Hudson Carvalho*
O TSE julgará o ex-presidente Jair Bolsonaro no dia 22 deste mês, por derramar notícias falsas e tentar desacreditar o sistema eleitoral brasileiro em reunião com embaixadores estrangeiros em julho do ano passado. As datas de 27 e 29 também estão reservadas para possíveis desdobramentos da audiência. Se algum ministro pedir vista do processo, em função dos prazos regimentais e das férias forenses em julho, a coisa pode se arrastar até o fim de setembro. Os otimistas, porém, acreditam que a sentença sairá agora em junho, apesar do ministro Nunes Marques compor o colegiado. Tenho minhas dúvidas.
Aparentemente, a quase totalidade dos agentes políticos atesta como certa a sanção da inelegibilidade de Bolsonaro por oito anos. A insurreição bolsonarista em 8 de janeiro, a “minuta do golpe” na casa do ex-ministro Anderson Torres e as inúmeras traquinagens – cartão de vacinação falso, joias da Arábia Saudita, trama de sedição militar armazenada no celular etc. – protagonizadas pelo valete do ex-presidente, o tenente-coronel Mauro Cid, robusteceram a ação contra Bolsonaro. E ainda há uma cascata de litígios pendentes, em várias instâncias judiciais, envolvendo o ex-presidente.
De fato, a condenação de inelegibilidade encontra-se no horizonte de Jair Bolsonaro. E, pelo que ele aprontou na Presidência da República, não deveria surpreender. Além das graves conspirações antidemocráticas, houve a delituosa pregação antivacina e a negligência na crise da pandemia da Covid, a tolerância e a cumplicidade com crimes ambientais, o afrontamento a instituições republicanas etc. Na verdade, não faltaram motivos para Bolsonaro ter enfrentado um processo de impeachment, contornado por um Congresso sedado pelo infeccioso “orçamento secreto”. Agora, as circunstâncias mudaram. A derrota eleitoral o vulnerabilizou.
Por muito menos, o ex-governador Garotinho tornou-se inelegível até 2029, pela compra de votos com a distribuição do “Chequinho Cidadão” em Campos. E, recentemente, Crivella teve o mandato de deputado federal cassado e foi igualmente punido com a inelegibilidade, por abuso de autoridade, ao criar a milícia “Guardiões de Crivella” com funcionários públicos, quando era prefeito do Rio. Crivella pode recorrer. Em suma, perto das transgressões de Bolsonaro as de Garotinho e de Crivella são placebos. Ao que tudo indica, ambos foram sentenciados pelo efeito Al Capone; o conjunto da obra. E há um nítido pêndulo nas unções judiciais, após a Vaza Jato. Marcelo Bretas e Deltan Dallagnol que o digam. E Sergio Moro agonia-se na fila. Como regra, ficar apartado do poder fragiliza para as contendas no Judiciário.
Diante da plausível inelegibilidade de Jair Bolsonaro, os bolsonaristas agarram-se na esperança de ele, com a estampa de injustamente vitimado, vir a se transformar em graúdo cabo eleitoral de aliados em pleitos futuros. É possível, contudo não necessariamente fatídico. Transferidores de votos configuram-se exceções. Em sua trajetória, Bolsonaro nunca se ostentou como líder político, tal Lula. Por circunstâncias excepcionais, convertera-se em expressivo líder popular – e ainda o é. Passou décadas na Câmara dos Deputados, amiudado como simples estafeta castrense. Jamais fizera parte de qualquer elite política no Congresso ou nos nove partidos que o abrigaram. Era um lobo solitário alheio ao ambiente político. Na Presidência da República, sequer conseguiu montar um partido próprio, exibindo a sua frondosa incompetência política. E acabou domesticado pelo Centrão, que ele antes condenava.
Aqui um parêntese. Centenas de bolsonaristas atribuíam os erros de Bolsonaro ao fato de ele ser mal assessorado. Não aparentava ser o caso. Complexado, ele nunca quis ser bem assessorado. Por suas limitações, incapaz de compreender contextos menos primários, Bolsonaro privilegiava o entorno de medíocres aduladores em detrimento de gente qualificada, a qual ele é alérgico. Esse hábito faz-se comum entre governantes, e não é de hoje. O regedor quer, essencialmente, plateia e aplausos e não se acercar de quem lhe diga certas verdades. Na extraordinária edição de “O Príncipe” comentada por Napoleão, o imperador observa: “Os bajuladores são necessários. Um príncipe precisa do incenso deles; mas não deve deixar-se desvanecer, e isso é difícil”. Maquiavel defende que “homens sábios” possam aconselhar o governante, com liberdade. Napoleão concorda, todavia ressalta: “Já é demais permiti-lo a dois ou três. Mesmo a estes, proibir que abram a boca a menos que sejam instados”. A história consagrou Napoleão como gênio militar.
Difícil prever por quanto tempo Bolsonaro se manterá como paredro popular e força eleitoral, depois de restrito pela inelegibilidade. Os pleitos vindouros, de 2024, caracterizam-se municipais, com agendas diversas, contextos próprios e menos ideológicos. Inelegível até 2031, ele teria nas eleições de 2032 o seu horizonte panglossiano. Isso se não for alcançado por penalidades adicionais e de outras naturezas. Acontece que as eleições de 2032 são municipais, para a escolha de prefeitos e vereadores. Para as eleições gerais de 2034, em que, hipoteticamente, ele poderia se habilitar novamente à Presidência da República, passar-se-iam 11 anos. Uma eternidade. E Bolsonaro estaria com 79 anos. Inexiste ilusão que possa alicerçar esse longo interregno.
Por pragmatismo, os profissionais operadores políticos tendem a abandonar Bolsonaro, pela falta de perspectiva de poder. Fora a parentela, ninguém esperará o ex-presidente atravessar o seu calvário. Trata-se da previsível natureza humana. Rei morto, rei posto. E os sinais prefulguram. Sob a batuta do latifundiário Arthur Lira, o Centrão busca terrenos no governo Lula. Em Brasília, trafega a máxima de que o “Centrão chora no enterro, leva até a cova, mas não pula dentro”. O pastor Silas Malafaia já reconhece no advogado Cristiano Zanin “um homem de família”. Os ministros bolsonaristas André Mendonça e Nunes Marques arregimentam simpatias para Zanin, indicado por Lula à vaga no STF, junto aos evangélicos. (Aliás, uma condenável escolha nada republicana de um presidente ao optar pelo seu próprio advogado pessoal). A obsequiosa PGR de Augusto Aras durante o governo Bolsonaro, já se anima a açular o ex-presidente. E a Justiça se sente à vontade para bloquear valores nas contas bancárias de Bolsonaro, pelo não uso de máscara no período da pandemia. O governador mineiro Romeu Zema sinaliza a intenção de se afastar do bolsonarismo. E não será inesperado se, em breve, Valdemar da Costa Neto e o PL desampararem Bolsonaro. C’est la vie!
Com o degredo eleitoral de Bolsonaro, pelo menos, até 2031, caberá as direitas construírem opções para os próximos escrutínios. Não será fácil. No momento, não há um nome natural. Bolsonaro também não era um nome natural. Agigantou-se casualmente. No Brasil, o acaso pesa imensamente nas corridas presidenciais. A rigor, desde a redemocratização, só Lula chegou à Presidência da República com percurso político compatível com o destino, e assim mesmo na quarta tentativa. Ademais, no mundo inteiro, a direita tem se expressado com potência onde se exibe radicalizada. Curiosamente, com as esquerdas se dá ao contrário; elas logram êxito na versão moderada. Aqui, os centros e as esquerdas similarmente não se acham em situações favorecidas. Lula é a única referência, por enquanto. Sem o espectro da ameaça que Bolsonaro irradia contra a democracia e as suas instituições, Lula perderá a condição de anteparo. Com Bolsonaro em cena e a latência da assombração de sua volta ao poder, alguns segmentos independentes não lulopetistas, estrategicamente, poupavam Lula. Agora, esses setores deverão se incorporar às barricadas oposicionistas e aumentar a vocalização no combate ao lulopetismo. Livre de Bolsonaro, o que convencionamos chamar de a grande imprensa assumirá a redentora missão de desbastar a estéril polarização do “nós contra eles”, do “eles contra nós”, de espanar o sentimento de Fla-Flu, incentivando alternativas para as eleições de 2026. Normalmente, a grande imprensa – cada vez menor em influência – não costuma ser bem-sucedida em seus propósitos políticos.
Parafraseando Mario de Andrade no livro “Macunaíma”, muita saúva, pouca saúde e reeleição, os males do Brasil são.
OBS: Se o ex-presidente Jair Bolsonaro escapar da inelegibilidade, revogam-se os parágrafos anteriores, exceto o último.
*Jornalista





