Sob a sombra serena dos jacarandás e das sibipirunas, um portão de ferro forjado se abre para um pedaço de terra onde o silêncio é mais do que a ausência de som; é uma presença carregada de memórias sussurradas. Localizado no bairro de Inhaúma, na Zona Norte da Guanabara, o Cemitério Israelita da ABFRI, mais conhecido como “Cemitério das Polacas”, guarda, sob suas lápides desgastadas pelo tempo e inscritas em caracteres hebraicos, cirílicos e portugueses, uma narrativa complexa e muitas vezes relegada às margens da história da cidade. Longe dos cartões-postais e dos circuitos tradicionais de memória, este campo santo é um testemunho físico de um capítulo delicado da imigração judaica no Brasil.

A paisagem tranquila esconde um passado de exclusão e resistência. Cada túmulo, alguns simples, outros com maior elaboração, conta uma história de mulheres que cruzaram oceanos em busca de sobrevivência e que, na morte, foram novamente confinadas a um espaço à parte, mesmo dentro de uma comunidade que também lutava por aceitação. O vento que balança os galhos das árvores parece carregar ecos de uma luta por dignidade que começou no início do século XX e que encontrou, na criação daquele espaço, um ato último de autonomia.

Mais do que um cemitério, o terreno é um arquivo de pedra e mármore sobre preconceito, prostituição, identidade religiosa e a busca por um lugar no mundo, mesmo que esse lugar seja o derradeiro. É uma página da história carioca escrita por aquelas que a sociedade da época preferia não ver, mas que insistem em ser lembradas através da existência persistente e melancólica daquele recinto sagrado.

Portões no Cemitério das Polacas | Crédito: Reprodução

O que eram as “polacas”?

As chamadas “polacas” eram mulheres judias vindas da Europa Oriental, de regiões que hoje correspondem à Polônia, Ucrânia, Rússia e Bielorrússia, onde comunidades judaicas (os shtetls) enfrentavam perseguições, pobreza e pogroms. 

A historiadora Beatriz Kushnir, em seu livro Baile de Máscaras: Mulheres Judias e Prostituição. As Polacas e suas Associações de Ajuda Mútua, explica que a imigração dessas mulheres estava frequentemente ligada a redes de tráfico internacional, chamadas “tráfico das brancas”. Elas chegavam ao Brasil acreditando que se casariam ou trabalhariam em atividades dignas, mas eram forçadas à prostituição.

A comunidade judaica estabelecida no Rio, majoritariamente asquenaze e em processo de ascensão social e busca por respeitabilidade, via a presença dessas mulheres com enorme constrangimento. Elas eram consideradas uma mancha, uma “vergonha” que ameaçava a imagem da coletividade perante a sociedade brasileira, sendo sistematicamente marginalizadas dentro da própria comunidade.

Essa exclusão seria determinante para os acontecimentos que se seguiriam.

Mulheres judias enfrentavam perseguição na Europa e tentaram refúgio no Brasil | Crédito: Reprodução

Uma comunidade própria

Em 1906, um grupo de 70 mulheres judias ligadas à prostituição decidiu criar a Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita (ABFRI). A iniciativa surgiu da necessidade de garantir rituais religiosos adequados para si mesmas, já que a comunidade judaica oficial se recusava a enterrá-las em seus cemitérios.

A fundação da ABFRI representou um ato de autonomia e solidariedade em meio à exclusão. A associação funcionava como uma rede de apoio mútuo, cobrando contribuições das associadas para garantir enterros dignos, ajuda em caso de doença e suporte religioso básico.

A existência legal da associação revela não apenas organização, mas consciência política. Aquelas mulheres sabiam que, sem estrutura institucional, continuariam invisíveis até depois da morte.

A inauguração do cemitério

A fundação da associação foi o primeiro passo, mas criação de um cemitério próprio tornou-se inevitável quando ficou claro que nenhuma outra instituição judaica jamais aceitaria enterrar as mulheres da ABFRI.

A recusa era fundamentada em argumentos religiosos, mas, na prática, refletia um julgamento moral severo. Na tradição judaica, o sepultamento é um dever comunitário, e a negação desse direito equivale a uma exclusão extrema.

Diante disso, a associação adquiriu um terreno em Inhaúma, então uma área periférica e pouco valorizada da cidade, longe dos centros judaicos e do olhar público. O cemitério foi inaugurado em 1912, segundo registros citados por Beatriz Kushnir e confirmados por pesquisas do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade.

O local passou a ser conhecido popularmente como Cemitério das Polacas, embora seu nome oficial fosse Cemitério Israelita de Inhaúma. A distância geográfica simbolizava também a distância social: mesmo mortas, aquelas mulheres não deveriam ocupar o mesmo espaço das moças “respeitáveis”.

Túmulos em má estado de conservação, apesar do local ter sido tombado pelo Iphan | Crédito: Reprodução

Por que ficou conhecido como o “Cemitério da Escória”?

Durante décadas, circulou a ideia de que o cemitério de Inhaúma abrigava a “escória” da comunidade judaica. A historiadora Fany Wschowitz,  em seus escritos sobre a imigração judaica no Rio refere-se aos enterrados ali como “prostitutas e criminosos”.

No entanto, pesquisas mais recentes, como as de Beatriz Kushnir e do antropólogo Samuel Reibscheid (autor da tese Os Vivos e os Mortos no Cemitério das Polacas), problematizam esse rótulo. Estudos acadêmicos apontam que a própria noção de “escória” revelava mais sobre quem rotulava do que sobre quem era rotulado.

A exclusão dessas pessoas não se deu apenas por critérios religiosos, mas por um esforço de respeitabilidade social das elites judaicas recém-estabelecidas no Brasil.

Embora uma parcela significativa dos sepultados tenha, de fato, ligação com o universo da prostituição e da cafetinagem, enterraram-se ali também imigrantes judeus pobres que não tinham recursos para custear um enterro nos cemitérios oficiais, além de filhos e familiares das polacas.

Um projeto de comunidade

A atuação da ABFRI não se limitou ao funerário. Em um ato notável de organização comunitária e visão de futuro, a associação construiu, anexa ao cemitério, uma escola religiosa e um espaço para rituais.

A pequena edificação, que ainda existe em estado precário, tinha como objetivo educar os filhos das associadas, afastando-os do ambiente das ruas e do estigma dos pais. Era uma tentativa de assegurar uma nova trajetória para a geração seguinte.

O local possuía ainda uma estrutura completa para os rituais de preparação do corpo (a taharah), realizados por um shamash (zelador) especialmente contratado.

Isso demonstra que, longe de ser um depósito de indesejados, o cemitério era administrado com rigor religioso e profundo senso de dignidade, oferecendo o que a comunidade negava: cumprimento integral das leis e tradições do judaísmo na morte.

O silêncio como regra moral

O silêncio em torno do cemitério e de suas histórias deriva do estigma associado à prostituição e à marginalização dessas mulheres na comunidade judaica tradicional.

Durante décadas, a narrativa dominante evitou confrontar essas histórias de vida complexas, contribuindo para o abandono e o esquecimento do local até esforços recentes de reconhecimento e preservação.

E assim o cemitério se tornou um assunto tabu dentro da própria comunidade judaica carioca. As famílias que porventura tinham parentes enterrados lá frequentemente escondiam esse fato, com vergonha do estigma associado ao local.

Quantas pessoas estão enterradas lá?

As estimativas indicam a existência de 797 túmulos no Cemitério das Polacas. No entanto, esse número é aproximado. Muitas sepulturas são antigas, de alvenaria simples, e algumas já estão bastante destruídas ou ilegíveis.

O antropólogo Samuel Reibscheid, em sua pesquisa de campo, identificou a presença de túmulos com inscrições em iídiche, hebraico, russo e português, um testemunho das múltiplas origens dos que ali repousam.

A disposição das sepulturas segue uma organização simples, com corredores centrais, mas a vegetação invasiva e a falta de conservação contínua dificultam uma contagem precisa e um acesso a todos os pontos do terreno.

Mais de 700 pessoas estão sepultadas no Cemitério das Polacas | Crédito: Reprodução

A presença das Polacas na cultura carioca

As polacas estão presentes na letra de Mestre-Sala dos Mares, de João Bosco e Aldir Blanc. No poema Balada do Mangue, de Vinícius de Moraes, publicado em 1946. Na série de desenhos de Lasar Segall intitulada Mangue, em pinturas de Di Cavalcanti e nas fotos de Augusto Malta.

Uma delas Estera  Gladkowicer, uma polaca de origem russa (carteirinha 65 da ABRFI) roubou o coração de Moreira da Silva, nosso eterno malandro, que após o trágico suicídio de sua paixão, dedicou-lhe a comomovente canção “Judia rara”.

Mas a figura mais famosa associada ao Cemitério das Polacas é o genial compositor e instrumentista Jacob Pick Bittencourt, mais conhecido como Jacob do Bandolim.

Sua mãe, Raquel Levy, foi uma imigrante judia polonesa que ao chegar ao Brasil trabalhou como costureira para mulheres ligadas à ABRFI. Mas não há nenhuma evidência documental confirmando que ela tenha sido prostituta.

O tombamento em 2010

Em 2010, o Cemitério Israelita da ABFRI foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O processo de tombamento não foi motivado por seu valor arquitetônico, mas sim histórico, social e afetivo.

O relatório do Iphan destaca o cemitério como “testemunho de um grupo social específico, marginalizado dentro de sua própria comunidade religiosa” e como “documento da história da imigração e da prostituição no Rio de Janeiro”.

Desta forma, o tombamento representou um reconhecimento oficial da importância daquela narrativa para a memória nacional. Foi um ato de resgate que inverteu a lógica do silêncio, transformando um local de exclusão em um patrimônio de todos, cuja preservação é de interesse público.

A decisão protegeu o local da degradação e da especulação imobiliária, garantindo que essa página complexa da história carioca não fosse literalmente soterrada.

O fim da ABRFI e suas razões

A associação entrou em declínio a partir da década de 1960 e foi extinta poucos anos depois. As razões para seu fim estão ligadas à transformação do contexto que a gerou.

Com o passar das décadas, o fluxo imigratório que trouxe as “polacas” cessou. As mulheres da primeira geração foram falecendo, boa parte de seus filhos conseguiram se integrar socialmente em outras profissões e não deram continuidade à associação.

Além disso, as pressões sociais e legais contra a prostituição e a cafetinagem mudaram, e o estigma específico que levou à criação do cemitério foi, aos poucos, perdendo força dentro de uma comunidade judaica mais consolidada e diversa.

Sem novas gerações de associados e sem a necessidade premente que a originou, a ABFRI deixou de existir, deixando o cemitério como seu único e legado físico.

O Cemitério das Polacas nos dias de hoje

Atualmente, o Cemitério das Polacas encontra-se em um estado de conservação precário, mas resistente. Relatos de visitantes e matérias jornalísticas descrevem o local com mato alto em alguns trechos, túmulos rachados ou tombados, e pichações em seus muros. A capela e a antiga escola estão deterioradas.

Apesar do tombamento federal, a manutenção regular e efetiva por parte do poder público é insuficiente, sendo comum que ações de limpeza e recuperação partam de iniciativas pontuais de universidades ou grupos de pesquisadores de História.

Ainda são realizados enterros no Cemitério das Polacas, mas de forma muito esporádica. O direito a novas sepulturas é garantido apenas a descendentes diretos daqueles que já possuem jazigo familiar no local.  O último enterro de que se tem registro ocorreu em 2015, quando uma descendente de uma das polacas foi sepultada ao lado de seus antepassados.

Esse evento raro demonstra que, mesmo um século após sua inauguração, o cemitério continua cumprindo sua função original para um pequeno grupo de famílias que mantém vínculos com a história de resistência e autonomia que ele representa.

Sua condição física é um reflexo da ambiguidade com que a sociedade lida com esta memória. Protegida por lei, mas negligenciada na prática. Cada novo enterro, ainda mesmo raro, é um atestado de que a memória daquelas mulheres e da comunidade que criaram ainda pulsa, teimosamente, sob a terra de Inhaúma.

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading