Em julho de 1930, um navio a vapor sulcava o Atlântico em direção a Montevidéu carregando uma seleção brasileira já derrotada antes de pisar no gramado. O principal embate envolvia a rivalidade entre as entidades de futebol do Rio de Janeiro e de São Paulo, então os dois grandes polos do esporte no país. Naquele momento, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), responsável pela organização da seleção, rompeu relações com a Associação Paulista de Sports Athleticos (APSA), que controlava o futebol paulista. O resultado foi uma delegação de 24 jogadores composta, salvo um detalhe pitoresco, inteiramente por atletas de clubes cariocas, representando menos da metade do potencial real do futebol brasileiro daquele momento. A Copa do Mundo mal havia sido inventada e o Brasil já havia descoberto uma espécie de vocação para prejudicar a si mesmo antes de qualquer adversário entrar em campo.
O “racha” entre os dois estados foi tamanho que a derrota do Brasil para a Iugoslávia por 2 a 1 fez com que vários paulistas comemorassem a “derrota dos cariocas”. Quatro anos depois, na Itália de Mussolini, a história se repetiria com variações ainda mais dramáticas: clubes escondendo craques em fazendas no interior de São Paulo, agentes da CBD percorrendo o estado como caçadores de talentos e um dos maiores goleiros de todos os tempos defendendo um pênalti que, se convertido, talvez mudasse o destino de um torneio inteiro. A cartolagem brasileira, nas duas primeiras edições da Copa do Mundo, foi mais eficiente em destruir a seleção do que qualquer adversário conseguiria ser.
O cenário que se repete com tanta regularidade ao longo da história do futebol brasileiro que já parece genético. Mas em 1930 e 1934 ainda não havia nem tradição nem desculpa de experiência: era simplesmente o Brasil sendo o Brasil, com toda a glória de seu talento e todo o peso de suas guerras internas.


A jogada de craque de Jules Rimet
A certidão de nascimento da Copa do Mundo foi assinada longe dos gramados sul-americanos. Em 26 de maio de 1928, na 26ª Sessão do Comitê Olímpico Internacional (COI), realizada em Amsterdã, o presidente da FIFA Jules Rimet anunciou planos de criar um torneio distinto dos Jogos Olímpicos, aberto a todos os países membros da federação que havia sido fundada em 1904. Itália, Suécia, Países Baixos, Espanha e Uruguai se candidataram para sediar a primeira edição do evento. Mas até a data da votação da criação da Copa do Mundo, todos os europeus pularam fora. Sobrou o Uruguai.
Só que o que parecia um mau presságio, era muito mais do que Jules Rimet havia sonhado. Ele tinha o interesse em afastar qualquer influência do Comitê Olímpico Internacional, principal entidade esportiva da Europa, sobre o campeonato. Era, portanto, uma jogada política tanto quanto esportiva: tirar o futebol das sombras dos Jogos Olímpicos e dar-lhe uma identidade própria. E principalmente, um CNPJ próprio.
E assim o Uruguai apareceu como um presente dos deuses do futebol. Além de ser bicampeão olímpico, em 1924 e 1928, a Copa do Mundo tinha o apoio total do governo, que pagou os custos de viagem e hospedagem de todas as seleções, construiu o Estádio Centenário em tempo recorde com capacidade para 70 mil pessoas. E tudo isso em meio à Grande Depressão após a quebra da bolsa de Nova York em 1929.
Treze seleções, um oceano e o boicote europeu
Não houve eliminatórias. Qualquer um dos 46 países filiados à FIFA na época poderia se inscrever e participar (hoje são 211 países filiados, mais do que os 206 do COI e os 193 da ONU). Mas grandes potências futebolísticas do Velho Continente, como a Itália, a Espanha, a Alemanha e a Inglaterra, declinaram o convite de forma categórica.
O motivo principal era a longa e desgastante viagem transatlântica de navio, que exigia cerca de duas semanas de mar e afastava os atletas de seus clubes por até dois meses. Em um momento de profunda crise financeira global, os clubes europeus se recusaram a liberar seus principais ativos para uma aventura na América do Sul.
Mas havia Jules Rimet, que entrou em campo e com sua influência política conseguiu convencer França, Bélgica, Romênia e Iugoslávia a se inscreveram. Aos quatro times europeus se somaram sete sul-americanos (Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai) e dois da América do Norte (Estados Unidos e México).

Começam as tretas: o Brasil vai ao Uruguai sem São Paulo
“Ruidoso incidente entre a Confederação e a APSA em torno do Campeonato Mundial de Montevidéu. Até agora a CBD não deu a menor satisfação à Associação, sobre requisições dos jogadores desta”, era manchete da Folha da Manhã poucos meses antes da Copa. Com sede na Guanabara, a Confederação Brasileira de Desportos não quis admitir um integrante da Associação Paulista de Sports Atlheticos na comissão técnica da seleção. Em represália, a APSA não cedeu nenhum jogador paulista para o escrete nacional.
A lista original de convocados, divulgada em 7 de maio, tinha 25 nomes, sendo 15 de times paulistas e 10 do Rio. No entanto, com o veto paulista, a CBD foi obrigada a convocar um novo time, composto exclusivamente por atletas que atuavam no futebol carioca. O resultado foi uma equipe profundamente desfalcada, sem, por exemplo, Arthur Friedenreich, o primeiro “craque” do futebol brasileiro, que jogava no São Paulo.
E assim o Brasil foi à Copa com um time formado por cinco jogadores do Fluminense, quatro do Vasco, outros quatro do Botafogo, três do América, três do São Cristóvão (entre eles o insinuante atacante Theophilo), dois do Flamengo, dois do Ypiranga (o azul e branco de Niterói) e um do Americano de Campos.


A rebeldia pirata de Araken Patusca
Na verdade, um único jogador de São Paulo decidiu furar o bloqueio político e disputar a Copa de 1930. Nascido no litoral paulista em 1905, Araken era filho de um dos fundadores do Santos, Sizino Patusca, primeiro presidente do clube. Atacante veloz e artilheiro nato, ele marcou 182 gols em 193 jogos pelo Santos e era um dos jogadores mais admirados do país quando a Copa chegou.
Só que em 1929 Araken se desentendeu com o presidente do Santos, Antônio Guilherme Gonçalves e acabou sendo suspenso por 90 dias. Os protestos de sócios e torcedores fizeram com que a suspensão fosse reduzida para 30 dias, mas Araken não quis mais permanecer na Vila Belmiro. Estava, portanto, em rota de colisão com o Santos quando veio a Copa do Mundo. Como era proibido ser convocado sem uma agremiação de origem, ele assinou uma ficha como sendo jogador do Flamengo só para ter a chance de disputar a Copa. A malandragem deu certo. E ele nunca jogou pelo rubro-negro.
A chegada de Araken à concentração, porém, provocou um imediato mal-estar entre os convocados. Os jogadores da seleção temiam que a presença de Araken acirrasse ainda mais os ânimos entre os cartolas das federações estaduais e gerasse represálias quando eles retornassem aos seus clubes. O atacante foi isolado pelo elenco durante os treinamentos e acabou escalado para a estreia sob um clima de pesada tensão interna. Este ambiente deteriorado nos bastidores refletiu diretamente no rendimento técnico da Seleção dentro das quatro linhas.

Como foi a campanha de 1930?
A trajetória do Brasil na primeira Copa do Mundo foi melancólica e durou apenas duas partidas na fase de grupos. Na estreia, no dia 14 de julho, o time brasileiro demonstrou total desentrosamento e foi superado pela surpreendente seleção da Iugoslávia pelo placar de 2 a 1. O gol de honra do Brasil foi anotado por Preguinho (do Fluminense), no segundo tempo, mas a reação tardia não foi suficiente para evitar o placar inicial que comprometeu toda a estratégia da comissão técnica.
No segundo jogo, diante da frágil seleção da Bolívia, o Brasil conseguiu desencantar e aplicou uma goleada por 4 a 0, com gols marcados por Preguinho e Moderato (Flamengo). No entanto, a vitória elástica serviu apenas para cumprir tabela e amolecer o coração dos torcedores. Como a Iugoslávia também havia vencido os bolivianos, os europeus asseguraram a única vaga do grupo para as semifinais, eliminando o escrete nacional, que ainda usava o fardamento branco e azul, na primeira fase da competição.
O único a se salvar do vexame foi Fausto, volante do Vasco que “gastou a bola” nos gramados uruguaios, recebendo o apelido de “Maravilha Negra” da imprensa local. A exibição de Fausto no Uruguai abriu as portas do mercado europeu para o atleta, que pouco tempo depois seria contratado pelo Barcelona, da Espanha.
1934: Mussolini e o início de mais um racha
O país anfitrião da segunda edição da Copa do Mundo foi escolhido após um longo processo de tomada de decisão no qual o comitê executivo da FIFA precisou se reunir oito vezes, até a Itália ser escolhida em reunião em Estocolmo, em 9 de outubro de 1932. E motivos para tanta demora eram temores que se mostraram verdadeiros.
O ditador italiano Benito Mussolini quis usar o evento como propaganda do regime fascista. Ele controlou, dirigiu e manipulou tudo o que se passou no Mundial para garantir a vitória da Itália, selecionando pessoalmente os árbitros, escolhendo estádios e datas e a própria competição em si para várias semanas de propaganda fascista.

A Copa do Mundo da Itália de 1934 foi a primeira à qual as equipes tiveram de se classificar para participar, no período de 27 de maio a 10 de junho de 1934. Dessa vez, 32 nações disputaram as eliminatórias e16 seleções se classificaram. O formato era de mata-mata desde as oitavas de final, o que significava que um único tropeço eliminava qualquer seleção. Mas fora de campo, uma outra questão enfrentava séria disputa.
Em 1933, o futebol profissional foi oficialmente implantado no Brasil, com a criação da Federação Brasileira de Futebol (FBF) pelos clubes que defendiam a remuneração dos atletas. No entanto, a CBD, que era a entidade reconhecida pela FIFA, ainda se mantinha apegada aos ideais amadores, gerando uma enorme cisão.
A guerra pelo controle do futebol brasileiro
A CBD era até então a entidade tradicional, filiada à FIFA e a o COI e defensora do amadorismo. Por outro lado, a FBF foi fundada em 1933 pelos clubes mais poderosos do Rio e de São Paulo, que se cansaram do amadorismo e decidiram fundar uma entidade mais moderna, que pretendia profissionalizar o esporte e aumentar a competitividade, e por que não, a rentabilidade da brincadeira.
De um lado, a CBD contava com o apoio de apenas alguns clubes, sendo o Botafogo o mais expressivo deles. O clube alvinegro carioca permaneceu fiel à entidade amadora e forneceu a base da seleção que foi à Itália em 1934. Do outro lado, a FBF reunia a grande maioria dos clubes mais fortes e com maior poder financeiro. Entre eles, São Paulo, Corinthians, Palestra Itália (atual Palmeiras), Santos, Flamengo, Fluminense, Vasco da Gama e o América. Esses clubes haviam abraçado o profissionalismo e não aceitavam a ingerência da CBD em seus assuntos. Era nesse caldeirão de interesses conflitantes que o Brasil tentava montar sua seleção para a Copa.
É fogo no parquinho!
Quando chegou o momento de definir a lista de convocados para a Copa, a CBD se viu em uma situação desesperadora. Os melhores jogadores do país, como Leônidas da Silva e Waldemar de Brito, estavam atuando por clubes filiados à FBF, e a CBD não tinha ingerência alguma sobre eles. Só tinha um jeito: convocar o “homem da mala”.
O presidente da CBD, Álvaro Catão, chamou Carlito Rocha, famoso dirigente do Botafogo, e o autorizou a promover uma verdadeira ofensiva para literalmente “comprar” os serviços dos atletas da FBF, oferecendo rios de dinheiro e inúmeras vantagens para que eles deixassem a FBF e aceitassem jogar pela seleção.
A CBD, que tanto criticava o profissionalismo, agora se via obrigada a atuar como uma agência de empregos, negociando com jogadores como se fossem mercadorias. A estratégia foi parcialmente bem-sucedida. Na capital paulista, Carlito Rocha contratou quatro jogadores do São Paulo. E uma operação sigilosa foi montada para levar Sylvio Hoffmann, Luizinho, Waldemar de Brito e Armandinho às escondidas para o Rio de Janeiro. Os grandes clubes perceberam o movimento e aqui começa um dos episódios mais divertidos do futebol brasileiro.


O rapto no canavial
Para conter o assédio financeiro agressivo praticado pela CBD, a diretoria da Federação Brasileira de Futebol tomou uma medida drástica às vésperas da convocação. Os cartolas paulistas decidiram “raptar” e confinar os seus principais jogadores em uma propriedade rural isolada no município de Matão, no profundo interior do estado de São Paulo. Sob o pretexto de um período de descanso, astros como Romeu Pellicciari, Gabardo, Junqueira, Lara e Tunga permaneceram completamente incomunicáveis.
A fazenda era protegida por seguranças armados com escopetas contratados pelos clubes profissionais, com ordens expressas de mandar chumbo grosso em qualquer pessoa estranha ou representante da CBD que ousasse dar as caras. Conforme relata o historiador José Rezende, os jogadores passavam os dias isolados entre os canaviais, sem qualquer acesso a jornais ou telefones, protegidos em uma verdadeira bolha rural para evitar que fossem seduzidos pelas propostas financeiras da confederação oficial.
1934: um jogo e nada mais
A campanha brasileira na Copa de 1934 foi, de longe, a pior da história da seleção na competição. Com o formato de eliminatórias simples desde a primeira fase, o Brasil precisou fazer apenas um jogo. Na estreia, em 27 de maio, em Gênova, a seleção enfrentou a Espanha e perdeu por 3 a 1.
O time espanhol dominou completamente as ações no primeiro tempo, abrindo uma vantagem confortável de 3 a 0 em menos de trinta minutos de jogo. Na etapa complementar, o Brasil esboçou uma reação com um gol de Leônidas da Silva e chegou a ter um gol do atacante Luizinho anulado pela arbitragem. A reação, no entanto, foi freada pela atuação monumental do lendário goleiro espanhol Ricardo Zamora, um dos maiores da história, que fechou a meta e despachou os brasileiros de volta para casa.
Esse jogo ainda guarda uma ironia. Aos 17 do primeiro tempo, quando ainda estava 1 a 0 para a Espanha, houve um pênalti para o Brasil, perdido pelo atacante Waldemar de Brito. E se por um lado, ele ficou marcado como o primeiro jogador a perder um pênalti pela Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo, ele entraria para a história principalmente por um feito realizado alguns anos depois. Quando era técnico do Bauru Atlético Clube em 1954, Waldemar descobriu um garoto de 14 anos. Dois anos depois, resolveu levá-lo para o Santos. O garoto era simplesmente Pelé.


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