A Câmara de Comércio de Hollywood anunciou em julho passado a lista dos 35 agraciados com a adição de seu nome à famosa Calçada da Fama em 2026. Ao lado de pesos-pesados como Demi Moore e Timothée Chalamet, existe alguém que, para a maioria dos brasileiros, não desperta nenhum reconhecimento imediato: Paulinho da Costa. Nascido em Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, o percussionista de 77 anos está prestes a receber uma honraria que Carmen Miranda, a grande embaixadora do Brasil em Hollywood, jamais teve em vida, e que o tornará o primeiro artista nascido no Brasil a ter uma estrela no famoso calçadão.
A ironia é monumental. Enquanto milhões de brasileiros cantarolam Wanna Be Startin’ Somethin’, La Isla Bonita ou até “We Are the World” sem saber, o ritmo que embala essas canções saiu das mãos de um carioca que tocou pandeiro na ala mirim da Portela. Agora, depois de gravar mais de 6.000 canções com mais de 900 artistas, participar de 161 indicações ao Grammy e ter seu trabalho reconhecido por Michael Jackson como o de “o maior percussionista de todos os tempos”, Paulinho finalmente será imortalizado em um pedaço de concreto cor-de-rosa na Hollywood Boulevard.
A cerimônia está marcada para maio de 2026, e ele já anunciou que estará presente. Enquanto isso, a Netflix acaba de lançar o documentário The Groove Under The Groove, e a Johnnie Walker tirou o escorpião do bolso, numa campanha que já ganhou os principais festivais de publicidade, para corrigir uma injustiça histórica. Afinal: quem é o brasileiro que estava em quase todas as músicas que você cantou nas últimas cinco décadas?

Das mesas de Irajá aos ensaios da Portela
Paulo Roberto da Costa nasceu em 31 de maio de 1948 no bairro de Irajá, Zona Norte da Guanabara e iniciou a relação com a música ainda na infância, com instrumentos improvisados dentro de casa. “O meu primeiro instrumento improvisado foi o tampo de madeira da mesa da minha casa”, conta. Não havia violão Gibson, piano de cauda, nem aulas no conservatório. Havia ritmo. E ritmo, Paulinho da Costa sempre teve de sobra.
Não demorou muito para que o menino da periferia carioca fosse parar na ala mirim da bateria da Portela, uma das escolas de samba mais tradicionais da Guanabara. “Ele começou a tocar ainda moleque, no terreiro da casa dele, e logo já estava na bateria mirim da Portela”, conta o jornalista Silvio Essinger, que escreveu sobre a trajetória do músico.
A experiência na escola de samba foi fundamental: ali, Paulinho aprendeu não apenas os ritmos tradicionais, mas a disciplina de tocar em grupo e a importância do “swing” que mais tarde encantaria os estúdios de Hollywood.
União Soviética: a missão improvável de um adolescente carioca
Aos 15 anos, Paulinho embarcou para uma aventura que poucos brasileiros da sua idade naqueles tempos podiam imaginar. Foi convidado a integrar uma trupe liderada pelos cantores Jorge Goulart e Nora Ney, duas figuras centrais da música brasileira da época, em uma turnê que percorreu a Europa e a então União Soviética.
A excursão, organizada pelo empresário Carlos Machado, levou o jovem percussionista para além da cortina de ferro, em plena Guerra Fria, apresentando o samba e a música brasileira ao público soviético.
O objetivo era promover a música brasileira como parte de uma política mais ampla de troca cultural, com foco em samba e repertório acessível a plateias internacionais que, na maioria dos casos, tinham pouco contato com o Brasil. Essas turnês eram parte de um circuito que, antes da explosão global da MPB nos anos seguintes, buscava inserir artistas brasileiros em festivais de música popular e programas culturais no exterior.

Sérgio Mendes bate à porta e muda tudo
No início dos anos 1970, o mineiro Sérgio Mendes havia conquistado o mercado norte-americano com a sonoridade do Brasil ’66, uma mistura de bossa nova, jazz e pop, reconheceu no percussionista carioca exatamente o tempero que sua banda precisava. Paulinho então deixou o Brasil para viver na Califórnia, onde construiu uma sólida carreira como percussionista, atuando em diferentes estilos musicais, como pop, R&B e jazz.
A decisão de ficar definitivamente foi facilitada por uma cadeia de apresentações que só acontece em Hollywood. Ele virou amigo do trompetista Dizzy Gillespie, que o apresentou ao mais bem-sucedido empresário da história do jazz, Norman Granz, o qual o apadrinhou e possibilitou que ele ficasse de vez nos Estados Unidos.
O maior percussionista do mundo, segundo um certo Michael Jackson
A frase atribuída ao Rei do Pop consta em diversas publicações especializadas. Entre seus trabalhos mais marcantes estão discos históricos como Off the Wall e Thriller. A afirmação, vinda de um artista de nível de exigência extraordinário, que trabalhava com os melhores músicos do planeta, é o tipo de elogio que dispensa qualquer adjetivo adicional.
Mas a colaboração entre Paulinho da Costa e Michael Jackson não começou em Thriller. O percussionista já havia trabalhado com o cantor anos antes, quando Jackson ainda gravava com seus irmãos no grupo The Jacksons. Foi no álbum Destiny, de 1978, que o músico brasileiro começou a deixar sua marca. 4A partir dali seu talento passou a ser requisitado em várias gravações do artista, acumulando participação em mais de 40 canções do Rei do Pop ao longo da carreira, como Off the Wall (1979), Thriller (1982), Bad (1987), Dangerous (1991) e Invincible (2001), além de tocar em We Are the World (1985).
Não era apenas uma participação ocasional: era uma parceria de décadas, construída no respeito mútuo entre dois perfeccionistas.

Ele participou mesmo de mais de seis mil faixas de 900 artistas?
Pois é, os números são impressionantes. Paulinho da Costa participou de mais de 6.000 gravações ao longo da carreira, colaborando com 972 artistas diferentes. Essas gravações renderam 161 indicações ao Grammy e 59 prêmios, além de 180 discos de ouro e platina. Entre os artistas com quem gravou, a lista é um verdadeiro who’s who do pop mundial.
Só para dar uma rápida ideia, ele tocou com Gloria Gaynor em I Will Survive, o überclássic da era disco; no adocicado (I’ve Had) The Time of My Life, trilha do filme Dirty Dancing; além de participar em trilhas sonoras de filmes como Flashdance, Footloose, Jurassic Park, Purple Rain e até do longa da série Southpark.
Além do pop e do R&B, Paulinho também gravou com nomes importantes do rock. Bandas como Red Hot Chili Peppers, Journey, Toto e The Offspring já contaram com sua percussão em discos marcantes.
Se ele é tão bom assim porque é tão pouco conhecido no Brasil?
O cenário começou a mudar esse mês com o lançamento na Netflix do documentário The Groove Under The Groove: Os Sons de Paulinho da Costa. O lançamento não foi por acaso: chegou poucas semanas antes da cerimônia da estrela, em maio. Um duplo reconhecimento para uma carreira de invisibilidade voluntária.
A produção do documentário foi longa. O diretor Oscar Rodrigues Alves revela que foram necessários 17 anos para concluir o projeto: “seis para convencer o Paulinho e 11 para fazer o filme”. O documentário mostra a trajetória de Paulinho e bastidores de gravações históricas das quais participou. Há também relatos inéditos sobre as colaborações do brasileiro com Michael Jackson, Madonna, Earth, Wind & Fire, entre outros; além de depoimentos de Quincy Jones, Bill Withers, Lalo Schifrin, George Benson, will.i.am, Carlinhos Brown, Ivete Sangalo, Zeca Pagodinho e Alcione.

Que história é essa de invisibilidade voluntária?
Para entender a carreira de Paulinho da Costa, é preciso entender o conceito de músico de sessão (session musician, em inglês). Trata-se de um instrumentista profissional contratado especificamente para gravar ou tocar ao vivo em projetos de outros artistas, sem crédito de autoria na música, sem holofotes, sem entrevistas em programas de tevê e, muitas vezes, sem sequer ser mencionado nas divulgações.
É um paradoxo cruel e fascinante ao mesmo tempo: quanto melhor o músico de sessão, mais ele tende ao apagamento voluntário. Seu trabalho é tornar a estrela principal mais brilhante e não competir com ela. Paulinho da Costa entendeu isso como filosofia de vida.
Apesar da dimensão da carreira, o percussionista afirma que nunca buscou reconhecimento público e que o sucesso mundial nunca foi uma meta. “Eu nunca fui atrás do sucesso.” Mais do que modéstia, isso revela um código de ética profissional raro: fazer o melhor trabalho possível e deixar que a música fale por si.
Ele vai mesmo ganhar uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood?
A cerimônia já tem até data marcada. No dia 13 de maio, Paulinho da Costa será o primeiro brasileiro nascido no país a ter o nome na Calçada da Fama de Hollywood. A distinção é importante: Carmen Miranda é a única outra figura diretamente ligada ao Brasil a receber esse reconhecimento. Ela ganhou uma estrela póstuma em 1960. Mas a artista, que nasceu em Portugal, se naturalizou brasileira ainda quando criança. Paulinho, portanto, quebra uma barreira de mais de seis décadas, e o faz como o primeiro brasileiro nato e vivo a conquistar a honraria.


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