Já fazia um calor de rachar às nove horas da manhã daquele 14 de setembro de 1941 quando Manoel Jacaré e os companheiros Tatá, Jerônimo e Manuel Preto subiram em uma embarcação feita com seis paus de piúba, uma madeira comum de sua região, rumo a uma aventura improvável: navegar 2.700 quilômetros do Ceará, até a baía da Guanabara, para pedir que os pescadores do país fossem incluídos na reforma trabalhista do Estado Novo, que estava em discussão na época. A efervescência gerada pela proposta do ditador Getúlio Vargas foi o que moveu os quatro pescadores rumo à aventura. Eles acreditavam que, para serem ouvidos, precisavam ir pessoalmente a então capital do país. E queriam chegar até lá no transporte que os ajudava a tirar o sustento do dia a dia.
Na partida, mais de 20 jangadas acompanharam a embarcação até a costa sumir da vista. A jornada levou 61 dias e se transformou num dos maiores fenômenos midiáticos brasileiros nos anos 1940. Mais do que uma aventura, a odisseia representou uma das mais singelas e ousadas ações políticas de pressão popular da história nacional.
A odisseia dos jangadeiros cearenses expôs as vísceras de um Brasil desigual, onde aqueles que alimentavam as cidades eram os mesmos que morriam na miséria absoluta ao envelhecer. Ao cruzar a arrebentação do Rio, os quatro homens não apenas conquistaram a simpatia de Getúlio Vargas, mas também atraíram os olhos do mundo. O que eles não sabiam é que o destino que os consagrou no palácio presidencial também guardava uma tragédia nas mãos de um gênio de Hollywood.
A missão improvável: verdade ou mito?
Por mais inacreditável possa parecer, a história é verídica e amplamente documentada pela imprensa da época. De com reportagens do Correio da Manhã, de agosto a novembro de 1941, quatro jangadeiros partiram de Fortaleza no dia 6 de agosto. A motivação central era, de fato, a exclusão dos pescadores da previdência social. Eles não tinham direito à aposentadoria, e testemunhavam pescadores idosos sem uma alternativa a não ser se alimentar de sobras de peixe.
Os pescadores artesanais não possuíam ainda pensão por invalidez ou qualquer assistência médica, vivendo à margem das reformas que o governo Vargas promovia nos centros urbanos. A viagem foi a resposta desesperada de uma classe que percebeu que precisava se fazer visível para passar a pertencer legalmente à nação brasileira.
Jacaré: quem era o nosso Odisseu?
O líder indiscutível do grupo era Manuel Olímpio Meira, conhecido como Jacaré. Ele era um jangadeiro respeitado em sua comunidade na Praia do Peixe, no Ceará, conhecido por sua liderança e coragem. Apesar de analfabeto, tinha uma consciência política aguçada para a realidade de sua categoria. Jacaré não era apenas o piloto da embarcação, mas a mente política do movimento, alguém com uma liderança natural que inspirava os companheiros Jerônimo, Tatá e Mané Preto a segui-lo no meio do nada.
Apesar de ser o porta-voz de uma categoria inteira e demonstrar uma eloquência impressionante que cativou intelectuais e jornalistas, Jacaré era analfabeto até pouco antes da viagem. Conforme a historiadora Rachel Soihet, em seu trabalho sobre movimentos sociais, e reportagens da época, ele fez um esforço monumental para aprender as primeiras letras e conseguir redigir e assinar o memorial de reivindicações que seria entregue nas mãos de Vargas.

A epopeia no mar
A viagem durou exatos 61 dias, de 6 de agosto a 15 de outubro de 194. Os quatro navegaram numa jangada típica do Nordeste, feita de toras de piúba que não oferecia qualquer proteção contra as ondas ou o sol. De acordo com o relato do jornal Diário Carioca, eles não possuíam bússola, mapas, cronômetros ou qualquer instrumento técnico de localização. Guiavam-se unicamente pelo desenho da linha da costa durante o dia e pela posição das estrelas e da Lua durante as noites escuras em alto-mar, técnicas passadas por gerações.
A alimentação era baseada no racionamento estrito de alimentos que eles ganhavam nas paradas. Basicamente farinha de mandioca, rapadura e na água potável guardada em pequenas barricas, suplementada pelo peixe que conseguiam fisgar ao longo do caminho. A pele dos navegantes sofreu queimaduras graves e o pescador Tatá chegou à capital debilitado por crises severas de malária contraídas em uma das paradas na costa.
Mas ao contrário do isolamento que se poderia imaginar, a jornada virou um fenômeno midiático espetacular. À medida que a jangada avançava e parava em portos de estados vizinhos, os jornais locais passavam as informações via telégrafo e rádio para o resto do país. Quando se aproximavam da Guanabara, as rádios nacionais faziam boletins diários, transformando a chegada em um evento de comoção pública que parou a cidade.
O encontro com Vargas e a sombra do comunismo
Ao achegarem no Rio, a recepção popular foi tão esmagadora que o Palácio do Catete não teve alternativa senão abrir as portas. Getúlio Vargas recebeu Jacaré e seus companheiros com toda a pompa e circunstância, conforme registrado na edição de 20 de outubro de 1941 do jornal A Noite. No encontro, o presidente ouviu atentamente o relato das dificuldades da vida no mar e aceitou o documento escrito com as exigências de direitos básicos para a classe.
A meta principal da comitiva era a inclusão dos pescadores artesanais na legislação trabalhista que estava sendo unificada e que culminaria na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). O plano deu certo. Impactado pela pressão da opinião pública e pela coragem dos homens, Vargas assinou decretos que estenderam os benefícios previdenciários e de saúde aos pescadores através das Caixas de Aposentadorias e Pensões, além de ordenar a regularização das colônias de pesca.

Mas Getúlio era Getúlio. Por trás dos sorrisos e tapinhas nas costas, sua máquina de propaganda política já identificara a possibilidade dos comunistas se aproximarem dos jangadeiros para inflamar a classe trabalhadora contra as injustiças do sistema.
Para evitar que os cearenses virassem os novos símbolos da esquerda, a máquina de propaganda oficial tomou conta da narrativa: pagou as despesas de hotel do grupo, organizou agendas controladas e fez questão de transformar a odisseia em uma exaltação do “homem simples brasileiro que confiava no seu presidente”.
A viagem acabou entrando para a memória trabalhista brasileira como um raro exemplo de mobilização espontânea que conseguiu alcançar diretamente o poder central e produzir efeitos concretos.
Como Orson Welles entrou nessa história?
A repercussão da história cruzou as fronteiras e chegou aos ouvidos do cineasta norte-americano Orson Welles, que estava no Brasil em 1942 desenvolvendo o projeto “It’s All True” (É Tudo Verdade). Welles tinha vindo ao país como parte da Política de Boa Vizinhança dos EUA para rodar um documentário sobre o Carnaval carioca, mas mudou completamente o foco do seu trabalho ao conhecer a odisseia dos jangadeiros, decidindo filmar o episódio “Four Men on a Raft” (Quatro Homens em uma Jangada).

A estadia de Welles pelo Brasil foi turbulenta e acompanhada de perto pela elite política e pela imprensa. Fascinado pela cultura popular e pelo cotidiano das populações marginalizadas, o diretor de “Cidadão Kane” passou a frequentar as favelas e redutos boêmios, gerando atritos com o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que desejava uma representação do Brasil mais moderna, higienizada e embranquecida.
Uma tragédia inexplicável
Welles levou os quatro jangadeiros para a Barra da Tijuca, com o objetivo de refilmar de forma dramatizada as cenas da exaustiva jornada marítima e a triunfante chegada à capital. O cineasta buscava uma poesia visual realista, utilizando os próprios pescadores como atores de sua própria história. Mas o mar não estava disposto a ajudar dessa vez.
No dia 19 de maio de 1942, durante as filmagens de uma cena de ação uma onda violenta atingiu a jangada e a virou completamente, jogando toda a equipe e os pescadores na água. Embora Jacaré fosse um nadador extraordinário e experiente, ele sumiu no meio do mar revolto. O pescador desapareceu nas águas e seu corpo nunca foi recuperado, interrompendo tragicamente a vida do líder que havia sobrevivido a 2.700 quilômetros de oceano aberto apenas alguns meses antes.
A preservação da memória no cinema
Após a morte trágica de Jacaré, a produtora norte-americana RKO, que já estava insatisfeita com os gastos nababescos de Welles e com o teor social do documentário, considerado pouco comercial e politicamente um tanto desconfortável para aquela época de caça aos comunistas, decidiu cortar as verbas e cancelar o projeto.
Orson Welles foi afastado e o filme nunca foi editado ou lançado na época. Os rolos de filme com as belíssimas imagens capturadas no Ceará e no Rio de Janeiro foram enviados para os Estados Unidos e ficaram trancados e esquecidos nos depósitos de Hollywood.

Somente em 1985 os negativos foram reencontrados nos arquivos da Paramount Pictures. O material redescoberto foi cuidadosamente restaurado e serviu de base para o lançamento, em 1993, do documentário “É Tudo Verdade – Um Filme Inacabado de Orson Welles”, que finalmente resgatou o trabalho do diretor e a memória visual da travessia dos quatro pescadores.
Décadas após a restauração dos primeiros arquivos, os cineastas cearenses Petrus Cariry e Firmino Holanda retomaram essa jornada histórica ao lançarem, em 2019, o documentário “A Jangada de Welles”. O filme esquadrinha com precisão histórica e sensibilidade artística os bastidores da passagem do diretor americano pelo Brasil, utilizando depoimentos de parentes dos jangadeiros e análise de documentos da época.
O longa de Cariry e Holanda vai além da figura mítica de Orson Welles para focar no impacto que a morte de Jacaré causou na comunidade de pescadores e como as promessas trabalhistas feitas pelo Estado Novo enfrentaram entraves burocráticos nos anos seguintes. A obra funciona como um memorial crítico sobre o uso político da imagem dos trabalhadores e o apagamento histórico de suas lideranças reais.
Onde estão as homenagens a esses heróis do mar?
Apesar do peso histórico da travessia, o reconhecimento físico dessa saga no espaço urbano brasileiro é quase nulo. Em Fortaleza, na Avenida Beira-Mar, existe um “Monumento ao Jangadeiro”, uma escultura de bronze que homenageia a classe dos pescadores artesanais e que frequentemente é associada pela população local à memória de Jacaré e seus companheiros.

No entanto, não há um grande monumento nacional exclusivo ou estátuas específicas com os nomes de Manuel Olímpio Meira, Jerônimo, Tatá e Mané Preto em nenhuma outra cidade brasileira. A jangada original chegou a ser guardada no Museu Nacional logo após a travessia, mas foi danificada nas filmagens de 1942, restando aos brasileiros o acervo cinematográfico e os livros de história como os principais santuários dessa memória.


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