O primeiro Dia das Mães da protética Aline Lubanco não foi celebrado em casa. Em vez de fotos, presentes e comemorações, a data precisou ser passada dentro de um hospital ao lado do filho Erick, que tinha apenas um ano de idade e enfrentava uma crise de bronquiolite.

Os sintomas começaram como um quadro que poderia ser confundido com um resfriado comum. Mas, em pouco tempo, a situação se agravou. A dificuldade para respirar passou a dominar a rotina da família e transformou noites inteiras em horas de vigilância e preocupação.

“Ele ficou com muita dificuldade para respirar, ficou agitado, com febre. Quando respirava, dava para ouvir um chiado no final. Eu não conseguia dormir. Toda mãe sabe como é isso. Se o seu filho não está conseguindo respirar, você não dorme”, relata.

A experiência transformou a forma como Aline encara sintomas respiratórios no filho | Crédito: Arquivo pessoal

Na manhã seguinte, a família procurou atendimento médico e recebeu o diagnóstico. Mesmo após iniciar o tratamento, o quadro exigia atenção constante. Pouco tempo depois, Erick enfrentou um segundo episódio da doença.

Hoje, aos cinco anos, ele faz acompanhamento para asma, principalmente durante os períodos mais frios do ano. A experiência transformou a forma como a família encara sintomas respiratórios aparentemente simples.

Dados da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro mostram que o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), principal causador da bronquiolite, continua circulando no estado. Até 4 de junho, foram registradas 7.042 internações e 424 mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no território fluminense.

Entre os casos associados ao VSR contabilizados em 2026, a maior parte ocorreu em crianças. Foram 287 registros na faixa de 1 a 4 anos, 215 entre bebês de 6 a 11 meses e 213 em menores de seis meses de idade, grupo considerado um dos mais vulneráveis às complicações da doença.

Na rede estadual, não há leitos pediátricos exclusivos para doenças respiratórias. Ainda assim, os indicadores assistenciais demonstram a demanda por atendimento infantil: até quarta-feira (3), a taxa de ocupação dos leitos de UTI pediátrica era de 85,2%, enquanto as enfermarias pediátricas registravam ocupação de 50,6%.

Quando um resfriado deixa de ser apenas um resfriado

A bronquiolite é uma das principais causas de atendimento e internação de bebês durante os meses de maior circulação de vírus respiratórios. A doença afeta principalmente crianças menores de dois anos, com maior impacto entre os bebês mais novos.

Segundo o infectologista pediátrico André Ricardo Araújo, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), a doença provoca inflamação nos bronquíolos, estruturas localizadas nos pulmões responsáveis pela passagem do ar.

“Causando dificuldade de respirar, febre, tosse e pode causar um chiado no peito”, lista o médico.

Embora diversos vírus possam provocar a doença, o principal responsável pelos casos é o VSR. O especialista explica que rinovírus e vírus parainfluenza também podem estar envolvidos.

“É uma doença de transmissão de pessoa a pessoa, então, ela vai adquirir por contato próximo com alguém que tenha a infecção em atividade ou vírus na via aérea. Dessa maneira, não devemos levar crianças que estejam resfriadas para ambientes que sejam de coletividade.”

André Ricardo Araújo, infectologista pediátrico

Os primeiros sintomas costumam ser semelhantes aos de uma gripe ou resfriado comum: coriza, tosse e, em alguns casos, febre. É justamente essa semelhança que pode dificultar a identificação precoce dos casos que exigem maior atenção.

O especialista reforça que uma crise de bronquiolite, por si só, não significa que a criança desenvolverá asma no futuro. No entanto, é possível que aconteça, como foi no caso do Erick.

“A asma requer, necessariamente, a repetição de eventos similares, não associados a infecções e que causam esse chiado no peito. Então, a criança, quando é bebê, pode ter nesses primeiros meses, ou nos primeiros anos, o que a gente chama de hiperreatividade brônquica. Seria uma condição inicial, mas que ainda não define asma. Só que, de fato, é uma possibilidade de, quando ela estiver maior, dois, três anos, favorecer a episódio da asma”, explica.

Os sinais de alerta que merecem atenção imediata

A pediatra Daniela Gerent, professora afiliada ao Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que a principal preocupação surge quando a criança começa a apresentar sinais de esforço respiratório. 

“O que chama a atenção do pediatra é quando o bebê começa a respirar com dificuldade. Então, dificuldade para mamar, começa a ficar irritado, a afundar a barriguinha, as costelinhas ficam aparecendo, uma respiração mais rápida que o normal… Isso principalmente em menores de seis meses, porque a evolução é muito rápida”, enumera.

Foram esses sinais que levaram a jornalista Brenda Siqueira, de 27 anos, correr com o filho Vicente, então com apenas três meses de vida, para o hospital. O episódio aconteceu entre março e abril de 2024, logo após o fim do verão.

“Eu acho que toda mãe, seja de primeira viagem, de segunda, de terceira, tem medo da criança pegar bronquiolite. E quanto mais novo, pior. O peito dele estava afundando muito para respirar. Afundava muito e a respiração estava muito descompassada. É uma cena que lembro perfeitamente.”

Brenda Siqueira, mãe

A mãe acredita que a rapidez na identificação dos sinais foi decisiva para evitar complicações. Segundo ela, o pediatra explicou que o quadro ainda estava no início, o que permitiu um tratamento mais breve e uma recuperação sem maiores intercorrências.

Brenda conta que o episódio de bronquiolite do filho a deixou mais alerta | Crédito: Arquivo pessoal

Daniela explica que a doença costuma apresentar uma piora importante entre o segundo e o terceiro dia de evolução. Por isso, a observação cuidadosa da criança durante esse período é fundamental. 

“Os erros mais comuns são esperar demais para procurar atendimento quando a criança está fazendo esforço para respirar, não procurar se não tem febre, por exemplo, mas tem cansaço respiratório, usar medicamentos por conta própria, especialmente xaropes para tosse, antibióticos sem indicação e receitas caseiras sem comprovação”.

Além dos sinais físicos, mudanças de comportamento também devem ser consideradas. Irritabilidade, sonolência excessiva, dificuldade para dormir, recusa alimentar e perda do interesse por brincadeiras podem indicar que a criança não está conseguindo respirar adequadamente. 

Alimentação pode indicar gravidade do quadro

Entre os indicadores mais importantes observados pelos pediatras está a alimentação. Isso acontece porque os bebês dependem da respiração pelo nariz para conseguir mamar adequadamente. 

“A alimentação é um dos melhores indicadores do estado geral da criança”, explica Daniela. “Quando o nariz está obstruído ou quando há dificuldade respiratória, ele precisa interromper a mamada várias vezes para conseguir respirar.” 

Na prática, isso significa que o bebê passa a mamar menos, se cansa mais rapidamente e pode apresentar risco aumentado de desidratação.

Bebês dependem da respiração pelo nariz para conseguir mamar adequadamente | Crédito: Reprodução / Canva

A especialista orienta que os responsáveis observem se a criança está ingerindo menos da metade do volume habitual das mamadas, se faz pausas frequentes para respirar durante a alimentação ou se há diminuição na quantidade de fraldas molhadas ao longo do dia. 

Quem corre mais risco 

Embora qualquer bebê possa desenvolver bronquiolite, algumas crianças apresentam maior risco de complicações.

“Temos crianças que são mais vulneráveis a ter esse tipo de doença e, com isso, quadros mais graves”, explica André Araújo.

Entre os grupos que exigem atenção especial estão os prematuros, crianças com doenças pulmonares pré-existentes, cardiopatias congênitas e outras condições que podem comprometer a capacidade respiratória. 

“Elas vão ter, naturalmente ali pela condição de base, uma possibilidade de evoluírem com casos mais graves. Internando, ficando em CTI, precisando de oxigênio, precisando de tubo para respirar”, ressalta.

Como prevenir a bronquiolite

A boa notícia é que grande parte das medidas de prevenção está relacionada a hábitos simples que podem ser incorporados à rotina das famílias.  

“Algumas dicas para esse período são, principalmente, manter os ambientes ventilados dentro do possível. Lavar as mãos também é uma medida muito importante e eficaz para evitar a transmissão desse vírus”, orienta Gislani Mateus, superintendente de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde do Rio. 

A pediatra, no entanto, não deixa de acrescentar:

“Evitar ficar beijando o bebê! Porque, geralmente, esses vírus são passados por gotículas respiratórias.”

Daniela Gerent, pediatra

Vacina e anticorpos ampliam proteção dos bebês

Nos últimos anos, novas ferramentas passaram a integrar a estratégia de proteção contra o Vírus Sincicial Respiratório.

“Desde dezembro, o SUS passou a contar com a vacina para as gestantes. Então, a partir de 28 semanas de gestação, a gestante deve fazer a sua vacinação que vai proteger o bebê que ainda está dentro da barriga, mas que também vai acompanhar essa proteção nos primeiros meses desse bebê”, destaca Gislani Mateus.

Além da vacinação materna, o Sistema Único de Saúde também disponibiliza o Nirsevimabe para grupos específicos.

“Crianças que nasceram prematuras, ou seja, que nasceram com menos 37 semanas de gestação, elas devem também tomar o nirsevimabe, que é uma proteção já pronta, não é uma vacina, é um anticorpo que já entrega para aquela criança a proteção contra esse vírus”, explica a representante da SMS.

O medicamento também é recomendado para crianças menores de dois anos com determinadas condições de saúde, como síndrome de Down, cardiopatias e doenças neurológicas.

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