As Copas do Mundo costumam ser vendidas como verdadeiros contos de fadas capitalistas, onde algumas nações hipotecam o próprio futuro em troca do privilégio de ver um bando de homem de short correndo atrás de uma bola. Mas algumas, raras, vez, os deuses do futebol decidem incentivar a dignidade.Em meados de 1982, a FIFA acreditava piamente que o governo da Colômbia entregaria as chaves do tesouro nacional para cumprir o famoso “caderno de encargos” do torneio de 1986 _ aquele documento onde a FIFA passa praticamente a mandar no país.
O que a entidade máxima do futebol não esperava era encontrar um presidente que preferia construir hospitais a erguer monumentos ao ego de cartolas europeus, transformando o país no primeiro, e mais orgulhoso, desistente da história das Copas.
Até mesmo o grande escritor colombiano Gabriel García Márquez, um dos maiores do mundo, teria que suar a camisa para criar o enredo de um casamento entre seu país e os Mundiais de Futebol, que sempre foi pautado por um realismo fantástico. Onde o impossível rotineiramente goleia a lógica.
Das redes balançadas por caprichos do vento ao misticismo capilar que governava a hierarquia do vestiário, o futebol colombiano nunca precisou de um troféu de campeão para se fixar no folclore do esporte. Afinal, em qual outro lugar do planeta um goleiro seria preso por mediar um sequestro ou um atacante protestaria contra o banco de reservas sintonizando um rádio de pilha?

A Colômbia nas Copas: favoritismo e tragédia
Este ano a Colômbia disputa sua sétima Copa do Mundo. Ela já havia se classificado em 1962, 1990, 1994, 1998, 2014, 2018. O melhor resultado da seleção colombiana na história do torneio foi alcançado em 2014, quando chegou às quartas de final.
Por outro lado, a maior decepção da Colômbia em Copas foi, sem dúvida, a participação no Mundial de 1994, nos Estados Unidos. A campanha é lembrada não apenas pelo fracasso em campo, mas pela tragédia que se seguiu. A seleção chegou aos EUA como uma das grandes favoritas ao título.
O próprio Pelé a apontou como “favoritaça”. No entanto, a equipe teve uma atuação pífia. Após perder para a Romênia na estreia, a Colômbia precisava vencer os Estados Unidos. Foi quando o zagueiro Andrés Escobar, tentando cortar um cruzamento, marcou um gol contra. A Colômbia perdeu por 2 a 1 e foi eliminada na fase de grupos.
Mas o pior veio depois. Poucos dias após o jogo, Andrés Escobar foi assassinado em Medellín, supostamente por um grupo de torcedores indignados. O gol contra que ajudou a eliminar a seleção provavelmente custou sua vida, transformando um fracasso esportivo em uma das páginas mais sombrias da história do futebol.

O único gol olímpico das Copas (e contra o maior goleiro de todos)
Na Copa do Mundo do Chile, em 1962, a estreante Colômbia perdia por 4 a 1 para a poderosa União Soviética, quando o meio-campista colombiano Marcos Coll cobrou um escanteio fechado e se tornou o único autor de um gol olímpico na história das Copas do Mundo. O momento icônico aconteceu no Estádio Carlos Dittborn, na cidade de Arica, e mudou completamente o rumo da partida.
O que torna a história ainda mais sensacional é o goleiro que sofreu o gol. Ninguém menos que Lev Yashin, o “Aranha Negra”, amplamente considerado o maior goleiro de todos os tempos. O detalhe é que o meia do América de Calia dmitiu que não teve a intenção de marcar diretamente; fez um cruzamento a meia altura, mas o efeito da bola, o vento e a surpresa fizeram o resto.
A Colômbia se empolgou tanto com o feito que buscou um empate heroico por 4 a 4, com gols de Toño Rada e Marino Klinger nos minutos finais. Aquele empate acabou sendo o melhor resultado da Colômbia em sua primeira aventura em Copas, que terminou dias depois com a eliminação ainda na fase de grupos. Mas, convenhamos, sair de campo com um empate contra a União Soviética e um gol em Yashin já era mais do que qualquer estreante poderia pedir.

Uma orgulhosa nação com prioridades
A Copa de 1986 não deveria ter acontecido em solo mexicano, e sim nos vales e montanhas da Colômbia. O país havia sido escolhido por unanimidade pela FIFA em 1974, durante a gestão de Sir Stanley Rous, para sediar o torneio. O que aconteceu nos anos seguintes foi uma escalada de exigências comerciais que colidiam frontalmente com a realidade econômica da América Latina, exigindo investimentos faraônicos em infraestrutura que o Estado simplesmente não possuía.
Diante das exigências comerciais cada vez maiores da FIFA, que incluíam estádios moderníssimos com capacidade inflada, aeroportos internacionais de última geração e isenções fiscais totais que o país não podia arcar, o então presidente Belisario Betancur tomou uma decisão inédita.
Em um pronunciamento histórico de televisão em 1982, Betancur desistiu oficialmente de sediar o evento, declarando que o país tinha outras prioridades, como escolas e hospitais, e que a Colômbia havia sido sequestrada pelas exigências da FIFA. Foi a primeira vez que um país desistiu de ser sede da Copa do Mundo após ser escolhido, um feito isolado que só encontra eco remoto em 1942 e 1946, quando a Segunda Guerra Mundial cancelou os torneios programados, e não por objeção financeira governamental.

O escorpião engaiolado
O icônico goleiro René Higuita, famoso mundialmente pela plasticidade da defesa do escorpião e por sua ousadia ao jogar com os pés, acabou ficando de fora da Copa do Mundo de 1994 por um motivo extracampo chocante: ele foi parar na cadeia. O goleiro que definia o estilo irreverente daquela geração foi detido pelas autoridades colombianas em 1993, acusado de violar as leis antissequestro do país ao mediar a libertação da filha de um parceiro comercial ligada ao cartel de Medellín.
A lei colombiana proibia estritamente qualquer ganho financeiro ou mediação não autorizada em casos de extorsão, e Higuita passou mais de seis meses atrás das grades. O próprio atleta declarou anos mais tarde em sua biografia que agiu por motivos puramente humanitários para salvar a vida de uma criança. O preço de sua ousadia longe dos gramados foi passar o Mundial dos Estados Unidos assistindo aos companheiros pela televisão, privando o mundo de suas defesas teatrais.

O silêncio ensurdecedor do Monumental de Nuñez
Nas eliminatórias para a Copa de 1994, a Colômbia precisava jogar contra a Argentina em Buenos Aires, no mítico estádio Monumental de Nuñez, em setembro de 1993. A imprensa argentina e astros do passado, como Diego Maradona, tratavam a vitória local como certa, ironizando a suposta inferioridade dos visitantes. O placar final, contudo, registrou um sonoro 5 a 0 dentro da casa argentina, uma aula de contra-ataque comandada por Carlos Valderrama, Freddy Rincón e Faustino Asprilla.
Conforme registrado em documentários da ESPN, o show foi tão monumental que, ao fim da partida, rompeu-se uma das rivalidades mais ferrenhas do continente. A própria torcida argentina, em pé, aplaudiu a seleção da Colômbia. Em entrevistas posteriores, os jogadores colombianos afirmaram que depois do jogo o vestiário parecia o de um título mundial, uma apoteose de cantos e celebração que quase fez o grupo esquecer que a taça de fato ainda não havia sido disputada.

O motim musical de Asprilla
Na preparação para a Copa de 1998, sob o comando do rígido técnico Hernán Darío Gómez, o atacante Faustino Asprilla andava profundamente insatisfeito por ter sido substituído em um jogo estratégico contra a Inglaterra. O clima de guerra fria explodiu no jogo seguinte, contra a Tunísia. Ao perceber que seria reserva, Asprilla simplesmente levou um rádio de pilha para o banco e ficou ouvindo música enquanto o jogo transcorria normalmente ali bem na sua frente. Asprilla foi imediatamente cortado da seleção.
O treinador Darío Gómez daria depois mais uma camada a essa história. Segundo ele, Asprilla se desentendeu com a delegação ao criticar o técnico em uma entrevista de rádio dizendo que alguns jogadores eram “protegidos” pelo treinador. Alerta de treta ligado.
Dario Gómez afirmou àimprensa: “O diálogo que ele teve com o jornalista não foi normal. Então, alguma coisa tinha que ser feita. Devemos respeitar as regras”. Faustino (Asprilla) mostrou insatisfação e foi ele quem, com a declaração, quis sair. Nós não o tiramos. Ele se retirou sozinho”, disse Gómez. Até o meia Valderrama, maior ídolo do futebol colombiano, concordou: “Quando alguém erra, o técnico tem que tomar medidas. Eu nunca disse nada quando fui substituído. O Asprilla violou nossa norma de conduta”.

O santuário dos cachinhos dourados
Em uma seleção repleta de talentos, Carlos Valderrama conseguia chamar mais atenção do que todos simplesmente entrando em campo. Seu enorme cabelo loiro encaracolado transformou-se em marca registrada, estampou capas de revistas, campanhas publicitárias e tornou-se praticamente um símbolo do futebol colombiano.
Ao redor da cabeleira nasceu uma coleção de histórias curiosas. Ex-companheiros já relataram em entrevistas que existia uma espécie de brincadeira, quase um pacto informal no grupo, segundo o qual ninguém deveria encostar no cabelo de Valderrama. O respeito misturava superstição, amizade e bom humor. Não há evidência de que fosse de fato uma regra oficial da comissão técnica, mas diversos relatos confirmam que os companheiros evitavam mesmo chegar perto da famosa cabeleira.
Logo surgiram as lendas populares. Durante anos circularam boatos na Colômbia de que o cabelo seria uma peruca ou de que Valderrama utilizava fórmulas secretas e passava horas realizando tratamentos misteriosos antes das partidas. O próprio jogador sempre respondeu às histórias com bom humor, explicando que o volume extraordinário era apenas resultado de seu cabelo naturalmente cacheado, combinado com cuidados comuns. O mito cresceu justamente porque parecia mais divertido acreditar que existia algum segredo escondido atrás daquele verdadeiro “capacete” dourado.



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