O estado do Rio de Janeiro registrou crescimento de quase 90% nos casos de caxumba no primeiro trimestre de 2026. Segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES), foram 395 registros da doença entre janeiro e março deste ano, contra 210 no mesmo período de 2025. Entre os municípios de pequeno porte com maior incidência de casos estão Guapimirim, na Baixada Fluminense, e Rio das Ostras, na Região dos Lagos.

A maior parte das infecções ocorre em crianças. De acordo com a SES, mais da metade dos casos confirmados envolve pacientes com menos de 9 anos. Desse total, 37% atingem crianças entre 5 e 9 anos, enquanto 26% concentram-se na faixa de 1 a 4 anos. Até o momento, o estado não registrou mortes pela doença.

A Agenda do Poder conversou com especialistas e representantes das secretarias de Saúde do estado e do município do Rio para entender o avanço dos casos, o impacto da queda na cobertura vacinal e as formas de transmissão da doença. 

Aumento de casos

Cristina Giordano, coordenadora de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro | Crédito: Verônica Américo / Agenda do Poder

Segundo a coordenadora de Vigilância Epidemiológica da SES-RJ, Cristina Giordano, o aumento ultrapassa o padrão histórico esperado pela secretaria para este período do ano.

“A gente consegue observar que, ao longo da história da doença aqui no estado do Rio, ela está muito acima do que esperávamos, do padrão que esperamos pra doença nesse período”, explica.

Segundo ela, o perfil epidemiológico da doença não sofreu alterações nos últimos anos. Crianças menores de 10 anos continuam concentrando a maior parte das notificações, especialmente aquelas sem o esquema vacinal completo. “Predominantemente são crianças com menos de 10 anos e, geralmente, sem o esquema completo de vacinação, que é de duas doses”, afirma Cristina.

O que é a caxumba 

A imagem estética da caxumba é a da doença que faz o rosto inchar. No entanto, esse pode ser um dos últimos sintomas a se manifestar nos pacientes. A doença infecciosa é causada por um vírus que atinge principalmente as glândulas salivares localizadas próximas à mandíbula. É o que sintetiza o professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), André Ricardo Araújo. 

Segundo ele, a transmissão ocorre por meio do contato com secreções respiratórias de pessoas infectadas, especialmente em ambientes fechados e com grande circulação de pessoas. Apesar de ser frequentemente associada à infância, adolescentes e adultos também podem desenvolver a doença.

“A caxumba é uma doença infecciosa transmitida normalmente pelo vírus chamado vírus da caxumba e que se manifesta nas pessoas, particularmente nas crianças, com um quadro de febre e um aumento da região atrás do ângulo da mandíbula, fazendo com que ela tenha também dor associada. Esses são os sintomas mais comuns que acontecem.”

O inchaço, comum nesse caso, pode surgir inicialmente em apenas um lado do rosto e depois atingir o outro. Em cerca de 80% a 90% dos casos, esse é o principal quadro clínico da doença, reforça Araújo. Nos primeiros dias, no entanto, a identificação pode ser mais difícil. Isso porque os sintomas iniciais se confundem com outras viroses respiratórias comuns da infância.

Febre e inchaço na região da mandíbula são um dos sintomas mais comuns | Crédito: Reprodução / Depositphotos

“Nos primeiros dois, três dias da doença, ela pode se manifestar de forma indiferenciada, ou seja, semelhante a outras doenças virais da infância. Então, a pessoa pode ter só febre, mal-estar, um desconforto na face, naquela região do pescoço, próximo à mandíbula”, afirma o docente.

É quando aparece o inchaço característico das glândulas salivares que o diagnóstico fica mais completo. Ainda assim, segundo o médico, algumas infecções podem provocar sintomas semelhantes, como adenites infecciosas, que causam aumento dos linfonodos da região do pescoço.

Complicações

Além do desconforto e da febre, a doença também pode evoluir para complicações em parte dos pacientes. A manifestação mais frequente é a orquite, inflamação dos testículos que costuma atingir adolescentes e adultos do sexo masculino. Segundo o médico, a orquite é a complicação mais comum, podendo aparecer em torno de 20% a 30% dos casos. 

“Eventualmente, a caxumba pode complicar. Ela pode dar uma manifestação clínica, que é a orquite, particularmente nos meninos. A orquite é a inflamação do testículo. Então, isso pode acontecer em um testículo ou nos dois testículos e eventualmente causar desconforto. Tem outras complicações mais graves, como, por exemplo, quadros de pneumonia.”

Entre as complicações, a caxumba também pode provocar alterações no sistema nervoso central, embora essas situações sejam menos frequentes. Já os adultos, tendem a apresentar sintomas mais intensos e maior prostração quando comparados às crianças.

Susto em casa

A analista administrativa Mariana Souza, de 34 anos, moradora do Rio Comprido, na região central do Rio, enfrentou a doença dentro de casa em fevereiro deste ano. O filho Theo Souza, de 6, começou apresentando febre baixa. Nos primeiros dias, a família acreditou se tratar de uma virose comum.

“Ele ficou mais quietinho, sem querer brincar, reclamando de dor perto da mandíbula. Depois o rosto começou a inchar de um lado. Foi aí que levamos ao médico e recebemos o diagnóstico”, conta.

Segundo Mariana, a recuperação levou cerca de duas semanas. Durante esse período, o menino precisou se afastar da escola e evitar contato com outras crianças. “A orientação foi manter repouso, hidratação e isolamento. Como ele convive com os avós dentro de casa, ficamos preocupados com a transmissão”.

Após o diagnóstico, a família revisou a caderneta de vacinação de todos os parentes próximos, conta Mariana: “Foi um susto porque a gente acaba associando a caxumba a uma doença antiga. Não imaginava que ainda circulasse tanto”.

Um dos fatores para o aumento dos casos no estado é a baixa cobertura vacinal da segunda dose | Crédito: Tânia Rego / Agência Brasil

Municípios pequenos entram no radar

Embora cidades da Região Metropolitana registrem números absolutos mais elevados devido à densidade populacional, municípios de pequeno porte passaram a chamar atenção da vigilância epidemiológica estadual. Guapimirim, na Baixada, aparece atualmente com a maior taxa de incidência proporcional do estado, seguido por Rio das Ostras.

“A distribuição dos casos está muito ampla dentro do estado do Rio de Janeiro. Não há uma concentração por alguma região específica”, diz Cristina Giordano. 

Ainda de acordo com a coordenadora, o aumento das notificações também está ligado ao fortalecimento da vigilância epidemiológica nos municípios. Desde 2021, a caxumba integra a lista estadual de doenças de notificação obrigatória. O monitoramento, segundo ela, é realizado por uma ferramenta chamada Diagrama de Controle. 

“As equipes municipais estão muito sensibilizadas. Então, elas estão observando casos suspeitos mais rapidamente e notificando, o que é muito importante pra gente começar a implementar algumas ações de controle”, aponta.

De olho na Copa 

Seguindo a lógica de contaminação em locais fechados e lotados, a Secretaria também expressa preocupação com a aproximação dos meses de junho e julho, quando o estado começa a receber maior movimentação por conta da Copa do Mundo.

“Uma outra situação que temos que observar agora é que a gente vai ter a Copa do Mundo. Então, outras pessoas vão circular no nosso território, pessoas de outros países, e talvez a vacinação não seja tratada como deveria. É possível que observemos um número maior de casos por conta de todos esses aspectos”.

Cristina Giordano, coordenadora de Vigilância Epidemiológica da SES-RJ

Capital na contramão do aumento 

Apesar do crescimento estadual, a cidade do Rio não identifica, até o momento, um cenário de preocupação epidemiológica relacionado à caxumba. A Secretaria Municipal de Saúde afirma que monitora diariamente os casos de parotidite (inflamação das glândulas salivares que pode ser causada pela caxumba ou por outros vírus) e considera que os registros permanecem dentro da normalidade.

Subsecretário de Promoção, Atenção Primária e Vigilância em Saúde na SMS-Rio, Renato Cony | Crédito: Verônica Américo / Agenda do Poder

O subsecretário de Promoção, Atenção Primária e Vigilância em Saúde da SMS-Rio, Renato Cony, afirma que o município mantém acompanhamento constante dos sintomas e agravos registrados na rede pública de saúde.

“Com relação à parotidite, que é uma inflamação das glândulas salivares que pode ser causada por caxumba ou por outros vírus, pode eventualmente ter um aumento discreto nos casos deste ano em relação ao passado, e a quantidade de casos ainda fica dentro do que a gente chama de normalidade no nosso diagnóstico. Ou seja, não há ainda uma preocupação do ponto de vista sanitário com esses casos de parotidite aqui no município do Rio de Janeiro”.

Segundo o subsecretário, a capital apresenta um dos maiores índices de vacinação do país para a tríplice viral, vacina que protege contra caxumba, sarampo e rubéola. “A nossa cobertura hoje para a primeira dose da vacina, que é feita aos 12 meses, é de 95%. E, na segunda dose, a gente está alcançando 90% de cobertura”, pontua.

Para Cony, os índices ajudam a manter a capital em um cenário diferente do restante do estado, inclusive diante do aumento recente de outras doenças como o sarampo. 

“A gente não está observando muito o sarampo, que tem aumentado na América do Norte. Há casos no Canadá, nos Estados Unidos e no México. Agora, o Brasil tem uma preocupação muito grande com possível reintrodução, porque nós somos um país livre de sarampo.”

E o município do Rio de Janeiro tem um cenário de maior tranquilidade por conta da nossa alta cobertura vacinal, inclusive no caso da parotidite causada por caxumba.”

Os índices do município contrastam com o cenário estadual. Dados da SES mostram que, no estado do Rio, 85,62% do público-alvo recebeu a primeira dose da vacina, enquanto apenas 70% completou o esquema vacinal com a segunda aplicação. A meta do Ministério da Saúde é atingir 95% de cobertura.

Vacinas estão disponíveis em postos de saúde, clínicas da família e nos Super Centros Cariocas de Vacinação | Crédito: Divulgação / Prefeitura do Rio

De acordo com o subsecretário, a manutenção de altas taxas vacinais ajuda a explicar por que a capital não registra crescimento expressivo dos casos. No entanto, segundo ele, desde a pandemia de covid-19, o comportamento da população recuou na aplicação das vacinas. 

“Quando a gente entra no cenário pandêmico e no rápido desenvolvimento das vacinas, as maiores mentes do mundo estavam exclusivamente preocupadas em produzir alternativas contra a Covid. Setores da sociedade, setores negacionistas em relação à ciência, voltaram a trazer à tona suas preocupações com a vacina”, lembra. 

Acesso à vacina

Na capital fluminense, a secretaria atribui a recuperação da cobertura em três pilares, a começar pelo acesso à vacina. Pensando nisso, entre as estratégias adotadas pela prefeitura estão a criação do Super Centro Carioca de Vacinação, unidades instaladas em shoppings e campanhas em escolas municipais.

“O primeiro pilar é a ampliação do acesso à vacina. A população trabalhadora, que não tem tempo de ir à clínica da família, pode buscar vacinação. Nós criamos parceria com shoppings, unidades funcionando em horário estendido e também fortalecemos o trabalho de território”, destaca.

Ainda conforme a autoridade, todas as unidades escolares da rede municipal possuem vínculo com clínicas da família, o que facilita ações de imunização também no ambiente escolar.

“Na semana passada, a gente fez o lançamento oficial da campanha Vacina na Escola. Então, todas as escolas do município do Rio de Janeiro estão vinculadas a uma unidade de atenção primária. Ao longo do ano, nós desenvolvemos inúmeras ações dentro do Programa Saúde na Escola”, explica.

Secretaria de Estado de Saúde do Rio alerta para baixa cobertura vacinal da tríplice viral | Crédito: Sofia Miranda / Agenda do Poder

Onde vacinar

A vacina contra a caxumba está disponível gratuitamente nas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) por meio da tríplice viral, que também protege contra sarampo e rubéola. O esquema vacinal prevê duas doses: a primeira aos 12 meses e a segunda aos 15 meses de idade.

Em adultos não vacinados, a recomendação é de aplicação da primeira dose. “A partir dos 15 meses até os 29 anos, as pessoas podem se vacinar e devem ter as duas doses. E, de 30 a 59 anos, também é recomendada a vacinação, só que aí o usuário só precisa ter uma dose”, lembra Cristina Giordano, coordenadora de Vigilância Epidemiológica da SES-RJ. 

Na cidade do Rio, a vacinação pode ser feita nas 241 clínicas da família e centros municipais de saúde espalhados pela capital. O município também mantém o Super Centro Carioca de Vacinação, com unidades em Botafogo, Del Castilho (Shopping Nova América) e Campo Grande (ParkShopping). O funcionamento é diário.

A Secretaria Municipal de Saúde orienta que pessoas com dúvidas sobre a situação vacinal procurem a unidade de saúde mais próxima com a caderneta de vacinação e um documento de identificação.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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