Em um país onde tanques são tão sagrados quanto santos e onde a liturgia pode incluir mísseis e mosaicos militares, a Rússia, como diz o pensador rubro-negro Bruno Henrique, resolveu levar a devoção patriótica a outro patamar: ergueu uma catedral que une Bíblia e baioneta. A Catedral das Forças Armadas da Federação Russa, também conhecida como Catedral da Ressurreição de Cristo, não é apenas um templo religioso, mas sim, segundo o Ministério da Defesa, um “monumento espiritual à vitória militar”.
É como se o Vaticano tivesse um pelotão blindado em vez dos alabardeiros da Guarda Suíça, com seus espalhafatosos uniformes com listras azuis, vermelhas e amarelas inspirados nas pinturas de Rafael de Sanzio — e que não foram desenhados por Michelangelo como muita gente pensa.
Evidentemente, o projeto gerou controvérsia. Afinal, não é todo dia que se vê um templo ortodoxo verde-oliva, financiado pelo Estado e entronizado como símbolo da aliança entre o altar e a arma. E se há algo que a Rússia moderna faz bem, é transformar símbolos imperiais em elementos estéticos. De preferência com muito dourado, patriotices e nuances de nostalgia soviética.
Como quase tudo que remete a Rússia, a história da Catedral Principal das Forças Armadas Russas, passou batida pela mídia brasileira. Mas nesse momento em que a Guerra contra a Ucrânia parece longe de terminar, ela nos revela não só a fé de um país, mas também sua peculiar forma de catequese armada.

A história da catedral
A ideia de construir a Catedral das Forças Armadas surgiu na época do do 75º aniversário da vitória soviética na Segunda Guerra Mundial, a chamada Grande Guerra Patriótica. O projeto foi oficialmente anunciado em 2018 pelo então ministro da Defesa, Sergei Shoigu, com apoio da Igreja Ortodoxa Russa.
A obra foi concluída em tempo recorde e inaugurada em 22 de junho de 2020, aniversário do início da invasão nazista em 1941. Coincidência? Só se for como coincidência é a estética do templo lembrar vagamente um centro de comando camuflado de igreja.
A construção foi supervisionada pela fundação beneficente “Reconstrução Espiritual”, ligada ao Ministério da Defesa, e envolveu financiamento público e doações privadas (incluindo empresas estatais e os grandes oligarcas, de forma voluntária, naturalmente). O objetivo, segundo Shoigu declarou ao Moscow Times, era “imortalizar o espírito vitorioso do povo russo através da arquitetura sagrada”.
Onde fica?
A catedral está localizada no complexo militar “Parque Patriota”, a cerca de 55 quilômetros de Moscou, na cidade de Kubinka, região de Odintsovo. Não é exatamente uma escolha aleatória: o parque é uma espécie de Disneylândia russa da guerra, com tanques interativos, pavilhões temáticos e exposições de armas históricas.
O local foi concebido como um centro de “educação patriótica” e já foi palco de convenções militares e encontros de veteranos. A escolha de instalar uma catedral ali talvez diga mais sobre a fusão entre igreja e Estado do que qualquer sermão. Afinal, onde mais Deus e a Mãe Pátria podem ser louvados ao som de hinos militares e desfiles de blindados?
Monumento à guerra?
A Catedral das Forças Armadas Russas é um verdadeiro monumento à estética da guerra sacralizada. Com 75 metros de altura (um metro para cada ano desde o fim da Segunda Guerra Mundial), sua pintura em verde-musgo foi inspirada nos uniformes dos soldados soviéticos.
Os vitrais retratam batalhas históricas, como a de Stalingrado, e os murais incluem cenas contemporâneas, como a anexação da Crimeia. Sim, você leu certo: é política externa na veia e em forma de afresco.
O piso do templo tem detalhes em aço fundido de armas nazistas capturadas e transformados em uma espécie de tapete litúrgico com um gostinho de revanche. O altar é cercado por mosaicos de generais e santos guerreiros, e há ícones religiosos com rifles camuflados ao fundo. Para quem aprecia o sincretismo entre a cruz e uma AK-47, é uma experiência quase mística. Para outros, um delírio barroco armado.
Por que é considerada polêmica?
Desde o início, o projeto enfrentou críticas. Não apenas por misturar de forma tão explícita religião e militarismo, algo que incomodou até setores da Igreja Ortodoxa Russa, mas também por certas ousadias artísticas. Nas versões preliminares dos mosaicos, por exemplo, apareciam nada menos do que Vladimir Putin e Josef Stalin, celebrados como “defensores da Rússia”. Após críticas públicas, os retratos foram discretamente removidos. Afinal, até a santificação de ditadores tem limites estéticos.
Além disso, o caráter triunfalista e militarista do templo preocupa historiadores e religiosos. Para os críticos, a catedral reforça uma narrativa autoritária e belicista, promovendo uma “teologia da vitória” em vez de uma teologia da paz. Em uma entrevista ao The Moscow Times, o historiador Andrei Zubov chamou a igreja de “um monumento ao militarismo, não à fé cristã”.
Quanto custou?
O custo oficial da Catedral das Forças Armadas foi estimado em cerca de 100 milhões de dólares à época, segundo o Ministério da Defesa russo. Parte dos recursos veio de doações privadas, mas uma fatia generosa foi bancada por fundos públicos, principalmente de estatais. Em tempos de sanções internacionais e crise econômica, a decisão gerou certo desconforto entre economistas mais devotos ao equilíbrio fiscal do que à iconografia bizantina.
Segundo reportagem do jornal Kommersant, grandes empresas como Rosneft, Gazprom e Rostec teriam contribuído para o financiamento do projeto, algo que também gerou debate sobre o uso de recursos públicos disfarçados de filantropia patriótica. Mas na Rússia, como se sabe, fé e defesa nacional andam de mãos dadas desde Pedro, o Grande.
Número de visitantes
Desde sua inauguração, a catedral se tornou um dos pontos turísticos mais visitados da região de Moscou. Em seu primeiro ano, recebeu mais de 1 milhão de visitantes, segundo dados do Parque Patriota. Entre os frequentadores estão fiéis ortodoxos, veteranos de guerra, estudantes em alegres excursões obrigatórias e, claro, turistas em busca do selfie perfeito entre um tanque T-34 e um ícone de São Jorge.
A entrada é gratuita, mas o “merchandising patriótico” está disponível na lojinha oficial: crucifixos dourados, imãs com frases de generais soviéticos e miniaturas de caças Sukhoi. Afinal, nenhuma fé se completa sem comprar lembrancinhas. E se você não conseguir encontrar um lugar para rezar, relaxe, certamente vai encontrar um bem bacana para marchar.


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