Fátima Aparecida Pleti, uma vendedora de 63 anos condenada pelos ataques aos Três Poderes em Brasília no dia 8 de janeiro, fugiu para a Argentina e agora oferece auxílio a outros condenados e réus que desejam fugir para o país vizinho. Em conversas por aplicativos com militantes bolsonaristas, às quais o UOL teve acesso, Pleti fala em ajudar a fazer “travessia com segurança” na fronteira do Brasil com a Argentina. Ela alugou uma casa em La Plata, a 56 km de Buenos Aires, onde disponibiliza vagas em quartos por R$ 500 a R$ 600 ao mês por pessoa.
Pleti foi condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 17 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes. Em março, ela quebrou a tornozeleira eletrônica e fugiu para a Argentina. As fugas de réus e condenados pelo 8 de janeiro para a Argentina e Uruguai foram reveladas em maio pelo UOL, e o governo Lula está negociando com o governo Javier Milei a extradição dos foragidos.
Em uma visita à casa de Fátima em La Plata, a reportagem encontrou ao menos seis brasileiros condenados ou investigados por tentativa de golpe no Brasil morando no local. Fátima se identificou como Aparecida (seu segundo nome) e recusou-se a falar com a reportagem. Ela estava acompanhada de uma brasileira que se identificou apenas como Camila e afirmou ser estudante de medicina. Duas crianças brincavam na garagem.
Em conversas com militantes, Fátima destacou que é preciso levar dinheiro à Argentina para moradia e alimentação. Com a ajuda de amigos de Bauru (SP), ela fez contatos com argentinos e alugou a casa em La Plata para ajudar militantes. “Eu poderia estar pensando só em mim. Montei essa casa pensando em outros patriotas”, disse ela.
O advogado Mariel Marra, que defende condenados e réus pelos atos golpistas, afirmou que Fátima participou ativamente da organização dos ônibus para o 8 de janeiro e agora oferece ajuda para outras pessoas fugirem para a Argentina. “Essa ajuda era oferecer uma casa, um quarto, um abrigo para essas pessoas que estão fugindo para a Argentina. Naturalmente, esse abrigo não é oferecido de graça. É paga uma quantia”, disse Marra.
Segundo um integrante do grupo de Fátima, um taxista em Foz do Iguaçu (PR) é acionado para transportar foragidos até Puerto Iguazú (Argentina), cobrando R$ 130. O UOL foi à região de fronteira, mas não localizou o motorista.
Marra também relatou que o transporte e a hospedagem na Argentina de alguns fugitivos foram financiados por terceiros, embora ele não soubesse identificar quem são os financiadores. Fátima corroborou essa informação em conversas com envolvidos no 8 de janeiro, contando que chegou a Buenos Aires e foi para um albergue, onde havia vários fugitivos do Brasil hospedados. Ela disse que teve a estadia paga, mas não identificou quem arcou com os custos.
Fátima ajudou um empresário chamado William a organizar um ônibus saindo de Bauru (SP) para o ato de 8 de janeiro. Segundo ela, o empresário pagou as despesas do transporte. “Ele alugou um ônibus, queria alugar outro e me pediu para ajudar a encher o ônibus”, contou.
Fátima negou ter danificado patrimônio ou praticado outros crimes. “Não sou criminosa e não cometi nada de errado. Todos vão pagar, inclusive Alexandre de Moraes”, afirmou. Ela também relatou estar vendendo doces em La Plata para ajudar nas despesas e disse estar “vivendo um inferno” após deixar um marido doente no Brasil.
O advogado de Fátima, Hélio Ortiz Júnior, foi questionado sobre as ofertas de ajuda para travessia e hospedagem, mas se recusou a responder.
Mariel Marra disse que os militantes que decidiram ficar no Brasil para cumprirem suas penas ou fazerem acordos estão sendo pressionados a fugirem por quem já está na Argentina.
“Quem está na Argentina está tratando essas pessoas como se elas fossem fracas, covardes, por elas não fugirem como eles. O nível de pressão psicológica é absurdo, desumano, com quem decide ficar aqui porque tem família e filhos, que não quer fugir, que quer encarar as consequências por mais que discorde”, afirmou Marra.
Com informações do UOL.





