No alto das encostas de Niterói, longe do burburinho do trânsito para a Região Oceânica, há vestígios de uma engenharia invisibilizada. Uma obra que já levou água, vida e poder à antiga Vila Real da Praia Grande. O aqueduto da Chácara do Vintém, hoje pouco conhecido até por moradores locais, foi parte essencial do abastecimento urbano em um tempo em que a água caminhava lentamente por gravidade, conduzida por canais de pedra e barro, cruzando morros e vales até chegar às bicas localizadas no Centro. 

O nome da cidade, vale lembrar, já diz tudo. Niterói, em tupi-guarani, significa “água escondida”. É como se os povos originários que habitavam essas terras desde o século XVI tivessem deixado para a posteridade um alerta: a água aqui vai sempre ser complicada. E o problema é que a maldição se cumpriu. 

Essa história, porém, não é linear nem totalmente documentada. E talvez seja justamente isso que a torne fascinante. Entre registros fragmentados, memórias orais e estudos históricos, o aqueduto da Chácara do Vintém emerge como um personagem discreto, mas fundamental, da formação de Niterói. 

Que aqueduto é esse? 

Nossa história começa quando a antiga Vila Real da Praia Grande cidade recém-nomeada como Nictheroy, e elevada a capital da Província do Rio de Janeiro, precisava urgentemente resolver um problema crônico de falta de água e uma piada pronta, já que Niterói em tupi significa, literalmente, “água escondida”.  

Os mananciais mais promissores estavam nos atuais morros de São Lourenço, Boa Vista, Juca Branco e Serrão, que ainda apresentam nascentes bem ativas. O governo provincial construiu então um aqueduto do Morro de São Lourenço para conduzir as águas para um chafariz no Largo Municipal, atual Praça D. Pedro II ou Jardim de São João, no Centro de Niterói. Mas não foi o suficiente. 

Quem se deu bem no meio da escassez foi o conselheiro José Caetano de Andrade Pinto (major da Guarda Nacional e Conselheiro do Império), que teve sua chácara desapropriada pela fortuna de seis contos de réis. Como na bica usada pela população no Centro, a água era vendida ao custo simbólico de um vintém, a antiga Chácara Andrade Pinto passou a ser chamada pelo povão de Chácara do Vintém. 

Detalhes das ruínas (Crédito: reprodução)

Quais eram as dimensões do aqueduto? 

As ruínas mostram uma estrutura modesta, mas funcional, com arcos em pedra e cal. Não existem registros técnicos completos preservados que detalhem com precisão as dimensões do aqueduto da Chácara do Vintém. Diferentemente de grandes estruturas como os Arcos da Lapa, na Guanabara, ele tinha caráter utilitário e local, o que explica a escassez de documentação formal. 

Sua extensão, porém, era mais significativa do que sua altura ou imponência visual. Estudos sobre sistemas hidráulicos coloniais no Brasil indicam que o trajeto poderia ter até cinco quilômetros cruzando o Centro Histórico de Niterói, o suficiente para exigir a engenharia de aqueduto e canalização. 

Já o chafariz do Largo Municipal desapareceu com as reformas urbanas do século XX. Dele, hoje, restam apenas registros históricos. 

Entrada da trilha de acesso às ruínas do aqueduto (Crédito: Reprodução)

O que é o Parque Municipal das Águas Escondidas? 

Poucos lugares de Niterói carregam tantas camadas de história como o Morro Boa Vista, onde está situado o Parque. o sopé da vertente norte do morro foi o local onde o famoso cacique Araribóia fundou a Aldeia de São Lourenço dos Índios e onde está situada a Igreja de São Lourenço dos Índios, datada do século XVI.  

Este local é marcado como o primeiro ponto de ocupação da colonização portuguesa no território que, mais tarde, se constituiria na cidade de Niterói. No sul do morro foi implementado em 1837 o Aqueduto da Chácara do Vintém. Ou seja, um mesmo morro, portanto, guarda nos dois flancos a aldeia que deu origem a Niterói e o aqueduto que tentou acabar com sua sede décadas depois. 

Com cerca de 62 hectares, o Parque Natural Municipal da Água Escondida é a maior área protegida da parte central da cidade. Dentro do parque estão as ruínas do aqueduto, o reservatório histórico e a antiga fonte de abastecimento público. 

Um dos destaques do parque é a Trilha das Águas Escondidas, um percurso ecológico que poucos nativos conhecem e permite acesso a nascentes, trechos de mata preservada e vestígios históricos, incluindo remanescentes do antigo sistema de abastecimento. 

Uma das cisternas que fazia parte do sistema de abastecimento (Crédito: Reprodução)

A igreja fundada na aldeia de Araribóia ainda existe? 

 
Sim, e está de pé há mais de quatro séculos. A construção da Igreja de São Lourenço dos Índios remonta ao século XVI. Em 1570 uma capela já havia sido erguida, em taipa, no alto de um morro da Aldeia de São Lourenço dos Índios. No entanto, foi no século seguinte, em 1627, que um templo maior, construído com pedra e cal, foi levantado.  

A estrutura passou por diversas reformas ao longo dos séculos, sempre preservando as linhas jesuítas originais. A igreja foi tombada pelo governo federal em 1938 e pelo governo municipal em 1992.  

Em novembro de 2001, foi reaberta ao público após ampla restauração, como presente de aniversário de 428 anos da cidade. Até hoje funciona como espaço de visitação e missas, sendo administrada pela Secretaria Municipal das Culturas de Niterói desde 2020. 

Igreja de São Lourenço dos Índios: um dos primeiros pontos da ocupação portuguesa (Crédito: Reprodução)

O que é o sistema Imunana-Laranjal? 

É uma resposta ainda insuficiente a uma pergunta que Niterói faz desde o século XIX: onde está a água? No final do século XIX, a Província estendeu a sua busca por água para o Rio Macacu, que originou o sistema Imunana-Laranjal, de onde provém atualmente as águas que abastecem Niterói e outros municípios do Leste da Baía de Guanabara. 

A captação deste sistema é feita no Canal de Imunana, localizado no município de Guapimirim e formado pelos rios Macacu e Guapiaçu. Segundo dados da Águas de Niterói, do volume total de água tratada pela ETA Laranjal, 2.100 litros por segundo são destinados para o município de Niterói. O problema é que a vazão não dá conta dá demanda. O sistema fornece seis m³/segundo, enquanto a cidade precisaria de oito m³/segundo. 

Da bica da Chácara do Vintém ao Canal de Imunana, Niterói percorreu séculos de história hídrica e ainda não resolveu o problema que o nome da cidade anuncia desde sempre. 

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