A investigação que levou a Polícia Federal a deflagrar a Operação Miragem nesta terça-feira (23) revelou um dos principais pontos sob suspeita na gestão do Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, informa reportagem do portal UOL. Segundo documentos produzidos pelo Banco Central e incorporados ao inquérito conduzido pela PF, diretores do banco teriam promovido uma valorização artificial de ativos que elevou em cerca de R$ 670 milhões os registros contábeis da instituição.
As conclusões constam de um processo interno de supervisão bancária encaminhado pelo Banco Central ao Ministério Público Federal (MPF) e posteriormente anexado à investigação criminal. O material aponta que o Digimais teria adotado práticas semelhantes às atribuídas ao extinto Banco Master, utilizando reavaliações consideradas artificiais para melhorar sua situação patrimonial perante órgãos reguladores e o mercado.
A Polícia Federal sustenta que o modelo empregado pelo Digimais reproduziu estratégias utilizadas por instituições financeiras em dificuldades de liquidez, com o objetivo de apresentar uma situação financeira mais robusta do que a realidade.
“Neste cenário de contágio no mercado, o modelo operativo adotado pelo Banco Master funcionou como paradigma para outras instituições financeiras de médio porte que enfrentavam crises de liquidez, consubstanciando o modus operandi atualmente sob investigação no Banco Digimais”, diz a PF.
Os investigadores afirmam ainda que a diretoria da instituição financeira teria utilizado mecanismos de valorização excessiva de ativos para mascarar a deterioração de sua carteira de crédito.
“replicou a prática de superavaliar ativos mediante a emissão de títulos com rentabilidades desproporcionais aos indicadores de mercado, efetuando manipulações nos balanços com o objetivo de ocultar dos órgãos de controle a deterioração da sua carteira de crédito.”
Créditos judiciais estão no centro da investigação
De acordo com o relatório do Banco Central, a operação investigada teve origem em direitos creditórios ligados a uma antiga ação judicial movida por herdeiros da família Villela contra a União. O processo remonta a 1967 e gerou créditos que passaram a ser negociados por meio de fundos de investimento.
As apurações mostram que uma parcela desses créditos foi adquirida em fevereiro de 2023 pelo fundo ID112 FIDC-NP por aproximadamente R$ 9 milhões. Posteriormente, os ativos foram transferidos para o Fundo Guidare e passaram por uma reavaliação que elevou seu valor para cerca de R$ 100 milhões, com base em pareceres jurídicos.
Meses depois, uma nova operação semelhante foi realizada. Outra fatia dos créditos foi comprada por cerca de R$ 22 milhões e posteriormente reavaliada para aproximadamente R$ 130 milhões.
Segundo o Banco Central, ativos adquiridos por cerca de R$ 31 milhões passaram a constar nos registros contábeis por aproximadamente R$ 230 milhões.
A diferença decorrente dessa valorização foi registrada como receita da instituição.
Valorização chegou a mais de R$ 740 milhões
O relatório aponta que a estratégia foi ampliada em setembro de 2023, quando o fundo Hermon FIDC-NP, cujas cotas pertenciam ao Digimais, adquiriu novas parcelas dos créditos ligados à família Villela.
Cada uma dessas frações teria sido comprada por R$ 20 milhões e posteriormente reavaliada para R$ 174,6 milhões.
Somadas as operações, ativos adquiridos por aproximadamente R$ 71 milhões passaram a figurar nos balanços do banco por R$ 741,3 milhões.
A diferença identificada pelo Banco Central alcançou R$ 670,3 milhões.
Para os órgãos de fiscalização, a valorização não refletia a realidade econômica dos ativos e produziu um impacto relevante na demonstração financeira da instituição.
Advertência do Banco Central
Após detectar as inconsistências, o Banco Central determinou que o Digimais corrigisse os registros contábeis.
Em outubro de 2023, a autoridade monetária lavrou um termo de comparecimento, instrumento utilizado para registrar irregularidades e exigir providências por parte das instituições supervisionadas.
A determinação previa que o banco revertesse as reavaliações e passasse a contabilizar os ativos pelos valores efetivamente pagos em sua aquisição.
Segundo os documentos da investigação, a instituição solicitou que os efeitos contábeis da correção fossem diluídos ao longo de cinco anos.
No entanto, de acordo com o Banco Central, outra estratégia acabou sendo adotada posteriormente.
Venda à controladora é alvo de questionamentos
Os investigadores apontam que, em dezembro de 2025, o Digimais transferiu as cotas do fundo Hermon para sua própria controladora, a B.A. Empreendimentos e Participações.
A operação foi realizada pelo valor integral de R$ 741,3 milhões.
Entretanto, segundo a fiscalização, nenhum recurso ingressou efetivamente no caixa do banco no momento da transação.
O pagamento foi previsto para ocorrer apenas em 2032, com correção pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acrescida de 0,5% ao ano.
Após a operação, o banco reverteu provisões anteriormente determinadas pelo Banco Central.
Na avaliação dos fiscais, a medida teve o efeito de manter nos balanços os mesmos valores considerados artificialmente inflados, agora registrados como créditos a receber da própria controladora.
Para o Banco Central, a manobra teve como consequência neutralizar os efeitos da determinação anterior de correção.
Operação Miragem
As suspeitas relacionadas à gestão do Digimais deram origem à Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal nesta terça-feira.
A ação cumpriu nove mandados de busca e apreensão autorizados pela Justiça Federal e teve como base informações produzidas pelo Banco Central e pelo Ministério Público Federal.
Além das buscas, a Justiça autorizou o afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados e o bloqueio de bens e valores que podem chegar a R$ 670,3 milhões — montante que corresponde justamente à diferença identificada pelos órgãos de fiscalização.
As investigações apuram possíveis crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, incluindo gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e operações financeiras consideradas irregulares.





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