Era o começo dos anos 1970. O Brasil fervia sob o AI-5 e o governo do general Médici apostava em megaobras para vender a ideia de que o país ia muito bem, obrigado. Uma dessas obras era a Ponte Presidente Costa e Silva, nome de batismo que o povo nunca adotou em relação à “Ponte Rio-Niterói”. Para atravessar nove quilômetros de Baía de Guanabara, os engenheiros precisariam cravar mais de mil tubulões até a rocha do fundo do mar, a profundidades que, na época, ninguém no Brasil havia tentado antes. O problema: não havia mergulhadores treinados para isso. A solução veio de uma turma que passava os dias surfando no Arpoador e fumando uns cigarros de cheiro forte e diferente em meio às dunas de Ipanema. 

A história parece roteiro de filme: um bando de hippies saídos do suprassumo da juventude dourada da Zona Sul carioca transformados em mergulhadores profissionais, enfrentando água turva, pressão extrema e o risco constante da doença descompressiva. No entanto, relatos de época confirmam que parte dessa geração do surfe carioca migrou para o nascente mercado de mergulho profissional que floresceu posteriormente com as grandes obras marítimas da década de 1970. 

Foram, à sua maneira, operários de uma epopeia que ajudou a unir duas cidades e a construir o Brasil moderno, provando que, às vezes, a maior aventura não está na superfície das ondas, mas nas profundezas do mar. 

O que eram as Dunas do Barato? 
 
Em 1971, as obras do emissário submarino (um tubo de esgoto) alteraram drasticamente a paisagem da praia de Ipanema. A movimentação de areia para a construção de um píer temporário criou dunas artificiais e um novo point de surfe, com ondas mais altas e perfeitas, inspirado no píer de Huntington Beach, na Califórnia. 

Essas dunas viraram rapidamente um ponto de encontro da contracultura carioca. Surfistas, músicos, cineastas e escritores frequentavam o local, que funcionava como um espaço informal de liberdade cultural em plena Ditadura Militar. Entre os habitués estavam artistas ligados ao tropicalismo, à poesia marginal. 

E o surfe teve papel central nessa história: a própria obra do píer alterou o fundo do mar e criou ondas ideais, atraindo uma geração de jovens que passava horas na água. Muitos deles desenvolveram habilidades de mergulho livre e contato intenso com o mar. 

Foi nesse improvável caldeirão de liberdade artística e conexão com o mar (entre outras substâncias) que a Ditadura Militar, ironicamente, encontraria no meio daquele bando de “porras loucas” a mão de obra qualificada para seu projeto faraônico. 

Surf no Pier da Praia de Ipanema

A Ponte 

A primeira ideia de um projeto para ligar a Guanabara a Niterói de forma mais eficaz surgiu ainda no século XIX: em 1875, Dom Pedro II chegou a contratar o engenheiro inglês Hamilton Lindsay-Bucknall para realizar estudos sobre a viabilidade de uma obra de grande porte.  O imperador se encantara com o metrô de Londres e considerava a hipótese de um túnel submarino. A república e o tempo sepultaram o plano, mas a necessidade permaneceu. 

Antes de 1974, a travessia entre as duas cidades era uma odisseia: ou se enfrentava uma volta de cerca de 120 quilômetros por terra, passando por Magé, ou se dependia das balsas, sujeitas à neblina e à superlotação. Foi somente em 1968, durante o governo do presidente Artur da Costa e Silva, que a ordem foi dada, e as obras começaram efetivamente em janeiro de 1969. 

A construção mobilizou cerca de 10 mil trabalhadores e envolveu consórcios internacionais de engenharia, em um projeto considerado um dos maiores desafios técnicos do país na época. Entre as maiores dificuldades estava a fundação da estrutura: dezenas de pilares precisavam ser fixados no fundo irregular da Baía de Guanabara, um solo traiçoeiro que escondia lama, sedimentos moles e rocha. 

A solução exigiu recorrer a técnicas de engenharia subaquática ainda pouco utilizadas no Brasil, exigindo a atuação constante de mergulhadores profissionais responsáveis por inspeção, limpeza e posicionamento das estruturas metálicas e dos tubulões que sustentariam os pilares. 

A Ponte Presidente Costa e Silva, nome que nunca pegou

Os “surfistas do barato” 

O Brasil não tinha tradição em mergulho profissional de alta profundidade. Até então, os poucos trabalhos subaquáticos eram feitos com pesados escafandros ou por mergulhadores autônomos pioneiros, muitos deles vindos da pesca submarina.  

Depoimentos de profissionais da época indicam que parte dessa geração vinha justamente das praias da zona sul carioca, principalmente os surfistas. “A gente soube que algumas empresas estavam pagando salários altíssimos para quem entendesse de mar. Assim, eu e mais uns 30 nos inscrevemos”, conta Antônio Carlos Regis Jacques, surfista, ex-mergulhador e portador da carteirinha número 1 do Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Atividades Subaquáticas. “A maior parte dos mergulhadores era de surfistas do Arpoador. A garotada fumava maconha e se sentia bem melhor durante o serviço do que quem era careta”, diz, com bom humor: “eles tinham uma aptidão natural e uma coragem que os equipamentos de segurança não proporcionavam”   

Claro, nem todo surfista é maconheiro e nem todo maconheiro é surfista. A maconha chegou ao universo do surf brasileiro pelo mesmo caminho que chegou à contracultura global: “Entre surfistas brasileiros, em contato com seus colegas dos EUA, também se difundiu o consumo. Ou seja, dentro de um quadro geral de difusão de estilos de vida ‘contraculturais’ dos anos 60, veio também o hábito de fumar maconha”, analisou o antropólogo Gilberto Velho. 

Como eles trabalhavam? 

O trabalho dos mergulhadores na ponte não era de contemplação. Era de inspeção e verificação em condições extremas, no interior de estruturas cilíndricas submersas, na escuridão, sob pressão crescente. 

A estaca era fincada, logo depois o mergulhador descia pelos tubulões: primeiro, 20 metros de água, depois 20 metros de lodo e 20 metros de areia. Lá no fundo, o procedimento era recolher amostras da rocha. Para chegar lá no fundo se levava uns 15 minutos. Para subir, a mistura de gás hélio com oxigênio exigia calma para retornar à superfície. Podia levar três horas para descompressão. 

O frio era outro inimigo. O gás hélio, necessário para evitar a narcose nas profundidades, provoca perda intensa de calor pelo sistema respiratório. Os mergulhadores resolviam isso de maneiras criativas e por vezes improvisadas ao extremo. Segundo depoimento preservado pela pesquisadora Flavia de Oliveira Barreto no Simpósio Nacional de História da ANPUH (2005), com base em entrevistas com trabalhadores da categoria: “Era tanto frio que a gente guardava o mijo para mijar na volta, para esquentar a roupa!”, afirmou um mergulhador anônimo. 

O mergulho levava 15 minutos, mas a volta quase três horas

Eles foram os primeiros mergulhadores de alta profundidade do Brasil? 

Sim. E esse é um dos legados menos conhecidos da construção da ponte. Antônio Jacques é enfático: “No máximo uns 10 mergulhadores faziam mergulho fundo, como eu fiz, na ponte Rio-Niterói. Tinha uns três ou quatro supervisores, que eram mergulhadores mais antigos, da Marinha, que também estavam aprendendo a tecnologia de mistura de oxigênio com hélio, uma coisa que estava começando no mundo. Então não existia tabela de descompressão, não existia procedimento, não existia nada, era tudo na aventura”, diz. 

A expertise conseguida nos serviços utilizados na construção da ponte abreviou os prazos quando a Petrobras iniciou a prospecção e exploração de petróleo em alto mar em águas profundas. Em outras palavras: a ponte não apenas conectou Rio e Niterói. Ela criou a base humana e tecnológica que viabilizou o pré-sal décadas depois. 

E por que os surfistas aceitaram entrar nessa roubada? 

A resposta é curta, grossa e certeira: dinheiro. A altíssima especialização, o risco de vida e a escassez de profissionais criavam uma demanda que forçava salários mais elevados. Antônio Jacques conta que, após a ponte, a equipe migrou para a Petrobras, onde as remunerações do mergulho profundo no setor petrolífero se tornaram referência de alta remuneração no Brasil. 

“Durante as obras da Ponte, comprei um Fusca à vista com meu primeiro salário”, conta Antônio Jacques para dar um exemplo do quanto ganhava na época. “Eu era um moleque, e ganhava mais por mês que meu tio que era coronel da Aeronáutica com mais de 10 mil horas de voo”. 

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