Em junho de 2010, durante a primeira Copa do Mundo realizada no continente africano, um instrumento plástico de cerca de um metro de comprimento roubou boa parte da atenção destinada aos craques. E não foi exatamente uma boa coisa. A vuvuzela, presente em praticamente todos os estádios da África do Sul, transformou as transmissões de televisão em uma parede sonora contínua, despertando fascínio, irritação e uma preocupação médica em escala global. O que parecia apenas um adereço de torcida tornou-se um dos símbolos mais marcantes daquele mundial.
A atmosfera nos estádios sul-africanos desafiava os padrões ocidentais. Na África do Sul, a vuvuzela funcionava como uma ferramenta democrática de expressão cultural, unindo uma nação historicamente dividida sob uma única e ensurdecedora voz. Só que, embalados pelo sucesso do filme “Invictus” de Clint Eastwood, os sul-africanos se viram tomados de um fervor patriótico que fazia arrumadeiras de hotéis cinco-estrelas, tocarem vuvuzelas animadíssimas pelos corredores ás 8h.
Mas enquanto as redes de televisão internacionais lutavam para filtrar a frequência do som e jogadores em campo reclamavam da impossibilidade de se comunicarem, o instrumento vendia feito água nas calçadas de Johanesburgo à Cidade do Cabo. O esporro que invadiu as salas de estar de todo o planeta não era um mero ruído passageiro, mas o reflexo de uma engrenagem industrial e cultural que faturou milhões de dólares. Entender a jornada da vuvuzela é mergulhar em uma crônica viva de oportunismo comercial, paixão esportiva e decibéis perigosos.

Qual é a origem da vuvuzela?
Ela é cercada de mistério e disputas. A versão mais aceita é que ela descende da corneta de kudu, um antílope, usada para chamar moradores de aldeias africanas para reuniões, conforme relata o jornal Daily Mail. O British Museum, no entanto, afirma que um precursor do instrumento foi “inventado” na década de 1960 por Freddie Maake, conhecido como “Saddam”, figura folclórica do clube Kaizer Chiefs, que o adaptou de uma buzina de bicicleta.
Segundo a própria instituição, Maake criou o nome “vuvuzela” em 1992 para marcar a libertação de Nelson Mandela, combinando três palavras zulus que significam “bem-vindo”, “unir” e “celebração”. A controvérsia se estende à Igreja Batista de Nazaré, em Durban, que reivindica o uso do instrumento desde 1910, segundo reportagem da BBC. Esta mesma fonte registra que a versão popularizada mundialmente é feita de plástico e que o sul-africano Neil van Schalkwyk é o responsável por sua fabricação e comercialização em massa.
Quem é o empresário Neil van Schalkwyk?
Se Freddie Maake injetou a alma no instrumento, foi o sul-africano Neil van Schalkwyk quem enxergou o ouro líquido no plástico injetado. Van Schalkwyk, que jogava futebol semi-profissionalmente, marcou um gol de empate pelo time de jovens do Santos Cape Town. No meio da comemoração da torcida, ele avistou uma corneta caseira sendo tocada e uma ideia lhe surgiu. Trabalhando em uma fábrica de plásticos, ele decidiu criar uma versão mais barata e durável do instrumento.
Ele começou produzindo 500 trombetas em 2001 pela sua empresa Masincedane Sport, e no ano seguinte a produção já era de 20.000 unidades por mês. Embora não pudesse patentear a corneta em si, por ser um instrumento milenar, Van Schalkwyk conseguiu proteger o nome “vuvuzela” como marca registrada. O feito rendeu a Neil o prêmio de empreendedorismo SAB KickStart, pavimentando o caminho para o monopólio simbólico da marca na iminência do mundial.


Quantas vuvuzelas foram vendidas durante a Copa da África?
Trombeta é algo que a humanidade conhece desde que foram derrubadas as muralhas de Jericó. As vendas de vuvuzelas explodiram durante a Copa da África, mas Van Schalkwyk não surfou a onda sozinho, embora sua Masincedane Sport tenha fechado parcerias logísticas e exportado mais de 1,5 milhão de unidades para a Europa a partir do final de 2009.
Redes de supermercados como a britânica Sainsbury’s capitalizaram a febre, vendendo 43.000 unidades a 2 libras cada, o equivalente a uma corneta a cada dois minutos. Um empresário chinês chamado Wu Yijuan, da Ninghai Jiying Plastics Manufacturing Company, afirmou que sua empresa sozinha vendeu mais de 1 milhão de vuvuzelas até o fim do torneio.
Quanto custavam?
A vuvuzela atingiu o status de ícone pop justamente por causa de sua acessibilidade financeira, tornando-se o souvenir perfeito para torcedores e turistas de todas as classes sociais. Nos arredores dos estádios sul-africanos, os modelos oficiais e genéricos eram comercializados por valores que oscilavam entre 20 e 100 rands, o que equivalia na época a uma variação de US$ 2,60 a US$ 7,80. O preço exato dependia fundamentalmente de o quanto o comprador parecia um norte-americano aos olhos de um sul-africano.
No mercado internacional, a margem de preço se adaptou ao bolso dos consumidores estrangeiros. Enquanto na Inglaterra as cornetas eram vendidas por cerca de 2 libras esterlinas, nos Estados Unidos e em outros postos de importação o preço final de varejo podia alcançar até US$ 10. Essa flexibilidade de preço garantiu que qualquer torcedor pudesse adquirir o objeto, gerando uma cadeia massiva de distribuição que ia desde camelôs nas esquinas de Johanesburgo até grandes prateleiras de lojas de departamento europeias e norte-americanas.

Neil van Schalkwyk enriqueceu com a febre das vuvuzelas?
Embora tenha dado entrevistas falando que ia sair da Copa com pelo menos US$ 2 milhões no bolso, nosso Neil ficou longe dessa marca. Embora aquela barulheira infernal estivesse em toda parte, o faturamento direto da empresa de Neil van Schalkwyk acumulado ao longo de toda a década anterior ao mundial foi de aproximadamente 7 milhões de rands, com metade desse valor sendo gerado especificamente no ano frenético da Copa do Mundo. Na conversão cambial da época, o faturamento total naquele período áureo teria sido em torno de US$ 1 milhão.
O mercado paralelo e a pirataria foram os grandes responsáveis por pulverizar os ganhos bilionários da vuvuzela. Como Neil não possuía a patente do formato do instrumento, uma vez que trombetas plásticas já existiam na história industrial, fábricas chinesas começaram a produzir cópias genéricas a custos ínfimos, vendendo cada unidade para distribuidores por meros 36 centavos de dólar. Dessa forma, enquanto a marca oficial de Neil lucrou muito, o bolo financeiro total de US$ 2,6 milhões ou mais ficou dividido entre dezenas de importadores e fabricantes asiáticos.

É verdade que ele depois começou a vender protetores auriculares?
Com a crescente preocupação sobre os efeitos do ruído da vuvuzela, Neil van Schalkwyk demonstrou uma agilidade comercial irônica ao vender simultaneamente o problema e a solução. Ele firmou uma parceria estratégica com a Uthango Social Investments para lançar e comercializar protetores auriculares batizados de “Vuvuzela unPlugged”. Os tampões de ouvido eram vendidos nos mesmos perímetros dos estádios por cerca de 25 rands o par, o que poderia chegar a USR 3,50, ou seja, mais caro que algumas vuvuzelas. O tema tornou-se tão recorrente que virou motivo de piadas em jornais e programas esportivos.
No entanto, não há evidência sólida de que Neil van Schalkwyk tenha construído um novo império empresarial baseado especificamente na venda de protetores auriculares. A concorrência mais uma vez foi rápida e certeira. O que ocorreu foi a criação de um mercado paralelo impulsionado pelas discussões sobre saúde auditiva.

Mas ela causava mesmo algum problema de audição?
Embora não haja relatos de uma epidemia de surdez entre torcedores, os estudos foram alarmantes e as autoridades emitiram sérios avisos. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) publicou um artigo intitulado “Vuvuzelas: What’s the Buzz?” citando estudos publicados no South African Medical Journal que concluíram que a intensidade sonora da vuvuzela excedia limites considerados seguros para exposição prolongada.
O estudo recomendou o uso de proteção auditiva para todos os espectadores, incluindo jogadores, funcionários do estádio, locutores e até os árbitros, que estariam repetidamente expostos ao barulho. O que obviamente levou a FIFA a fazer a egípcia. O CDC alertou que a perda auditiva e o zumbido no ouvido eram consequências possíveis e sérias da exposição excessiva às vuvuzelas. Os estudos publicados no South African Medical Journal mediram níveis médios de 131 decibéis na abertura do instrumento e cerca de 113 decibéis a dois metros de distância.

A título de comparação, um motosserra emite 100 decibéis. A exposição a 113 decibéis (a dois metros de distância) permitiria apenas 45 segundos diários sem proteção. Em um estádio com dezenas de milhares de vuvuzelas, o volume certamente ultrapassaria esses limites, provocando danos imediatos à audição, como perda auditiva permanente e o temido zumbido no ouvido. A Universidade de Pretória, que participou das pesquisas, concluiu que todos os espectadores de uma partida de futebol estavam expostos a níveis perigosos de ruído por duas horas inteiras.


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