O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) mudou o foco de sua pré-campanha à Presidência da República e passou a direcionar seus ataques ao senador Flávio Bolsonaro (PL), principal nome do campo bolsonarista na corrida ao Palácio do Planalto. Após iniciar sua movimentação eleitoral concentrando críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Caiado agora aposta em uma estratégia de disputa interna pela liderança da direita.
Segundo apuração do UOL, a mudança foi definida nas últimas semanas pela equipe de campanha e por aliados do ex-governador, que pretendem consolidá-lo como o candidato mais competitivo para enfrentar Lula em um eventual segundo turno. A estratégia ganhou força após Flávio Bolsonaro enfrentar desgastes políticos provocados por diferentes episódios, entre eles a divulgação de um áudio em que cobra dinheiro do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Nos bastidores, interlocutores de Caiado avaliam que o eleitorado bolsonarista mais fiel dificilmente migrará para outro candidato. O foco, portanto, é conquistar os votos da direita que não se identifica integralmente com o grupo liderado pela família Bolsonaro e que busca uma alternativa ao senador.
Críticas às urnas eletrônicas abriram nova ofensiva
A mudança de postura ficou evidente nesta semana, quando Caiado ironizou declarações de Flávio Bolsonaro sobre o sistema eletrônico de votação.
O senador do PL afirmou, de forma equivocada, que urnas eletrônicas utilizadas no Brasil teriam a mesma origem dos equipamentos produzidos pela empresa venezuelana Smartmatic.
Em resposta, Caiado publicou uma mensagem nas redes sociais criticando a condução do episódio.
“42 embaixadores numa sala: dava para vender soja, dava para abrir mercado para indústria, dava para atrair investimento. Escolheram falar de urna eletrônica!”
A manifestação reforçou o esforço da campanha em diferenciar o ex-governador do discurso adotado pelo principal adversário dentro da direita.
Eduardo Bolsonaro também virou alvo
Nos últimos dias, Caiado também elevou o tom contra o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), embora sem mencioná-lo diretamente.
Em uma publicação nas redes sociais, comparou o parlamentar ao personagem Pateta, da Disney.
“O da política brasileira tropeça nos Estados Unidos, e a queda pode custar caro ao Brasil”, escreveu, em referência às tensões envolvendo o aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
Em outra manifestação, fez uma crítica indireta ao fato de Eduardo possuir green card dos EUA.
Segundo Caiado, quem deveria ter acesso facilitado ao mercado dos Estados Unidos seria o produtor rural brasileiro.
“Quem realmente precisa conseguir o documento é o produtor brasileiro, para entrar no mercado americano sem pagar pedágio.”
Na sequência, completou:
“Não é turismo, é sobre autoridade moral pra governar!”
A mudança de estratégia também passou a aparecer em discursos durante compromissos públicos.
Após o anúncio das tarifas impostas por Trump, Caiado declarou que “Lula não tem capacidade para dialogar, e o outro candidato está preocupado com a eleição, não com o país”.
No dia seguinte, voltou a mirar Flávio Bolsonaro ao afirmar que quem prejudica a “campanha de Flávio é ele mesmo”.
Campanha aposta em pesquisas eleitorais
A estratégia da pré-campanha também é sustentada por levantamentos de intenção de voto.
Aliados do ex-governador citam pesquisa da Nexus segundo a qual um em cada três eleitores de Flávio Bolsonaro afirma votar no senador principalmente pela rejeição ao presidente Lula, indicando espaço para disputa desse eleitorado.
Outro levantamento mencionado pela equipe é o da Real Time Big Data, divulgado na última semana, que aponta Caiado numericamente à frente de Lula em um eventual segundo turno, com 44% contra 43%, embora dentro da margem de erro e, portanto, em situação de empate técnico.
Apesar desse cenário, os números do primeiro turno ainda são desfavoráveis ao ex-governador.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada em 15 de julho mostra Lula com 40% das intenções de voto, Flávio Bolsonaro com 28% e Caiado com 4%. Em outros levantamentos nacionais, o ex-governador também aparece distante da disputa pelas primeiras posições.
Bolsonaristas respondem aos ataques
As críticas de Caiado provocaram reação imediata de aliados da família Bolsonaro.
Após a declaração sobre o green card de Eduardo Bolsonaro, o ex-deputado respondeu pelas redes sociais questionando a relação do ex-governador com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
“Quem precisa [de green card] são os fazendeiros condenados no golpe da Disney, que o senhor não fala nada. É o preço que paga para participar dos coquetéis do STF e da elite de Brasília?”, disse Eduardo.
A deputada federal Julia Zanatta (PL-SC) também criticou a estratégia adotada pelo pré-candidato do PSD e questionou quando ele passaria a concentrar ataques contra o presidente Lula.
Relação com Bolsonaro acumula aproximações e divergências
Embora agora busque se diferenciar da família Bolsonaro, Caiado manteve proximidade política com o ex-presidente Jair Bolsonaro nos últimos anos.
Em 2022, declarou apoio à reeleição do então presidente no segundo turno das eleições presidenciais.
Também participou de manifestações em defesa da anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 e chegou a definir Bolsonaro como o “maior líder do país”.
Ao mesmo tempo, a relação entre os dois passou por momentos de desgaste.
Durante a pandemia da Covid-19, Caiado criticou a condução do governo federal na área da saúde. Nas eleições municipais de 2024, em Goiás, também participou de palanques diferentes dos apoiados por Bolsonaro.
Agora, com o avanço da corrida presidencial, o ex-governador aposta na polarização dentro do próprio campo conservador como forma de ampliar sua visibilidade nacional e consolidar sua candidatura como uma alternativa ao bolsonarismo tradicional.






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