Ela começou a existir no papel em 1661, pelas mãos de João Teixeira Albernaz, membro de uma prestigiada dinastia de cartógrafos. Foi ali, entre rios com nomes indígenas e terras alagadiças, que a história de Belford Roxo começou. O enredo logo ganhou drama, com franceses expulsos da Guanabara a pontapés, governador distribuindo sesmarias e um valente capitão fundador de um engenho que jamais imaginaria virar “embrião urbano”.

Santo Antônio de Jacutinga, que já foi símbolo da riqueza rural, mais tarde se esfarelou em nobreza falida, pântanos e herdeiros de um governador controverso que mantiveram boa parte de suas terras por dois séculos. E foi dessa mistura de açúcar, lama, febre amarela e teimosia que nasceu o que seria o coração da Baixada Fluminense.

Mas essa história não parou no século XVIII, ganhou novos personagens. A Fazenda do Brejo virou ponto de embarque de arroz, milho e aguardente, até que epidemias e abandono a transformaram em ruína digna de cenário de videogame.

Depois veio o “Milagre das Águas”, com um engenheiro maranhense de nome composto demais para caber em poste eleitoral, o trem salvador de 1883, a Bayer aterrissando em 1958 e a cidade crescendo célere e desordenadamente. Hoje, Belford Roxo é esse mosaico curioso de passado pantanoso, indústria, cultura, memória e lagoa avermelhada. Nada mal para um lugar que começou… literalmente atolado.

Fachada da Casa da Cultura de Belford Roxo | Crédito: Jean Lucas / Reprodução

História

A cidade foi mapeada pela primeira vez em 1661 por João Teixeira Albernaz, pertencente a uma tradicional família de cartógrafos cuja atividade se estendeu desde meados do século XVI até ao fim do século XVIII. Em seu mapa, ele já indicava os rios Merith, Simpuiy e Agoassu, os atuais Meriti, Sarapuí e Iguaçu.

Após mais uma expulsão de franceses da Guanabara, o governador Cristóvão de Barros concedeu uma sesmaria às margens do Rio Sarapuí, onde o capitão Belchior de Azeredo fundou o engenho chamado Santo Antônio de Jacutinga. Esse engenho seria o embrião de tudo o que viria a se tornar a Baixada Fluminense central, inclusive Belford Roxo.

Nas décadas seguintes o engenho foi desmembrado. Uma boa parte dessas terras pertenceram ao governador Salvador Correia de Sá e Benevides, o mesmo da Revolta da Cachaça, que quis aumentar os impostos sobre a Marvada e quase perdeu a cabeça

Por mais de duzentos anos, a propriedade manteve-se, por sucessão hereditária, sob o controle dos herdeiros de Salvador Correia de Sá e Benevides, a família Correia Vasques.

Mas foi outra propriedade, chamada Fazenda do Brejo, assim batizada por sua condição de brejos, pântanos e manguezais s às margens do rio, que se tornou o núcleo de povoamento, com porto para escoamento de açúcar, arroz, milho e aguardente.  

O que foi exatamente a Fazenda do Brejo?

No século XVIII ela foi ocupada por famílias nobres como a dos Caldeira Brant (Visconde/Conde de Iguaçu). Mas além do declínio da economia açucareira, a situação foi agravada por epidemias de febre amarela e malária que devastaram a Baixada. O ambiente pantanoso era ideal para mosquitos, e os engenhos entraram em decadência. 

Infelizmente, o que restou da antiga Fazenda do Brejo, berço histórico de Belford Roxo, é hoje um retrato melancólico de seu passado colonial: ruínas de muros, estruturas abandonadas, vegetação tomando todo o lugar como em um cenário de Lara Croft.

Hoje, há quem lute pela memória: pesquisadores propõem que as ruínas sejam tombadas ou transformadas em um espaço de memória e cultura, para preservar a história da Baixada e evitar que o passado seja tragado pela inclemência do tempo. 

Ruínas da Fazenda do Brejo se tornaram alvo de disputa de pesquisadores | Crédito: Reprodução

O que foi o “Milagre das Águas” de 1888 e qual sua relação com Belford Roxo?

Em 1881 uma seca daquelas brabas arrasou a Guanabara e a Baixada Fluminense. Num tempo em que a Corte se vestia à inglesa, em fatiotas do mais puro veludo (!) o Rio 40º gerou protestos e até passeatas. Até que Dom Pedro II precisou agir.

Sua majestade encampou a proposta de um engenheiro chamado Paulo de Frontin que se comprometeu a captar 15.000.000 de litros de água para a corte em apenas seis dias. Ele conseguiu realizar o feito e o episódio ficou conhecido como “Milagre das Águas”.

Mas onde Belford Roxo entra nessa história?

O Inspetor Geral de Obras

Raimundo Teixeira Belfort Roxo nasceu no Maranhão em 1838 e faleceu na Guanabara em 1896. Formado em Ciências Físicas e Matemáticas, estudou engenharia em Londres, Paris e foi chamado pelo amigo Paulo de Frontin para ser um de seus auxiliares mais importantes no desafio.

Em seu papel como Inspetor-Geral de Obras Públicas do Rio de Janeiro, atuou diretamente no “Milagre das Águas”, garantindo o abastecimento durante a seca de 1888.

Como reconhecimento por esse serviço vital, a antiga Fazenda do Brejo passou a carregar seu nome. E no século XX a nova cidade que ali se formou manteve o nome. Uma homenagem não apenas ao engenheiro; mas também, de certo modo, ao legado material e simbólico de sua obra. De brejo esquecido a uma força da Baixada.

Qual a história e a importância da chegada do trem a Belford Roxo?

Em 1883, o momento em que os trilhos chegaram ao “velho brejo” foi literalmente um divisor de águas. A ferrovia Estrada de Ferro Rio d’Ouro cruzou a região, abrindo a estação que mais tarde teria o mesmo nome da cidade do diligente inspetor.

Com o trem, o que era fazenda ou pântano passou a ser parada. A ferrovia trouxe mobilidade, comércio e um novo tipo de ocupação. Em torno da estação formou-se um núcleo de povoamento com novas casas, comércios e deslocamento de pessoas, marcando o início da transição rural e plantando a semente da cidade moderna.

Hoje a estação, embora reduzida, é terminal da linha de trem suburbano, servindo de porta de entrada para quem chega de trem à cidade.

O que é a Lagoa do Barro Vermelho? 

É um espelho d’água natural, famoso pela coloração avermelhada do solo, que acabou dando nome ao bairro. A lagoa é usada por moradores para lazer, como pescarias de tilápia e acará. 

Nos últimos anos, a lagoa vem sendo alvo de projetos de revitalização: há planos para ampliar a Área de Proteção Ambiental que a envolve, instalar pista de caminhada, quiosques, academia ao ar livre e melhorar o entorno.

Apesar dos planos, a lagoa simboliza o contraste entre passado natural e presente urbano: é parte da memória hídrica da região, mas depende da vontade pública e comunitária para recuperar sua conexão com a Baixada original.

Lagoa do Barro Vermelho virou ponto de lazer de moradores | Crédito: Reprodução

Por que a implantação da fábrica da Bayer foi tão importante para a cidade?

Com a chegada da Bayer em 1958, o processo de industrialização marca a transição definitiva de Belford Roxo de território de fazendas e engenhos para polo industrial e dormitório da metrópole. 

O fato foi noticiado pelas revistas e jornais da época como um acontecimento de grande relevância não somente para o âmbito local e, sim de uma grande importância nacional para a indústria brasileira. 

A Bayer trouxe empregos e ao mesmo tempo migração e loteamentos desorganizados. Antigas fazendas e brejos viraram bairros densamente povoados. No fim das contas o legado é ambíguo. Junto com o progresso, veio o apagamento de uma parte da memória histórica. Sobram ruínas, rios degradados e uma natureza quase apagada.

Fábrica da Bayer, em Belford Roxo: legado ambíguo para a cidade | Crédito: Reprodução

O que mais tem para fazer por lá?

Belford Roxo não é só asfalto e indústria. Próximo ao centro é possível desfrutar de diversas atrações, como o Centro Cultural Donana, que promove oficinas, debates, palestras e apresentações, além da Casa Municipal da Cultura, que também é palco de apresentações artísticas.

Quem procura uma opção de lazer histórico-cultural não pode deixar de conhecer as ruínas da Fazenda do Brejo, e a Fazenda Boa Esperança, antiga produtora de laranja e café para exportação, que possui boa parte dos imóveis da época preservados.

Está em andamento um projeto ambicioso com ambas as fazendas, transformando-as em uma grande Área de Proteção Ambiental (APA) além de um corredor verde, interligando os ambientes por meio de trilhas. Se concluído, será uma das primeiras APAs municipais da Baixada, unindo preservação ambiental e patrimônio histórico.

O município conta também com o renomado Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), que está localizado no bairro de Santa Tereza, possuindo um grande acervo arqueológico do município. O local está disponível para visitação, além de oferecer à população cursos em arqueologias, exposições, palestras e curadoria arqueológica, entre outros serviços.

Instituto de Arqueologia Brasileira oferece cursos, exposições, palestras e outros serviços à população | Crédito: Reprodução

Como chegar?

Partindo de carro do Centro da Guanabara, Belford Roxo fica a um pulinho de menos de meia hora. De trem, basta pegar o ramal Belford Roxo da SuperVia.

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