Ele foi um dos maiores físicos do século XX. Participou do projeto que criou a primeira bomba atômica e, em 1965, foi laureado com o Prêmio Nobel por suas contribuições à eletrodinâmica quântica. Mas o norte-americano Richard Feynman não se contentava em decifrar os segredos do universo apenas com fórmulas.
Ele também gostava de experimentar a vida com a mesma intensidade com que enfrentava integrais complicadas. Em 1951, durante um período sabático, Feynman veio ao Brasil disposto apenas a aprender uma língua nova e acabou convidado a dar aulas no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, onde descobriu que os alunos sabiam resolver problemas, mas não tinham a menor ideia do que significavam.
Mas entre um choque pedagógico e outro, Feynman acabou se apaixonando por algo que escapava à lógica newtoniana: o ritmo do samba. Enfeitiçado pelo pandeiro, ele começou a frequentar rodas de música e acabou entrando para a bateria de um bloco carnavalesco.
Não satisfeito em apenas observar, o físico aprendeu a batucar uma frigideira e desfilou no Carnaval de 1952 com um entusiasmo que desafiava qualquer um de seus complexos diagramas.
Na prática, foi uma experiência quase quântica: um físico americano, ex-Manhattan Project, sambando entre passistas, enquanto os foliões, sem saber, dividiam avenida com um dos responsáveis por explicar a interação entre luz e matéria.
Ao voltar para os Estados Unidos, Feynman não apenas levou na bagagem histórias saborosas e uma frigideira como lembrança, mas também um espanto científico com a capacidade brasileira de celebrar a vida — mesmo que as aulas de física por aqui ainda precisassem de uns bons ajustes.

Quem foi Richard Feynman?
Richard Feynman foi aquele tipo raro de gênio que conseguia resolver integrais monstruosas antes do café da manhã e, no mesmo dia, aprender a tocar frigideira em uma roda de samba. Nascido no Brooklyn em 1918, ele foi físico teórico, ganhador do Prêmio Nobel em 1965 por suas revolucionárias contribuições à eletrodinâmica quântica. Ou, como ele mesmo preferia dizer, por explicar com diagramas simpáticos como as partículas gostam de flertar entre si.
Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou no Projeto Manhattan e ajudou a construir a bomba atômica. Era um sujeito gaiato, que no laboratório de Los Alamos se divertia abrindo cofres com documentos militares ultrassecretos por pura gozação.
Feynman, no entanto, não se contentava com laboratórios e conferências: ele queria entender o mundo inteiro, e isso incluía ir ao Brasil ensinar física e acabar desfilando no Carnaval com um sorriso no rosto e uma frigideira nas mãos.
Seu carisma o transformou em um dos maiores divulgadores científicos do século passado, com livros como O Senhor Está Brincando, Sr. Feynman? — um título que resume bem sua abordagem de vida: irreverente, curiosa e, muitas vezes, hilária.

A primeira passagem pelo Brasil
Em 1951 ele veio ao Brasil, não exatamente em busca de praias, caipirinhas ou de um amor tropical, embora tenha acabado desfrutando de todos. Convidado para dar aulas no recém-criado Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, Feynman aceitou a empreitada mais por curiosidade antropológica do que qualquer coisa.
Ele queria ver como a ciência era ensinada em outros cantos do mundo. Mal sabia ele que, ao chegar, encontraria estudantes que sabiam resolver equações perfeitamente, mas sem a menor ideia do que elas significavam.
A frustração pedagógica
Durante suas primeiras aulas no Rio de Janeiro, em 1949, ele notou que os alunos decoravam fórmulas e sabiam responder perfeitamente aos exercícios dos livros. Mas quando ele mudava ligeiramente a forma da pergunta ou pedia que explicassem o conceito por trás do cálculo, eles travavam completamente. Era como se estivessem recitando um ritual sem entender o significado das palavras.
O que mais o espantou foi o método de ensino brasileiro: muita decoreba e pouca compreensão do conteúdo. Ao final do semestre, Feynman deu uma palestra sobre por que não se estava ensinando ciência no Brasil. Esse episódio reforçou sua conhecida aversão ao ensino meramente formalista. Para ele, ciência de verdade começava com perguntas, não com respostas decoradas.
Dois pândegos nos primórdios da TV brasileira
Durante as seis semanas que passou no Brasil Feynman se tornou BFF do então diretor do CBPF: ninguém menos que César Lattes, o físico brasileiro descobridor do méson pi, a partícula responsável por manter o núcleo atômico coeso.
Um belo dia jornalistas que estavam trabalhando na criação da futura TV Tupi (a primeira do país) resolveram filmar uma cena espontânea dos dois renomados cientistas, e pediram que eles fingissem estar conversando sobre física quântica. Só que tudo que apareceria na gravação era a imagem, não o áudio.
O take, feito com câmera de cinema (pois não havia VT), só iria ao ar em 1950, quando a emissora foi inaugurada. Lattes, provocador, não pensou duas vezes e, segundo quem testemunhou o episódio, abriu o papo perguntando: “E aí, Feynman, já conseguiu um dicionário de paquera?” Quem assistiu à cena na TV depois não sacou que a conversa muda versou na verdade sobre como conquistar mulheres no Brasil.
O retorno ao Brasil
Dois anos depois, Feynman voltou ao país a convite do físico José Leite Lopes para dar aulas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (que na época se chamava Universidade do Brasil), entre setembro de 1951 e maio de 1952. Só que nunca recebeu um tostão do salário de professor.
O amigo César Lattes deu um bom e velho jeitinho brasileiro de sustentar Feynman com o dinheiro do CBPF, e ainda recomendou que ele desse aulas de manhã, para poder aproveitar a tarde na praia.
O gringo que tocava frigideira melhor que um paulista
Foi nessa segunda temporada que Feynman se envolveu com o Carnaval carioca. Ele começou a se interessar pela música brasileira, mais especificamente pelo ritmo do samba, que, para um físico acostumado a padrões e oscilações, era quase uma experiência sensorial de ressonância cultural. Frequentando bares, festas e rodas de samba, acabou se encantando pelos instrumentos de percussão.
Um dia ele descobriu que o zelador do prédio onde morava um funcionário da embaixada americana era também compositor de um bloco chamado Farsantes de Copacabana. Feynman o convenceu a levá-lo a um ensaio onde lhe deram um prosaico instrumento para arriscar umas batucadas: uma frigideira. Só que para surpresa geral, o físico tinha um baita ritmo.
Ele passou meses ensaiando com a bateria do bloco, até conquistar respeito da rapaziada como o “gringo que tocava frigideira melhor que um paulista”. Em 1952 o físico chegou a participar de um concurso de blocos desfilando pela Avenida Atlântica vestido de grego antigo em uma fantasia de papel machê, ajudando o bloco a vencer a competição.

Contribuição para a ciência brasileira e a última visita
Anos depois, ele ainda ajudou na restauração da biblioteca do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, que foi vítima de um incêndio em 1959. Doou livros e coleções de revistas científicas para restaurar o acervo e enviou cartas a dezenas de seus colegas norte-americanos, pedindo que fizessem o mesmo. As delícias da Guanabara tocaram fundo na alma do professor.
Em 1966, Feynman sentiu o calor carioca pela última vez. Já laureado pelo Nobel de Física, ele voltou a convite da prefeitura do Rio. Dessa vez mais comportado, ao lado da esposa, aproveitou a viagem para matar a saudade do que mais gostava de fazer no Brasil: dançar em bailes carnavalescos e assistir aos desfiles das escolas de samba.
Ele morreu em 1988, mas continua sendo o tipo de figura que faz você pensar que a física, afinal, pode até ser divertida. Desde que explicada com bom humor, sotaque nova-iorquino e, se possível, acompanhada de um samba. Evoé!


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