Se o Rio de Janeiro tivesse um retrato falado de transporte público, provavelmente seria amarelo no topo, vermelho na faixa do meio e azul na parte inferior, com o letreiro “São Silvestre” piscando de orgulho entre a Glória e o Leblon. Fundada em 18 de janeiro de 1955, a empresa começou humilde, com lotações que lembravam mais um carro de passeio cheio de cariocas e simpatizantes do que um ônibus, mas logo se transformou em ícone da Zona Sul, transportando gerações.

Entre Plymouths e Studebakers adaptados para lotação, a São Silvestre viu o trânsito da Guanabara se modernizar com Carlos Lacerda exigindo ônibus maiores e regulamentação rigorosa, mas manteve seu charme colorido, sua frota pioneira e o jeitinho carioca de circular por ruas apertadas e ladeiras íngremes. Os passageiros podiam até reclamar do calor, mas ninguém esquecia a identidade visual vibrante que, durante décadas, foi parte do cartão-postal do Rio.

E quando a prefeitura decidiu padronizar tudo em 2010, tirando o amarelo, o vermelho e o azul, a São Silvestre não perdeu apenas suas cores, perdeu o glamour que a transformava em estrela das ruas. Mesmo assim, seus frescões pioneiros, suas linhas icônicas e o legado de seis décadas fizeram da empresa mais do que um meio de transporte: tornaram-na uma personagem da história carioca, pronta para sair do ponto final apenas em 2017, deixando saudade e nostalgia colorida para quem cresceu vendo seus ônibus cruzarem a cidade.

Ônibus da empresa é tão querido que até fez parte do universo gamer | Crédito: Reprodução

História

A Empresa de Transportes São Silvestre Ltda foi fundada em 18 de janeiro de 1955 no Rio de Janeiro, começando como empresa de lotações.

Sua área de atuação original eram as lotações entre a Glória e Leblon, via Jockey, e via Copacabana, circulares na Zona Sul e mais tarde expandindo-se para linhas urbanas que ligavam a região central a bairros próximos.

O que é uma “lotação”?

Dos anos 1940 ao início dos 1960, o transporte público na Guanabara era feito por automóveis de passeio adaptados, como os Plymouth, Studebacker, Chevrolet Bel Air e no fim de sua história Kombis ou Rural Willys.

Os carros de lotação começaram a ser substituídos por ônibus a partir de 1961, quando o governador Carlos Lacerda reorganizou o transporte urbano, exigindo maior capacidade e regularização das frotas.

A São Silvestre participou desse processo, abandonando as lotações para usar ônibus convencionais para atender às permissões municipais, exigência de maior capacidade, conforto, regulação e fiscalização.  

 A ideia era mesmo “limpar” o trânsito e reduzir o improviso das lotações, que paravam em qualquer lugar e cobravam tarifas próprias. As lotações, embora eficientes para trajetos estreitos ou de difícil acesso, apresentavam desvantagens de conforto, segurança e economia de escala.

Empresa começou a usar veículos mais confortáveis a partir dos anos 60 e introduziu os ‘frescões’ | Crédito: Donald Hudson / Reprodução

Por que dizem que os ônibus da empresa fazem parte do cartão postal do Rio?

Porque suas linhas, ao longo de décadas, serviram bairros turísticos e cenários icônicos como Copacabana, Leblon, Glória, Leme, Urca, Laranjeiras, Jardim Botânico, Botafogo, regiões visualmente associadas ao Rio que muitos visitam.

Além disso, os ônibus da São Silvestre eram inconfundíveis. Pintados de amarelo na parte superior (que ficava meio bege com o tempo), com uma faixa vermelha no centro e a parte inferior azul. Essa identidade visual acompanhou a empresa por décadas, tornando-se parte da memória afetiva dos cariocas. Com a padronização imposta pela Prefeitura em 2010, a São Silvestre perdeu não apenas suas cores, mas um pedaço do que a fazia única nas ruas do Rio.

Ela realmente introduziu os frescões no Rio?

Sim, a São Silvestre foi a primeira empresa que operou o serviço executivo conhecido como “frescão”, criado por decreto em 1973, com o objetivo de oferecer serviço mais confortável aos passageiros, com ônibus diferenciados.

Suas primeiras linhas executivas surgiram em março de 1975, a linha 2024 Castelo X Gávea com 12 ônibus rodoviários com ar-condicionado, poltronas reclináveis, depois em maio e novembro outras linhas como Praça Mauá-Laranjeiras e Castelo-Urca.

Quais foram as primeiras linhas da Transportes São Silvestre?

Foram linhas de lotação que depois passaram a ser operadas por ônibus, os famosos 571 (Glória – Leblon, via Jockey) e 572 (Glória – Leblon, via Copacabana).

Em 1957 a São Silvestre foi autorizada pela Prefeitura a instalar sua garagem em um antigo posto de gasolina no Lins. Com isso, ela mudou a operação mais informal das lotações para uma estrutura mais organizada, com local fixo para guarda da frota e manutenção, permitindo a expansão de linhas.

No início dos anos 1960 ela já operava linhas como a 247 (Praça Tiradentes – Camarista Méier) e 248 (Passeio-Méier).

Empresa adotou pintura padronizada após licitação de linhas de ônibus municipais | Crédito: Reprodução

O começo do fim

Em 2010 o município do Rio de Janeiro realizou uma licitação de linhas de ônibus municipais, instituindo os consórcios, com contrato de concessão, obrigando que as empresas operadoras adotassem padrões visuais, padrões de frota, pintura e identidade visual comum dentro do consórcio.

Com essa padronização a São Silvestre precisou deixar suas cores clássicas e adotou a pintura absolutamente acinzentada e sem graça do consórcio Intersul, o qual a São Silvestre integrou com mais 10 empresas de ônibus.

E o colapso

A Transportes São Silvestre encerrou suas atividades em dezembro de 2017, depois de mais de seis décadas de operação no Rio de Janeiro.

O fechamento da empresa foi resultado de uma combinação de fatores econômicos, estruturais e políticos que atingiram boa parte do setor de transporte carioca.

Ela enfrentava forte crise, com queda no número de passageiros, endividamento e dificuldade em manter a frota moderna dentro dos padrões exigidos pela prefeitura.

A criação dos consórcios em 2010, embora tenha prometido equilíbrio e modernização, acabou diluindo a identidade das viações e gerando novos custos de operação.  Além disso, a São Silvestre fazia parte do Consórcio Intersul, que entrou em recuperação judicial em 2021, reflexo de um sistema já fragilizado.

 E assim, discretamente, a empresa que um dia fora sinônimo de elegância e eficiência sobre rodas parou de circular, deixando saudade e um vazio colorido nas ruas onde por décadas foi presença constante.

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