Em um canto afastado (e muito afastado) da Zona Oeste da Guanabara, encontra-se Campo Grande. Não, não a capital do Mato Grosso do Sul, mas um bairro carioca que, em um raro momento em que a burocracia brasileira superou seu próprio surrealismo, uma lei estadual assinada com toda pompa transformou em cidade… para que, logo em seguida, ninguém obedecesse. Foi a maior independência que nunca aconteceu.
A história é tão bizarra que parece piada de mesa de bar. E, como toda boa piada, envolve governos, ditaduras, um plebiscito que jamais existiu e uma Cordilheira dos Andes de papelada que ninguém quis preencher. A Lei nº 1.712 nasceu, foi promulgada, respirou por alguns segundos e, na sequência, entrou no limbo administrativo onde repousam documentos que o Estado prefere esquecer. Campo Grande virou município da noite para o dia, mas acordou bairro de novo, sem nem ter tido tempo de fazer um brasão municipal.
O resultado dessa “emancipação relâmpago” é um daqueles episódios que só poderiam ter acontecido na Guanabara: um lugar grande demais para ser só bairro, populoso demais para passar despercebido, mas vítima de forças políticas, logísticas e, claro, da boa e velha pitada de carioquice que transforma qualquer decisão séria em anedota. No fim, Campo Grande seguiu sua vida normal. Afinal, quem precisa de prefeito quando se tem viaduto com nome que ninguém sabe explicar de onde veio, esquina do pecado e até Roberto Carlos descendo de helicóptero para cantar na marquise?
Para entender essa gigantesca e enigmática porção da cidade, é preciso mergulhar em seus episódios históricos, que transitam entre o factual documentado e o folclórico oral, sempre com aquele toque de ironia que apenas um bairro que já foi “cidade por um dia” pode proporcionar. Prepare-se para uma viagem onde a linha entre a história e a lenda é tão tênue quanto a paciência de quem tenta ir do centro do Rio até lá no horário de rush.

Campo Grande já foi mesmo transformado em cidade?
Sim, em um surto coletivo de grandeza e burocratismo, Campo Grande foi emancipado. Não é lenda urbana. A Lei Estadual nº 1.712, de 4 de dezembro de 1968, assinada pelo governador Francisco Negrão de Lima, criou o Município de Campo Grande, desmembrado do Rio de Janeiro.
A justificativa era a distância do centro decisório e as necessidades específicas da enorme população. Só que Lei nunca pegou.
A máquina administrativa do Estado da Guanabara simplesmente ignorou o ato legislativo do próprio governador, em um dos casos mais curiosos de “emancipação relâmpago” ou da história brasileira. Alguns diriam “esse dia foi louco”,
Por que a Lei não foi implementada?
As razões são alvo de longos debates entre historiadores, mas misturam burocracia, política, carioquice em boa quantidade e uma boa dose de realismo logístico.
Havia a questão prática: criar uma estrutura administrativa do zero, com todos os custos, era um desafio hercúleo. Segundo, e talvez mais decisivo, o contexto político. Estávamos no auge da Ditadura Militar, e os generais não viam com bons olhos a fragmentação de uma cidade estratégica como o Rio de Janeiro.
O pesquisador e historiador campo-grandense João Baptista Ferreira, destaca que a lei carecia de regulamentação e de um plebiscito, como exigia a Constituição da época. A pressão de grupos contrários à emancipação, somada ao clima político centralizador, fez com a lei fosse, simplesmente, “engavetada” e esquecida.
Qual a origem de Campo Grande?
A história de Campo Grande está umbilicalmente ligada à expansão das fazendas de cana-de-açúcar no período colonial para além dos limites da Guanabara, então centralizada no entorno da Praça XV e do Morro do Castelo.
O bairro nasceu oficialmente em 1603, quando a Coroa Portuguesa distribuiu sesmarias na região, mas consolidou-se a partir da Fazenda do Campinho, propriedade do alferes português Manoel Barcelos Domingues, que em 1663 ergueu a capela que nas décadas seguintes, foi ampliada e se tornou a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Desterro.
Portanto, sim, a Fazenda do Campinho é amplamente reconhecida como a origem do núcleo urbano. Suas terras eram tão vastas que iam além dos limites do atual bairro. Séculos depois, Campo Grande seria conhecido como “Império da Laranja”, tamanha sua produção agrícola.
A sede não sobreviveu aos séculos. Mas o antigo caminho para a fazenda é, hoje, a movimentada Rua Coronel Agostinho.
O viaduto mais carioca da Guanabara
Aqui parece rolar uma versão carioca para a lenda do brasileiro gaiato que trabalharia na Lucas Film, produtora da saga “Guerra nas Estrelas”, e seria o responsável por nomes de personagens como o do Conde Dooku, ou do general Syfo Dias.
Se você estiver em Campo Grande e pedir referências sobre como chegar ao Viaduto Engenheiro Oscar de Brito, é possível que não saibam como ajudá-lo. Mas se perguntar pelo Viaduto dos Cabritos, todo mundo sabe onde é. Só que aqui tem uma pegadinha.
Nenhum pesquisador jamais encontrou qualquer confirmação oficial de que tenha existido um tal engenheiro Oscar de Brito e menos ainda porque o nome dele figura no viaduto que cruza a Avenida Brasil.
Seria tudo uma grande gozação? Bom, existem duas versões para o apelido.
A mais simples é que ao lado do canteiro de obras, teria existido um curral de cabras. Outra, reza que o governador Carlos Lacerda teria dito em certa ocasião que a obra “só serviria para cabritos passarem”. De uma forma ou de outra, o nome colou.

O que a “Esquina do Pecado”?
A famosa (e infame) “Esquina do Pecado” era um ponto de encontro, na confluência da Rua Cesário Alvim com a Estrada do Cabuçu, de estalagens e prostíbulos. Era a zona de vida noturna e de entretenimento adulto de Campo Grande, uma espécie de “Las Vegas” cabocla, onde se encontrava de tudo um muito após o pôr do sol.
O nome, obviamente, é uma referência bem-humorada aos prazeres carnais e boêmios que o local proporcionava. Era um ponto conhecidíssimo por gerações, simbolizando uma certa liberalidade e vitalidade noturna em um bairro então mais afastado.
Dizem as lenas que o príncipe Dom Pedro costumava fazer ali um pit stop estratégico quando cruzava a Estrada Real (atual Cesário Alvim) até a Fazenda de Santa Cruz, refúgio de verão da família real portuguesa. Era Dom Pedro sendo Dom Pedro.
Hoje já não restam estabelecimentos com o perfil do passado. No local, há uma igreja evangélica cujos pastores, acredite ou não, garantem que o apelido na verdade era “Esquina dos Pescados”, por ter existido ali um mercado de peixes, e hoje querem a todo custo que o povo passe a chamar a região de “Esquina da Benção”. É cada uma…

Quando o Rei parou Campo Grande
Dessa vez não vamos contar nenhuma peraltice de Dom Pedro I, de seu pai ou de seu filho, mas do episódio ocorrido em 7 de setembro de 1972, quando o Rei Roberto Carlos, no auge do seu sucesso, inaugurou a loja da Magazine Lua (Magal) em Campo Grande.
A Magal era uma rede de magazines (grandes lojas de departamentos) muito popular nos anos 70 e 80, especialmente na Zona Oeste, concorrente direta da Lojas Americanas.
O episódio foi um evento de proporções bíblicas para o bairro, lembrado até hoje. Uma reportagem do Jornal do Brasil descreveu a cena: uma multidão estimada em mais de 10 mil pessoas se espremeu para ver o ídolo, que chegou de helicóptero, cantou algumas canções na marquise da loja e cortou a fita inaugural.

Como se tornou o bairro mais populoso do Brasil?
O fenômeno é resultado de um processo intenso de expansão urbana a partir da década de 1970, impulsionado por três fatores: a abertura da Avenida Brasil; da BR-116; e a política de loteamentos populares que atraíram milhares de famílias de outras regiões.
Não foi uma explosão, mas uma inundação lenta e contínua. Campo Grande oferecia espaço, e o carioca, necessitando de lugar para morar, foi ocupando. O resultado é uma cidade dentro da cidade, com populações maiores que a de 96% dos municípios brasileiros, conforme dados do Censo 2022 quando já ultrapassava os 320 mil habitantes.

O que mais tem para fazer por lá?
Para além de suas histórias curiosas, Campo Grande é um bairro que vive no presente. É um polo comercial gigantesco, abrigando o West Shopping, um dos mais movimentados da cidade, e centenas de galerias e comércios de rua.
A cena gastronômica é robusta, com os tradicionais “baianos” (barracas de acarajé e comida nordestina) e churrascarias. Em resumo, não falta o que fazer. O desafio, para o morador do “outro lado” da cidade, é ter disposição para a expedição que é chegar até lá.


Deixe um comentário