Três relógios retirados do fundo do mar pararam marcando horários diferentes naquela noite de 21 de janeiro de 1906:  22h42, 22h45 e 22h47. Eles são as únicas testemunhas inertes que poderiam contestar os depoimentos dos sobreviventes da maior tragédia da Marinha Brasileira, quando o encouraçado Aquidabã partiu ao meio por uma explosão e desapareceu nas águas escuras da Baía de Jacuecanga, em Angra dos Reis, em minutos. A diferença entre os ponteiros não é um erro: cada relógio pertencia a um oficial, e cada um parou no instante em que seu dono foi arrancado do convés para a eternidade.

Mais de um século depois, enquanto os veranistas tomam drinques à beira da piscina de seus condomínios de luxo erguido aos pés do morro, um obelisco de granito insiste em contar outra história. Ali, no alto da Ponta Leste da Monsuaba, 60 marinheiros continuam de guarda, enterrados em vala comum sob um monumento que poucos visitantes de Angra se dão ao trabalho de conhecer. Do outro lado da baía, a 20 metros de profundidade, o que restou virou playground para mergulhadores e lar de colônias de gorgônias que dançam sobre canhões silenciados

O Aquidabã não foi apenas um navio que afundou. Foi um símbolo de poder, mistério e memória. Seu naufrágio transformou Angra dos Reis em cenário de uma tragédia que ainda hoje desperta curiosidade. O monumento, erguido em sua homenagem, é mais do que uma pedra no caminho: é um lembrete de que o mar guarda segredos que nem a história conseguiu decifrar.

Desenho mostra dimensões do encouraçado Aquidabã | Crédito: Reprodução

Como foi o naufrágio?

Brasileiros destroem seus heróis, dizem os responsáveis pelo Prêmio Nobel. Por essas e outras, muita gente torce o nariz quando se fala que a Marinha brasileira era uma das mais poderosas do mundo no início do século XX. E um exemplo do nosso poderio naval era o encouraçado Aquidabã, lançado em 1885 nos estaleiros Samuda Brothers, em Londres.

Na noite de 21 de março de 1906, o Aquidabã fazia parte de uma missão oficial da Marinha de Guerra do Brasil, acompanhado pelos cruzadores Barroso e Tamandaré. A esquadra estava em missão oficial: realizar exercícios de telegrafia sem fio (uma tecnologia de ponta à época) e, principalmente, inspecionar a Baía de Jacuecanga para escolher o local onde seria instalado o novo Arsenal de Marinha.

Pouco antes das 23h, uma explosão violenta transformou o navio em uma bola de fogo. A detonação abriu rombo significativo no casco. O navio adernou rapidamente e afundou em poucos minutos.  A tripulação do Aquidabã era composta por 303 homens entre oficiais e praças. Desses, 212 morreram na explosão ou afogados nos minutos seguintes, e 98 conseguiram salvar-se.

Entre as vítimas ilustres estavam os contra-almirantes Rodrigues da Rocha, Cândido Brasil (patrono do Corpo de Engenheiros Navais) e Calheiros da Graça. Do convés do Barroso, o ministro da Marinha Júlio César de Noronha assistiu chocado à tragédia.

No naufrágio, 212 pessoas morreram e 98 conseguiram se salvar | Crédito: Reprodução

Por que o navio explodiu?

Não havia inimigos ou torpedos singrando os mares naquela noite calma e escura em Angra; o inimigo estava dentro dos próprios paióis. A causa oficial nunca foi determinada com cem por cento de certeza, mas a principal suspeita recai sobre o cordite, um explosivo à base de nitroglicerina conhecido por sua instabilidade em altas temperaturas.

O mesmo composto químico vitimou outros navios no mesmo período em acidentes semelhantes ao redor do mundo. A teoria mais aceita é que o calor excessivo nos depósitos de munição, possivelmente agravado pelo clima tropical e pela falta de ventilação adequada, tenha provocado a combustão espontânea do material. 

Entretanto, como em muitas tragédias do início do século XX, circularam hipóteses alternativas na imprensa da época, incluindo falha estrutural ou erro humano. Não há documentação oficial que sustente qualquer teoria da conspiração. A explicação técnica permanece a versão aceita pela historiografia naval (a explosão do paiol), conforme estudos publicados pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha.

Foi a maior tragédia da história da Marinha brasileira?

Em termos de perda de vidas em um único navio em tempos de paz, sim, o Aquidabã detém o título mais sombrio da Marinha do Brasil. Nenhum outro acidente ou naufrágio envolvendo uma embarcação de guerra brasileira causou tantas mortes de uma vez só.

O número de 212 vítimas supera amplamente outros desastres navais do país, e a comoção gerada na época foi comparável à que hoje se vê em grandes tragédias aéreas. O fato de ter ocorrido com a nata da oficialidade e diante do ministro da Marinha só aumentou o impacto psicológico e político.

Ministro Júlio César de Noronha, da Marinha do Brasil, testemunho naufrágio em Angra | Crédito: Reprodução

Seus destroços viraram um point de mergulhadores?

Sim. Os restos do Aquidabã repousam a profundidades que variam entre oito e 20 metros, espalhados por uma área de areia e lodo na Ponta da Jacuecanga. O navio está completamente desmantelado, mas é possível identificar a torre do canhão de 203 mm (apelidada de “bolo de noiva” pelos mergulhadores), as caldeiras, o sistema de rotação das armas e até parte da couraça de 279 mm de espessura que lhe valeu o apelido jocoso de “Encouraçado de Papel”.

A visibilidade é traiçoeira: frequentemente turva, pode abrir para mais de 15 metros em dias de maré cheia e vento favorável, revelando um cenário fantasmagórico onde redes de pesca se enroscam em estruturas metálicas e gorgônias coloridas tomaram conta do casco de estibordo. É um point para mergulhadores experientes, mas é preciso cautela: os vergalhões retorcidos e a correnteza exigem respeito.

Como surgiu a ideia de construir um monumento aos mortos?

Nos anos seguintes à tragédia, enquanto os corpos ainda eram resgatados por escafandristas e enterrados às pressas, a comoção nacional exigia uma homenagem à altura. Familiares das vítimas, oficiais da Marinha e a sociedade fluminense mobilizaram-se para erguer um marco que perpetuasse a memória dos 212 mortos.

A Marinha do Brasil liderou os esforços, e em 1918, doze anos após o naufrágio, o monumento foi finalmente inaugurado no alto do morro da Ponta Leste, exatamente de frente para o local onde o navio desapareceu.

Trata-se de um obelisco de granito imponente, erguido sobre um pedestal de alvenaria, que se destaca na paisagem da costa. O acesso se dá por uma estrada estreita que atravessa o bairro Monsuaba, passando ao lado de um condomínio de luxo que, recentemente, causou controvérsia ao ser construído praticamente na linha do mar, descaracterizando o visual histórico do costão.

Obelisco erguido sob pedestal de alvenaria homenageia mortos na tragédia do Aquidabã | Crédito: Reprodução

Por que apenas parte das vítimas está enterrada lá?

A explicação é tão trágica quanto o naufrágio: muitos corpos jamais foram recuperados. A violência da explosão foi tanta que desintegrou parte da tripulação, e o mar levou o resto.

Dos 212 mortos, apenas cerca de 60 corpos puderam ser identificados e sepultados sob o obelisco em uma vala comum. Os demais, incluindo almirantes, jovens marinheiros e membros da comitiva ministerial, tiveram seus restos espalhados pelas correntes ou simplesmente nunca mais encontrados.

O monumento é, portanto, um túmulo simbólico e real ao mesmo tempo: guarda os que voltaram e chora os que ficaram para sempre nas profundezas.

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