Imagem mostra tendas na orla marítima de Beirute onde se abrigam libaneses deslocados após bombardeios israelenses no sul do Líbano, informa a Folha de S. Paulo. O Líbano vive uma das maiores crises humanitárias recentes após uma escalada de ataques promovidos por Israel, que já provocaram o deslocamento de mais de 1 milhão de pessoas em poucas semanas. O volume representa cerca de 20% da população libanesa, um movimento abrupto que tem sobrecarregado cidades, serviços básicos e estruturas de acolhimento.
Para dimensionar o impacto, o deslocamento seria equivalente a 42 milhões de brasileiros sendo forçados a deixar suas casas em menos de um mês. Em um território significativamente menor e mais densamente povoado que o Brasil, o efeito da migração em massa tem sido imediato e visível em todas as regiões do país.
Escalada do conflito e deslocamento em massa
Os bombardeios se intensificaram no início de março, após o grupo Hezbollah lançar foguetes contra o norte de Israel, em meio à tensão envolvendo o Irã. A resposta israelense se concentrou principalmente no sul do Líbano, região que concentra bases do grupo e comunidades xiitas.
Diante dos ataques, milhares de famílias abandonaram suas casas às pressas. A maioria buscou refúgio na capital, Beirute, que rapidamente passou a operar além de sua capacidade. Embora os abrigos oficiais comportem cerca de 130 mil pessoas, o fluxo de deslocados superou amplamente esse limite.
A cidade enfrenta trânsito ainda mais intenso, falhas frequentes no fornecimento de energia e dificuldades no abastecimento de itens básicos, agravando o cenário de instabilidade.
Nem a capital oferece segurança
Mesmo em Beirute, os deslocados não encontram segurança plena. Ataques israelenses têm atingido principalmente o sul da capital, área associada à presença do Hezbollah, mas os bombardeios se espalham por diferentes regiões da cidade.
Um dos episódios mais recentes ocorreu na orla de Ramlet al-Baida, onde um ataque matou oito pessoas que viviam em barracas improvisadas. O episódio evidenciou a vulnerabilidade dos deslocados, mesmo fora das zonas de combate mais intensas.
A situação levou o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados a emitir um alerta. “O Líbano está diante de uma catástrofe humanitária”, afirmou a agência.
Sem perspectiva de retorno
Para quem deixou o sul do país, não há previsão de retorno. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, declarou que pretende manter uma ocupação militar na região como forma de criar uma “zona de amortecimento”.
Ele afirmou que os deslocados não poderão voltar até que haja garantias de segurança para Israel. Em linha semelhante, o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, defendeu que o país exerça “soberania” sobre áreas do sul libanês, sinalizando uma possível ocupação prolongada.
A destruição de pontes sobre o rio Litani, no sul, também dificulta qualquer tentativa de retorno e compromete o acesso de ajuda humanitária às áreas mais afetadas.
Impactos na saúde física e mental
Além dos mais de 1.260 mortos e 3.750 feridos, a crise tem efeitos profundos sobre a saúde mental da população. A brasileira Tatiane Francisco, coordenadora de saúde da Médicos sem Fronteiras, relata um quadro crescente de sofrimento psicológico entre os deslocados.
“Muitas pessoas vêm de vários deslocamentos, várias fugas, e não há perspectiva de quando tudo isso vai acabar. Isso vai agregando camadas de sofrimento, de desesperança”, diz Francisco. “Há um cansaço entre as pessoas, elas não têm um horizonte de quando terão paz. E ninguém deveria ter que se acostumar com a guerra.”
Segundo ela, muitos já haviam sido forçados a fugir em 2024, retornaram após um cessar-fogo parcial e agora enfrentam um novo ciclo de deslocamento. Há também casos de famílias que mudam repetidamente de local, acompanhando a expansão das áreas de risco.
Entre os sintomas mais comuns estão ansiedade, depressão e um estado constante de alerta provocado pelo som de bombas, aviões e drones. Crianças apresentam sinais de regressão, como voltar a urinar na cama, falar menos ou se tornar excessivamente dependentes dos pais. Em outros casos, surgem comportamentos agressivos.
A precariedade das condições de fuga também agrava a situação. Muitos deixaram suas casas durante a madrugada, levando apenas o essencial, e perderam o acesso a medicamentos de uso contínuo, como os destinados a diabete, hipertensão e transtornos psiquiátricos.
Crise prolongada
Com infraestrutura comprometida, deslocamento em massa e ausência de perspectiva de solução rápida, o Líbano enfrenta um cenário de crise prolongada. A combinação de violência, instabilidade e deslocamento contínuo mantém a população sob pressão constante, enquanto organismos internacionais alertam para a necessidade urgente de apoio humanitário.






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