Bolsonaro mudou discurso sobre os EUA e hoje aposta em aliança com Trump

Nos anos 1990 e 2000, Jair Bolsonaro e seus filhos criticavam a influência americana sobre a Amazônia; hoje defendem uma aliança política com os Estados Unidos

A relação da família Bolsonaro com os Estados Unidos passou por uma transformação profunda nas últimas três décadas. Se nos anos 1990 e no início dos anos 2000 Jair Bolsonaro e seus filhos adotavam um discurso de desconfiança em relação aos norte-americanos, especialmente sobre o interesse dos EUA na Amazônia, atualmente o grupo político se tornou um dos principais aliados do presidente Donald Trump na América Latina.

A mudança é apontada por cientistas políticos como resultado da evolução do bolsonarismo, que deixou um discurso nacionalista voltado às Forças Armadas para integrar um movimento internacional de direita conservadora liderado pelos Estados Unidos.

Desconfiança dos EUA

Durante sua trajetória como deputado federal, Jair Bolsonaro costumava afirmar que os Estados Unidos tinham interesse nas riquezas minerais da Amazônia e representavam uma ameaça à soberania brasileira.

Em discursos realizados na década de 1990, criticava a demarcação de terras indígenas e afirmava que havia uma “cobiça internacional” sobre a região amazônica. A defesa da soberania nacional era um dos principais temas de sua atuação parlamentar.

Os filhos seguiram a mesma linha. Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, afirmou que os Estados Unidos interferiam na soberania brasileira por meio da política indígena. Carlos Bolsonaro também criticava o que classificava como submissão do Brasil aos interesses americanos e defendia uma postura mais patriótica.

Mudança de posicionamento

A partir da década de 2010, o discurso começou a mudar. Especialistas afirmam que a transformação ocorreu quando Bolsonaro deixou de ser um deputado do baixo clero para se consolidar como uma liderança nacional da direita.

Nesse período, ele passou a se aproximar de grupos conservadores influenciados por pensadores como Olavo de Carvalho e por movimentos políticos que defendiam maior alinhamento entre o Brasil e os Estados Unidos.

Segundo cientistas políticos ouvidos pela reportagem original, ganhou força a ideia de que o Brasil integra uma cultura ocidental cristã que teria nos Estados Unidos sua principal liderança diante do avanço da esquerda no mundo.

Aproximação com Trump

O alinhamento tornou-se ainda mais evidente durante os governos de Jair Bolsonaro e Donald Trump.

Em 2019, durante o Fórum Econômico Mundial, Bolsonaro chegou a afirmar ao ex-vice-presidente americano Al Gore que gostaria de explorar as riquezas da Amazônia em parceria com os Estados Unidos.

Ao longo de seu mandato, a relação entre Bolsonaro e Trump tornou-se um dos pilares da política externa brasileira.

Nos últimos anos, os filhos do ex-presidente ampliaram essa aproximação. Eduardo Bolsonaro passou a viver nos Estados Unidos, enquanto Flávio Bolsonaro intensificou viagens ao país e manteve encontros com Donald Trump durante sua pré-campanha presidencial.

Nova estratégia internacional

Pesquisadores afirmam que o bolsonarismo passou a integrar uma rede internacional de movimentos conservadores inspirados no slogan “Make America Great Again” (MAGA).

Dentro dessa visão, os Estados Unidos ocupam posição central na defesa dos valores considerados tradicionais, enquanto governos de esquerda são vistos como adversários políticos e culturais.

Essa aproximação também ganhou um componente geopolítico diante da estratégia norte-americana de ampliar a disputa comercial e política com a China, tornando o Brasil um país estratégico na região.

Desafios políticos

A forte identificação com Donald Trump, no entanto, passou a representar um desafio para a estratégia eleitoral da família Bolsonaro.

A confirmação de novas tarifas sobre produtos brasileiros e o apoio manifestado por integrantes do bolsonarismo ao governo americano provocaram críticas de setores da indústria e da oposição.

Especialistas avaliam que a adoção de medidas consideradas prejudiciais à economia brasileira pode dificultar a tentativa de desvincular a imagem da família Bolsonaro dos impactos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos.

Apesar disso, a relação política com Trump continua sendo uma das principais marcas da atuação internacional do grupo e deve permanecer no centro do debate durante a campanha eleitoral de 2026.

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