Aqui fica uma das maiores regiões da Guanabara em extensão territorial, uma das menos povoadas e uma das mais antigas do Brasil. Guaratiba é como aquele jantar servido “à la russe” ou “by courses”, com três degustações diferentes em um pacote completo de contrastes. Você chega pelo manguezal, respira ar puro e pensa que está em alguma região inexplorada do planeta; após atravessar uma estrada sinuosa chega a um oceano de opções de restaurantes rústicos especializados em frutos do mar, cheio de cariocas e simpatizantes comendo caranguejos ao estilo toque-toque; e, se for valente, depois da digestão ainda encara a Pedra de Guaratiba, que mistura interior, história e trilhas ecológicas como se no fim das contas tudo terminasse em um slogan: “bem-vindo ao bairro três em um”.
Explicando explicadinho, o bairro é um trio com personalidades próprias. Guaratiba abraça os manguezais e bananais, preservando o silêncio rural; Barra de Guaratiba exibe clima praiano com restaurantes que fazem qualquer foodie suspirar; já a Pedra de Guaratiba é o ponto de equilíbrio, com trilhas, sambaquis arqueológicos e lazer para quem gosta de interior sem sair dos limites históricos da Guanabara.
Juntos, eles formam um território tão grande que, se fosse país, precisaria de passaporte próprio. E é nesse choque de gêneros que Guaratiba se torna irresistível: por um lado, a natureza intacta do Parque Estadual da Pedra Branca; por outro, a gastronomia, o turismo de final de semana, e até uma fábrica de gelo industrial que mantém –17 °C enquanto o sol lá fora beija os 42 °C nas ruas.

História
O nome “Guaratiba” vem do tupi e significa “ajuntamento de guarás”, ou “lugar de muitas garças”, indicando o foco na fauna bem antes disso virar uma gema no tesouro de virtudes do hiperbairro carioca. Em 1579 o aventureiro português Manoel Velloso Espinha foi agraciado pela Corte com as terras da região, após dizimar tribos de povos originários em Cabo Frio em combates ao lado de Estácio de Sá.
Com a sua morte, seus dois filhos Jerônimo Velloso Cubas e Manoel Espinha Filho herdaram a então freguesia de Guaratiba. Através de mútuo entendimento, dividiram entre eles as terras herdadas do pai, iniciando a “fragmentação”. A região viveu tempos de bonança durante o ciclo da cana de açúcar, e, cem anos antes da chegada do BRT, já havia uma linha de bonde ligando o Centro até Pedra de Guaratiba.
Mas afinal, qual a diferença entre as “Guaratibas”?
Em 1981, Guaratiba, Barra de Guaratiba e Pedra de Guaratiba foram oficialmente elevados à categoria de bairros, enquanto a Ilha de Guaratiba foi mantida como sub-bairro, ignorada no mapa oficial, porém amada pelos moradores da região.
Guaratiba “original” é a amplitude rural com mangues e bananais; Pedra de Guaratiba traz um toque interiorano dentro da cidade, com sambaquis com até 2.260 anos e píer com estrutura de lazer; já Barra de Guaratiba é praia, gastronomia rústica à beira da estrada Roberto Burle Marx, onde fica o sítio do próprio que é um passeio à parte — isso tudo com a restinga de Marambaia emoldurando o litoral.
O melhor lugar para comer frutos do mar no Rio
O restaurante mais tradicional do pedaço é o Tia Palmira, em Barra de Guaratiba, uma casinha encantadora com mais de 40 anos de história, menu degustação e sobremesas de comer rezando.
Entre seus principais concorrentes está o Cantinho da Tia Penha, também com décadas de bons serviços na estrada Burle Marx, cardápio à la carte, mas famoso pelos pratos generosos e o barato pós-praia de tomar uma caipirinha caprichada enquanto martelo um caranguejo ao toque-toque.
Mas se o projeto quiser vista espetacular, cozinha e caipirinhas de primeira, a dica imperdível é o conhecido Bira de Guaratiba.
No fundo, seguindo pela estrada Burle Marx, é só parar em qualquer restaurante rústico com muitos carros no estacionamento para degustar ostras, moquecas e crustáceos a preços bem mais em conta do que nas áreas mais chiques da cidade.

Os fantasmas da Estrada do Morgadinho
Não há lugar de destaque sem uma boa história mal-assombrada. Em tempos de Brasil-Colônia havia a Estrada do Morgadinho, feita por escravizados, para escoar a produção de açúcar de canoa pelos canais até os navios atracados em Barra ou Pedra de Guaratiba.
Registros históricos indicam que o tratamento reservado a esses escravizados não era exatamente uma seda. Desde então, há relatos de aparições e fenômenos sobrenaturais.
Caso queira tirar a prova, é só seguir pela estrada e procurar a granja onde o ator Victor Fasano mantém um santuário de aves. Ao lado, há vestígios de um bambuzal onde dizem que, à noite, se ouvem correntes sendo arrastadas e até gente sendo chicoteada. Depois me conte.
Onde fica e como chegar?
Guaratiba está a cerca de 58 km do Centro do Rio, o que eleva o status de “bairrinho ao lado” para “pequena odisseia urbana”. Pedra de Guaratiba fica ainda mais distante, cerca de 65 km. Uma opção é combinar metrô mais BRT e depois um táxi ou Uber sobretudo para points como o Sítio Burle Marx. E não se assuste: Guaratiba é longe, mas ainda é Rio.


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