O delegado da Polícia Federal, Fábio Galvão, escolhido como o novo superintendente da PF do Rio, fez muitos desafetos quando esteve à frente da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança (SSINTE) do Rio entre 2011 e 2018. O motivo: sua fama de ser implacável contra a corrupção.
Galvão foi o responsável, por exemplo, por contraindicar o delegado Rivaldo Barbosa ao mais alto cargo da Polícia Civil, em 2018, a partir de informações de inteligência sigilosas encaminhadas ao então secretário de Segurança Pública (Seseg), general Richard Fernandez. Atualmente, Rivaldo é réu no homicídio da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, sendo apontado como mentor intelectual do crime pelos investigadores da Polícia Federal.
Galvão será o novo diretor da Superintendência da PF no Rio, em substituição ao delegado federal Leandro Almada, que irá para Brasília assumir a Direção de Inteligência Policial (DIP), conforme informou o blog da colunista Bela Megale, na tarde desta terça-feira (12/11).
Galvão foi subsecretário de inteligência do ex-secretário de Segurança, delegado da PF José Mariano Beltrame, por seis anos, coordenando operações que resultaram na prisão de mais de 1.288 criminosos, entre eles 375 agentes públicos de segurança acusados de corrupção. Segundo fontes da PF, já há reações contrárias a sua indicação por parte de policiais investigados por ele e sua equipe.
Galvão é citado em áudio encontrado no celular de Demetrio
No relatório do Grupo de Atuação Especializada contra o Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio, sobre a Operação Águia na Cabeça, no qual foram denunciados os delegados Mauricio Demetrio e Allan Turnowski — ex-secretário estadual de Polícia Civil —, constam diálogos em que o nome de Galvão é citado. Segundo a denúncia, Demetrio e Turnowski integrariam uma organização criminosa.
Em um dos celulares de Demetrio, cuja quebra do sigilo telefônico foi autorizada pela Justiça, os investigadores encontraram um áudio em que Turnowski e Demetrio falam sobre a mudança na Superintendência da PF, em 2020.
A denúncia do Gaeco informa que as mensagens de áudio “deixam clara a preocupação que os dois denunciados tinham com a possível nomeação dos delegados federais Fábio Galvão e Jaime Cândido, ex-integrantes da SSINTE da extinta SESEG, para a Superintendência da Polícia Federal”.
De acordo com o documento, Demetrio e Turnowski comentaram a possibilidade de Galvão e Jaime assumirem postos na nova gestão, após receberem a confirmação da nomeação de Tácio Muzzi como superintendente da PF.
Demetrio diz: “WW Tá ferrado”, ao que Turnowski responde: “Galvão deve vir junto. Mesmo time? Jaime?”.
Procurado, o delegado Allan Turnowski afirmou que a conversa está descontextualizada. Segundo o ex-secretário de Polícia Civil, quando Demetrio fala “WW”, ele se refere às iniciais do ex-governador Wilson Witzel. Em 2019, Witzel estava à frente do governo, e a Polícia Civil investigava quem mandou matar Marielle e Anderson. Durante o caso, os investigadores chegaram a ouvir um porteiro do Condomínio Vivendas da Barra, que declarou que Élcio de Queiroz, motorista na emboscada à vereadora, procurou pelo número da casa do então presidente Jair Bolsonaro, que morava no local. Em outro depoimento, a testemunha mudou a versão, dizendo ter cometido um equívoco. Segundo ele, Élcio procurou por Ronnie Lessa, o assassino confesso de Marielle e Anderson, que também vivia no condomínio.
— Esse áudio traz zero preocupação pessoal com a nomeação do delegado Galvão. O trecho faz referência a questão da vinda dessa equipe da PF para investigar suposta fraude da acusação contra o presidente Jair Bolsonaro na morte de Marielle Franco, que eu trato como mera ilação. Nessa conversa tem até uma troca de mensagens do Maurício (Demetrio) com o superintendente Tácio Muzzi, que o trata de amigo e diz que conta com ele nessa nova missão recebida (a de assumir a superintendência). Logo, tá totalmente fora de contexto. Não há qualquer eventual preocupação para mim — explicou Turnowski.
Procurada, a defesa de Demetrio não retornou o contato. O delegado está preso desde 30 de junho de 2021.
Prisões de traficantes e miliciano
Durante a gestão de Galvão na Subsecretaria de Inteligência, a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE) pertencia à Secretaria de Segurança e cuidava dos inquéritos sob sua supervisão. Algumas prisões, tanto de traficantes como de milicianos, foram realizadas sob essa coordenação.
Entre os traficantes presos por Galvão e sua equipe estão Eduardo Fernandes de Oliveira, o 2D; Luís Cláudio Machado, o Marreta; e Marcelo Fernando Pinheiro Veiga, o Marcelo Piloto, chefes do tráfico em áreas do Comando Vermelho (CV). Os dois últimos foram detidos no Paraguai, com apoio das forças de segurança locais. No combate à milícia, destacou-se a prisão de Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando da Curicica.
No âmbito da contravenção, a equipe de Galvão também investigou a tentativa de homicídio contra Rogério Mesquita, que passou a administrar os negócios do clã Garcia após o assassinato de Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, em 2004, em Cachoeiras de Macacu. Neste caso, os policiais indiciaram o grupo do então capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Adriano da Nóbrega, morto na Bahia, em 2020.
Galvão é delegado da PF há 21 anos. Após deixar a Secretaria de Segurança, assumiu a Delegacia de Repressão a Crimes Previdenciários em 2020 e, posteriormente, a Delegacia Especial no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, nos anos de 2021 e 2022.
Na gestão de Flávio Dino no Ministério da Justiça, Galvão coordenou o Centro Integrado da Diretoria de Operações Integradas e de Inteligência da pasta. Desde julho, estava à frente da Divisão de Procedimentos Disciplinares, na Corregedoria-Geral da PF.
Com informações de O Globo





