Brasileira luta para repatriar filha de 6 anos que está com o pai no Líbano sob ataque

Nacima Jarouche voltou ao Brasil depois do divórcio e teme pela segurança da criança

A morte de brasileiros em território libanês e os novos ataques israelenses só aumentaram a angústia de Nacima Jarouche, que vive em São Paulo e espera, finalmente, conseguir a repatriação da filha Sirine de 6 anos, que ela não vê ao vivo desde março de 2022.

A criança está na casa dos avós paternos no Vale do Bekaa, leste do país árabe, exatamente uma das regiões atacadas pelo Exército de Israel nos últimos dias. Na sexta-feira passada, a mãe conseguiu falar com a filha por cerca de 20 minutos pela primeira vez desde que os bombardeios israelenses começaram, há uma semana.

— Meu coração foi a um milhão por hora (quando soube do ataque). As estradas estão sendo bombardeadas. Não tem mais voos comerciais. Eu preciso repatriar a minha filha — suplicou a nutricionista, que criticou a burocracia do ministério das Relações Exteriores ao afirmar que o cadastramento de brasileiros foi um pouco tardio e que os contatos para fazer a repatriação ainda não foram feitos.

A reportagem buscou o posicionamento do Itamaraty, mas até a publicação desta reportagem não teve resposta.

Na chamada de vídeo pelo celular, Nacima disse ter percebido que a filha parecia não estar entendendo bem o que realmente está acontecendo, apesar de os avós certamente estarem monitorando constantemente o noticiário.

— Mas a gente sabe que a criança também é uma “esponja”, absorve o que tá acontecendo no meio. Acredito que ela esteja ouvindo (o bombardeio), mas não sei se ela está entendendo até que ponto chegou a guerra — disse.

Conversa monitorada

Dia 19 foi o aniversário da pequena Sirine. Quando as duas se falam, a brasileira conta que a menina é sempre monitorada pelos avós. A vinda da criança para o Brasil é um assunto que Nacima tentou abordar na última conversa, mas a filha não se manifestava quando a mãe tocava no assunto.

— Ela não respondia, olhava muito ao redor dela, os avós. Aquela coisa: estou sendo monitorada — disse.

As conversas hoje em dia são semanais. Mesmo que a mãe insista, como ao longo da última semana, as ligações dela só estão sendo atendidas às sextas-feiras. Nacima conta que a filha manteve a concentração na conversa apenas nos primeiros 10 minutos.

— Daí ela perde o vínculo. Depois, de repente, caiu a ligação. Realmente é uma violência psicológica — lamentou.

Nacima nasceu no Brasil, mas tem descendência libanesa. O pai dela nasceu no Líbano e a mãe é filha de libaneses, mas também nasceu no Brasil. Em 2015, a nutricionista se casou com Khaled Salim Masri. Ele já a conhecia de vista por causa das viagens que a brasileira havia feito ao Líbano anteriormente, mas começou, mesmo, o contato direto com ela através do Facebook. Os dois se mudaram para o Líbano e tiveram Sirine. Viveram um casamento que, com o tempo, foi marcado por abusos, ameaças, agressões e até tentativas de assassinato, segundo a brasileira, que diz ter vivido em cárcere privado após o parto.

Acabou doente, deprimida, mas conseguiu se divorciar depois de um exaustivo processo legal que durou três meses. Ela contou que, legalmente, ficou com a guarda da filha perante a Justiça libanesa. Após conseguir sair de um relacionamento abusivo, a nutricionista planejava voltar ao Brasil. Mas, na véspera da viagem, o pai buscou a filha para passar o fim de semana com ele e não mais a devolveu à mãe. Nacima revelou que Khaled conseguiu colocar uma espécie de restrição de viagens em nome da filha nos aeroportos do país e planejava fazer o mesmo com o da brasileira, que decidiu, então, deixar o país, já que a medida protetiva que havia conseguido não era suficiente para deixá-la segura.

— Para eles isso é normal. Não existe sequestro, não existe cárcere. Medidas protetivas não funcionam lá. Não é como a Lei Maria da Penha aqui. Ele pode chegar, invadir… é olho por olho, dente por dente, literalmente — explicou.

Ainda de acordo com a brasileira, alguns libaneses costumam mandar-lhe informações sobre a filha.

— Os vizinhos falavam que ouviam a voz dela pedindo pela mãe, e a gente sabe que nenhuma criança está bem sem a mãe — comentou.

A sogra de Nacima, Alia Smidi, também é brasileira. Mora no país árabe com o marido, que é libanês. A relação entre sogra e nora não é amistosa há bastante tempo. A reportagem do GLOBO entrou em contato com Alia. Após ter confirmado que era mesmo o número de telefone dela, a avó da menina não respondeu se ela e a neta seriam repatriadas.

O pai da criança, Khaled, que a mãe prefere chamar apenas de “genitor” na entrevista, é bancário e também foi contactado pela reportagem, mas sequer visualizou a mensagem. A ex-esposa ainda espera que ele se sensibilize com a atual situação do Líbano e que a filha possa ser beneficiada com uma repatriação segura. Ainda de acordo com Nacima, a Justiça libanesa pode autorizar o repatriamento da filha, mesmo contrariando o pai.

— Se for preciso eu entrar no avião da FAB e ir lá buscá-la, eu estou disposta — disse ela.

Há quase 20 anos, o Líbano não vivia algo parecido com o que está acontecendo, um ataque com tal intensidade. O conflito chegou ao pior momento com o bombardeio ao quartel-general do Hezbollah, em Beirute, que resultou na morte do chefe do grupo libanês, Hassan Nasrallah, além de vários outros dirigentes.

Com informações de O Globo

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