Conheça o significado e o que representam as cores nos lenços árabes

As diferentes combinações carregam variações conforme a história e a geografia de cada povo

Eles entram e saem de moda de acordo com o movimento das marés políticas no Oriente Médio. Originalmente era apenas um pano que os árabes usavam no deserto pra se proteger do calor como um chapéu panamá, mas com o tempo se tornaram tecidos carregados de história, identidade, resistência e orgulho. Nesses tempos turbulentos, você já deve ter visto alguém na rua usando-os como uma echarpe. São os keffiyeh, também conhecidos como ou kufiya, shemagh, entre outros nomes que definem um item tradicionalíssimo do mundo árabe.

São presos a cabeça por um cordão duplo, geralmente preto, feito de lã de camelo, algodão ou materiais sintéticos modernos chamado agal, cujas raízes vem das tradições dosbeduínos, povos nômades do deserto. Em algumas culturas, quanto mais grosso ou elaborado o agal, maior o prestígio da pessoa. Em outras, servia como uma ferramenta improvisada, usada para amarrar as patas dos camelos — sua maior função era evitar que os keffiyeh escorregassem da cabeça do sheik.

Mas o que pouca gente sabe é que o keffiyeh é muito mais do que um mero acessório. Ele é um tecido carregado de história, identidade, resistência e orgulho. Suas cores e padrões não são escolhas aleatórias, mas narrativas visíveis de povos, culturas e até expressão política de lutas que atravessaram séculos. As diferentes combinações de cores carregam significados específicos, que variam conforme a história e a geografia de cada povo.

  • Preto e branco – O símbolo da Palestina

Essa versão é o hype do momento. O keffiyeh preto e branco é o segundo mais popular no mundo. Tornou-se símbolo da resistência palestina no século XX, quando foi popularizado pela figura de Yasser Arafat, líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Seu significado representa a luta pela soberania palestina e a resistência contra a ocupação.

As linhas pretas simbolizam as redes de pesca dos palestinos e os padrões em espinha de peixe representam a conexão com o mar e os campos agrícolas, simbolizando a ligação do povo com sua terra e trabalho. Atualmente se tornou um símbolo global de resistência, solidariedade e luta contra opressões.

Lenço palestino: símbolo de resistência | Reprodução
  • Vermelho e branco – Orgulho nacional jordano

O keffiyeh tradicional da Jordânia é certamente o mais conhecido de todos. Conhecido como Shemagh Mhadab, ele é parte fundamental do traje nacional jordaniano e tem raízes nas tradições dos povos beduínos, que habitam o deserto desde tempos antigos.

O padrão de cores representa o nacionalismo jordaniano, o orgulho das tradições e a força dos beduínos. Enquanto as linhas vermelhas simbolizam o sangue dos mártires e a bravura, o branco representa a paz, a pureza e a união. É usado por militares, autoridades e civis na Jordânia, reforçando a identidade nacional e cultural.

  • Preto e vermelho – força tribal e identidade beduína

Menos difundido que os anteriores, este padrão é comum em algumas tribos beduínas na Jordânia, Arábia Saudita e regiões do Iraque. É uma variação do vermelho e branco, mas com uma estética mais forte e marcante. A ideia é simbolizar força, resistência, coragem e honra tribal. 

O vermelho representa o sangue e a bravura, já o preto remete a noções de resistência, dignidade e solidez. É usado principalmente em ambientes tribais, cerimônias ou situações que exigem demonstração de força e união.

Peça tem estética forte e marcante | Reprodução
  • Verde – A cor do Islã e da esperança

O verde é uma cor altamente simbólica no mundo islâmico. Segundo a tradição, era a cor preferida do profeta Maomé, simbolizando o paraíso no Alcorão. Ele representa a fé islâmica, a esperança, a fertilidade e a conexão espiritual. Ou seja, é menos associado a movimentos políticos e mais à espiritualidade e pureza. Costuma ser usado ocasionalmente por grupos religiosos e autoridades islâmicas em festividades religiosas.

Verde: fé no Alcorão e Islã | Reprodução
  • Amarelo – Paz, esperança e reconciliação

Embora seja menos comum do que suas contrapartes preta e branca ou vermelha, a vibrante variante amarela carrega significados que ressoam profundamente em vários contextos culturais e sociais. Em muitas culturas, a cor amarela é frequentemente associada a paz e a prosperidade. O amarelo geralmente simboliza um futuro esperançoso e reconciliação.

Em áreas de conflito, usar um keffiyeh amarelo pode significar um desejo de paz e diálogo, em vez de confronto. O tom brilhante do amarelo também pode simbolizar força e durabilidade. As pessoas o usam como um lembrete de sua força interior e da resiliência necessária para superar desafios, particularmente em tempos de conflitos políticos ou sociais.

Amarelo tem contextos diferentes em cada cultura | Reprodução
  • Branco – Pureza e paz

Embora seja visto com menos frequência no uso diário, o keffiyeh branco é usado durante ocasiões específicas que enfatizam sua mensagem de paz. Eventos com foco em diálogo ou reconciliação frequentemente veem os participantes usando essa cor para simbolizar seu comprometimento em encontrar um ponto em comum.

Além disso, o keffiyeh branco atrai indivíduos que desejam expressar seu desejo por paz sem as implicações políticas que outras cores podem transmitir. Sua elegância discreta agrada a muitos, tornando-o adequado para ambientes formais e casuais. Era o keffiyeh usado pelo personagem de Peter O’Toole no clássico hollywoodiano “Lawrence da Arábia”.

Peter O’Toole, personagem central de ‘Lawrence da Arábia’ | Reprodução
  • Azul – Reviravolta moderna na tradição

Os fashionistas não iam deixar um símbolo desses passar impunemente. O keffiyeh azul foi adotado por designers e influenciadores de moda, tornando-se um item básico em coleções de streetwear. Seu design versátil permite que ele seja combinado com várias roupas, tornando-o atraente para um público amplo. Historicamente é raríssimo no Oriente Médio. 

Em contextos modernos, significa criatividade, diversidade e ruptura com padrões tradicionais. Comum em movimentos jovens e progressistas fora do mundo árabe, ele representa uma interpretação moderna da identidade e herança cultural palestinas.

Vestimenta foi adotada por influenciadores de moda | Reprodução
  • Keffiyehs coloridos – Expressão, diversidade e resistência cultural global

Os keffiyehs rosa, roxo, verde neon, multicoloridos e estampados surgiram nas últimas décadas como apropriação cultural ou reinvenção no mercado da moda. Em tese, simbolizam diversidade, liberdade, expressão de gênero, identidade queer (o que não é muito bem-visto por aqueles lados), rebeldia e criatividade. Para algumas pessoas, é uma forma de homenagear as lutas por liberdade e dignidade de povos oprimidos em geral. Para outras, são apenas itens de moda, sem necessariamente carregar significados políticos ou culturais.

O futuro das cores

Perguntar não ofende. Então será que as cores do keffiyeh continuarão a ter significado político e cultural? À medida que avança o século XXI, ele continua a ser um símbolo poderoso de identidade e resistência. No entanto, os significados por trás das cores estão evoluindo. Além de suas conotações tradicionais, elas estão sendo reinterpretadas à luz de questões globais contemporâneas.

Com o aumento da globalização, o keffiyeh está sendo adotado por diversas culturas em todo o mundo. Sua crescente visibilidade entre os fashionistas indica uma tendência onde moda e ativismo se cruzam. Os designers estão reconhecendo o keffiyeh não apenas como um artefato cultural, mas também como uma plataforma para comentários sociais.

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