Brasileiras denunciam golpe trabalhista em loja de calçados em Portugal: “Sensação de desamparo”

Moradora do Complexo do Alemão, no Rio, a carioca Carolina Marinho, e outras duas brasileiras foram vítimas de golpe por empresário

Moradora do Complexo do Alemão, no Rio, a carioca Carolina Marinho, de 37 anos, chegou a Portugal em setembro de 2024, cheia de expectativas. Ela escolheu o país europeu para realizar o sonho de cursar um doutorado em estudos literários na Universidade de Aveiro — desejo nutrido desde a infância graças à influência da mãe, professora e fundadora de uma pequena biblioteca comunitária em uma creche local há quase 40 anos.

Sem bolsa integral e enfrentando o alto custo de vida europeu, Carol, como é conhecida pelos amigos, decidiu trabalhar para complementar sua renda. Em março deste ano, conseguiu uma vaga na loja de calçados Datelli, no Retail Park de Aveiro, no Norte do país. Começou em regime de meio período e logo passou a trabalhar em tempo integral, recebendo o salário mínimo português de 870 euros (cerca de R$ 5.230).

O que ela não imaginava era que, apenas no segundo mês de trabalho, se tornaria vítima de um golpe. Como relatou ao portal português PÚBLICO Brasil, Carol e a colega Katherine Tavares, de 28 anos, chegaram à loja na manhã da quarta-feira (30) e se depararam com um cenário desolador: o local havia sido completamente esvaziado. Todo o estoque de mercadorias, prateleiras, balcões e até o carpete haviam sido retirados. Nos vidros, folhas de papel foram coladas para ocultar o interior vazio.

“Foi horrível a sensação de desamparo. Pelo meu contrato de quatro meses, tenho a receber quase 3 mil euros (cerca de R$ 18 mil)”, lamentou Carol. Katherine também não recebeu os valores devidos. Outra funcionária, Andréa Carneiro, de 55 anos, que havia pedido demissão semanas antes, tampouco recebeu seus direitos trabalhistas.

O proprietário da loja, Fernando Melo, desapareceu sem dar explicações. Ele não atendeu chamadas nem respondeu às mensagens enviadas pelas ex-funcionárias. Procurado pelo PÚBLICO Brasil, não se pronunciou.

A situação se tornou ainda mais simbólica por ter ocorrido na véspera do 1º de Maio, Dia do Trabalhador. “Estamos diante de um desrespeito sem tamanho”, declarou Katherine. “Jamais imaginei passar por algo assim”, completou Andréa, que trabalhou quase dois anos na Datelli.

Casos como o de Carol não são isolados: segundo dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), o número de brasileiros vivendo em Portugal ultrapassou 400 mil em 2024, e denúncias de abusos trabalhistas envolvendo imigrantes têm aumentado. Em 2023, a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) registrou mais de 2.500 denúncias formais relacionadas a violações de contratos, não pagamento de salários e condições degradantes de trabalho — muitas delas em setores com alta presença de trabalhadores estrangeiros, como comércio, hotelaria e construção civil.

Carol fez um boletim de ocorrência na Guarda Nacional Republicana (GNR) e está analisando procurar o Ministério Público do Trabalho para tentar obter um advogado gratuito, já que, ao contrário do Brasil, a Justiça do Trabalho é paga em Portugal.

De acordo com o PÚBLICO Brasil, relatório da GNR referente a 2023 aponta que os golpes contra trabalhadores vêm crescendo em Portugal, principalmente online. São oferecidas facilidades para os interessados em empregos, como salários acima de mercado, mas, para se candidatarem, é preciso pagar um valor antes, que é embolsado pelos golpistas. Esse mesmo alerta é feito pela Polícia de Segurança Pública (PSP). “A vítima responde com interesse ao anúncio do emprego, sendo-lhe solicitado um valor referente a despesas, nomeadamente emissão de visto de entrada no país ou de documentação pessoal”, destaca a PSP ao PÚBLICO Brasil.

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