melhores volantes do mundo em grande fase pelo Real Madrid, recusou-se terminantemente a cortar o cabelo e acabou fora do Mundial. Outro craque que se recusou a cortar as madeixas foi Claudio Caniggia. A Argentina de Passarella acabou eliminada nas quartas de final pela Holanda, e até hoje o debate sobre se a equipe teria sido mais forte com os cabeludos em campo nunca chegou a um veredito definitivo entre os próprios argentinos


Um clássico interrompido pela Anvisa
Em 5 de setembro de 2021, em plena pandemia de Covid-19, Brasil e Argentina se enfrentavam na Neo Química Arena, em São Paulo, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, quando, com apenas cinco minutos de jogo, agentes da Anvisa e da Polícia Federal entraram em campo para retirar quatro jogadores argentinos: Emiliano Martínez, Emiliano Buendía, Giovani Lo Celso e Cristian Romero.
Os quatro atuavam em clubes da Premier League inglesa e haviam, segundo a agência sanitária, prestado informações falsas ao omitir que passaram pelo Reino Unido nos catorze dias anteriores, em violação direta às regras brasileiras de quarentena vigentes naquele período da pandemia.
O presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, afirmou que a agência havia tentado localizar os atletas no hotel da delegação para deportá-los antes da partida. Mas a equipe já havia se deslocado ao estádio quando a Polícia Federal chegou ao local, obrigando a ação dramática com agentes do Estado brasileiro entrando em campo para fazer cumprir uma portaria sanitária, diante das câmeras de televisão.

Uma vitória que demorou duas horas para ser confirmada
Na estreia do futebol masculino dos Jogos Olímpicos de Paris, em julho de 2024, a Argentina enfrentou o Marrocos em Saint-Étienne em uma partida que entraria para os anais do esporte olímpico pelos motivos mais inusitados.
Marrocos vencia por 2 a 1 quando, já nos minutos finais de um longo período de acréscimos concedido pelo árbitro sueco Glenn Nyberg, o argentino Cristian Medina empatou. A reação marroquina foi imediata e violenta. Torcedores arremessaram objetos contra os jogadores argentinos e invadiram o campo, forçando as duas equipes a correrem para os vestiários em meio à confusão e pancadaria generalizadas.
A partida foi interrompida e, por quase duas horas, ninguém em campo ou nas arquibancadas sabia se o jogo havia terminado em 2 a 2 ou continuaria, já que o VAR não havia tido tempo de revisar o lance do empate antes da invasão. Quando a arbitragem finalmente conseguiu analisar a jogada, identificou impedimento e anulou o gol de Medina, determinando a retomada da partida pelos minutos restantes.
Mas o detalhe mais surreal veio a seguir: como os torcedores já haviam deixado o estádio quando a decisão foi anunciada, as duas equipes precisaram voltar ao gramado para disputar os instantes finais em um Estádio Geoffroy-Guichard completamente vazio, encerrando a partida com a vitória marroquina por 2 a 1, em um episódio que a imprensa não hesitou em comparar a uma “várzea organizada” em pleno contexto olímpico.


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