Biscoito recheado, carne de porco, margarina: estudo da USP lista alimentos que tiram minutos de vida a cada porção

Pesquisa avaliou mais de mil itens consumidos no país e mostra que ultraprocessados podem reduzir a vida, enquanto frutas e leguminosas promovem ganhos

Um estudo conduzido por nutricionistas da Universidade de São Paulo (USP) revela que escolhas alimentares comuns entre os brasileiros podem afetar significativamente a expectativa de vida saudável. A pesquisa, publicada nesta sexta-feira (9) no International Journal of Environmental Research and Public Health, avaliou 1.141 alimentos e mediu, por meio do Índice Nutricional da Saúde (Heni), o tempo de vida perdido ou ganho por porção consumida.

Segundo os pesquisadores, o valor médio dos alimentos mais consumidos no país foi de -5,89 minutos de vida saudável por porção. Itens como biscoitos recheados, carne suína e margarina estão entre os que mais impactam negativamente a saúde, enquanto alimentos como peixes, banana e feijão foram associados a ganhos de minutos de vida.

O estudo também cruzou dados nutricionais com indicadores ambientais, como emissão de gases de efeito estufa e uso de água, integrando as esferas da saúde humana e da sustentabilidade.

Ultraprocessados são os mais prejudiciais

Os resultados apontam que os alimentos ultraprocessados lideram a perda de vida saudável. Os biscoitos recheados, por exemplo, resultaram em -39,69 minutos por porção, seguidos por carne suína (-36,09 minutos), margarina (-24,76 minutos) e carne bovina (-21,86 minutos). A média dos sete ultraprocessados mais presentes na dieta brasileira ficou em -16,61 minutos, o que confirma os riscos do consumo frequente desses produtos.

Além do impacto direto na saúde, esses alimentos também apresentaram alto custo ambiental. A carne bovina, por exemplo, gera até 21,3 kg de CO₂ equivalente por porção, enquanto a produção de pizza de muçarela consome mais de 300 litros de água por porção.

Peixe, banana e feijão ganham destaque positivo

Em contrapartida, alimentos in natura e minimamente processados mostraram efeito inverso. O consumo de peixe de água doce adiciona, em média, 17,22 minutos de vida saudável por porção. A banana oferece ganho de 8,08 minutos, e o feijão, alimento tradicional da culinária brasileira, acrescenta 6,53 minutos.

Esses itens também se destacaram por seu menor impacto ambiental, especialmente o feijão, que combina benefícios nutricionais com baixa emissão de carbono e menor demanda hídrica.

Alimentos mais consumidos e seus impactos

A análise identificou 33 alimentos responsáveis por cerca de 68,68% da ingestão calórica da população brasileira. Quase 40% deles são in natura, como arroz, feijão, carne e frutas. Entre os cinco itens mais consumidos, todos são alimentos não industrializados: arroz, carne bovina, feijão, frango e carne suína.

Veja alguns exemplos e seus impactos estimados por porção:

  • Arroz: -1 minuto.
  • Banana: +8 minutos.
  • Biscoito doce: -16 minutos.
  • Biscoito recheado: -39 minutos.
  • Biscoito salgado: -19 minutos.
  • Bolo simples: -5 minutos.
  • Carne vermelha: -21 minutos.
  • Carne de porco: -36 minutos.
  • Cuscuz: -1 minuto.
  • Feijão: +6 minutos.
  • Frango: -3 minutos.
  • Macarrão: -3 minutos.
  • Mandioca: -1 minuto.
  • Margarina: -24 minutos.
  • Ovos: -2 minutos.
  • Pão com queijo: -11 minutos.
  • Pão francês: -6 minutos.
  • Peixe fresco: +17 minutos.
  • Pizza de muçarela: -9 minutos.

Impactos ambientais também pesam nas escolhas

O levantamento também evidencia que o padrão alimentar atual do país tem custo elevado para o meio ambiente. Alimentos de origem animal, especialmente carnes, lideram em emissão de gases de efeito estufa e no uso de recursos hídricos.

A produção de carne suína e bovina, por exemplo, além de afetar negativamente a saúde, agrava a pegada ecológica da dieta brasileira. Por outro lado, vegetais, frutas e leguminosas — como o feijão — surgem como opções mais sustentáveis e saudáveis.

Evidência para políticas públicas

Os autores do estudo argumentam que os resultados podem ajudar a embasar políticas alimentares mais integradas, que considerem simultaneamente saúde pública, sustentabilidade e cultura alimentar. “Essas descobertas reforçam a necessidade de diretrizes alimentares que considerem a sustentabilidade e a realidade regional”, destaca o relatório.

Para os pesquisadores, o diferencial do estudo está em traduzir o impacto alimentar em minutos de vida, aproximando os efeitos da dieta da percepção cotidiana. “Ao saber que um biscoito recheado reduz a expectativa de vida em quase 40 minutos e que um peixe pode acrescentar mais de 17, o consumidor passa a ter um parâmetro tangível para suas decisões”, afirmam.

O estudo reforça a importância de escolhas alimentares conscientes, tanto do ponto de vista da saúde quanto da preservação ambiental, num país onde as doenças crônicas associadas à má alimentação continuam em ascensão.

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