Era um domingo, 17 de novembro de 1974, no Horto Florestal, e a cena beirava a mais completa insanidade: quatro Volkswagen 1600 pintados de preto e branco se preparavam para um clássico contra quatro Gordinis tricolores. Em disputa o título do Campeonato Carioca de Autobol. Em campo, não se via craques com chuteiras, mas sim pilotos de jaleco e capacete, muitos deles corretores da bolsa, médicos e diretores de televisão, prontos para se abalroar com tudo um no outro, numa espécie de bate-bate de adultos, atrás de uma bola de 1,20 metro de diâmetro. 

As portas dos carros estavam soldadas, os vidros arrancados, e o regulamento era um dos mais lacônicos do esporte mundial. Apenas dois parágrafos. Isso mesmo, dois: não pode usar a ré e não pode bater em quem não está com a bola. O Botafogo saiu vencedor por 3 a 1, levantando uma taça que seus torcedores de futebol de verdade não veriam naquela década. 

Um dos “clássicos” entre Botafogo e Fluminense (Crédito: Reprodução)

Criado pelo médico Mário Marques Tourinho no início da década de 1970, o Autobol foi uma febre fulminante. Durante cerca de cinco anos, clubes como Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo e América deixaram seus gramados tradicionais para dar lugar a esses carros reforçados, transformando a mais absoluta violência do trânsito em um “esporte” organizado, que chegou a ter bilheterias esgotadas, cobertura da imprensa internacional e uma legião de fãs. Até ser tragicamente atropelado pelo bom senso e pela crise mundial do petróleo, não necessariamente nessa ordem.

O que era o Autobol? 

O Autobol era exatamente o que o nome sugere, um esporte que deveria unir duas paixões nacionais: o futebol e o automobilismo. Ele é uma versão brasileira de uma, digamos assim, modalidade esportiva que surgiu na Inglaterra do Pós-Guerra, mas por lá nunca prosperou. Basicamente porque lá talvez não tenha tanto maluco e as regras eram bastante diferentes, e severas, do que depois veio a ser praticado por aqui. 

Basicamente as partidas eram disputadas em campos de terra batida ou saibro com as mesmas dimensões de um gramado de futebol oficial, por equipes que variavam de três a seis carros por lado. A bola, por sua vez, era um monstro: um balão de couro de búfalo com câmara de ar de borracha, medindo 1,20 metro de diâmetro e pesando 12 quilos. Cada partida durava 70 minutos, divididos em dois tempos de 35.  

Os gols eram marcados nas traves tradicionais de 7,32m por 2,44m. Para muitos, a melhor definição do autobol veio da revista americana Time, que, em uma reportagem de 1974, chamou-o de “motorized madness“, ou seja, loucura motorizada. 

Como isso chegou ao Brasil
 
A versão brasileira nasceu de uma confluência improvável entre uma bola que quase matou um cavalo e um médico traumatologista com ideias perigosas. A ideia chegou ao país nos últimos anos da década de 1960, quando a fábrica de bolas de futebol Drible fez uma bola de couro de búfalo de 1,20m de diâmetro e 12kg de peso, para comemorar um jogo da seleção brasileira.  

Era uma peça comemorativa, sem nenhuma função esportiva definida, apenas uma bola gigante esperando alguém inventar o que fazer com ela. 

Ela ficaria guardada na fábrica até 1970, quando um grupo de Taubaté a pediu emprestada para um esporte singular: futebol de cavalos. Teria sido um “sucesso”.  O estádio local estava lotado. Mas a imensa bola assustava os animais, e um deles saiu da disputa com uma das patas quebradas. Encerrado o experimento equestre, a bola voltou a ficar sem utilidade. 

O terroir de Copacabana  

Sem ter a menor ideia do que fazer com aquele trambolho, a Drible doou a bola gigante para o produtor de televisão José Maria Adami que a trouxe para o Rio. Na Guanabara, o então diretor médico do América Mário Tourinho já vinha conversando com amigos sobre a possibilidade de criar um futebol de automóveis.  

Tourinho dizia que a ideia surgiu quando ele dirigia na Avenida Atlântica, em Copacabana, e uma bola escapada de uma “pelada” na praia veio na direção de seu carro. Para espanto geral, Tourinho arremeteu o veículo de encontro à bola, que voltou diretamente para as mãos dos rapazes na areia. Orgulhoso com seu “chute” perfeito, o médico decidiu elevar o nível da brincadeira.  Imagine algo assim hoje em dia…

Capotagens espetaculares levavam os espectadores ao delírio (Crédito: Reprodução)

A diferença do Autobol inglês para o brasileiro 

É aqui que está o pulo do gato. O “esporte” não prosperou no Reino Unido porque havia muitas regras. Cada carro tinha sua pista, de onde não podia sair. A bola corria no meio, e o motorista tinha que mantê-la em sua faixa do campo. Se a bola passasse para a pista do lado, era a vez de o veículo rival tentar dominá-la para atacar. Era, em essência, um esporte feito por britânicos: cheio de regulamentos, comportado e que, por isso mesmo, jamais emplacou. Nem na Inglaterra.

Já na versão carioca, criada por Mário Tourinho, não havia pistas demarcadas. E eram só dois parágrafos de regras. Isso mesmo: dois.  Os veículos circulavam livremente por todo o campo e podiam se chocar deliberadamente para tomar a posse da bola. Essa violência surreal foi justamente o que transformou o “esporte” num sucesso de público e o que o tornou notícia no mundo inteiro, com direito a cobertura nos jornais e na TV. 

Até mesmo emissoras estrangeiras, como a britânica BBC e a americana CBS vieram ao Rio para filmar e produzir reportagens sobre a tal modalidade. A revista Time, ao cobrir uma partida, descreveu que o árbitro, um senhor chamado Laerte Chaves, ficava a pé no meio do campo, apitando regras que quase nunca eram respeitadas, e certa vez perdeu vários dentes ao ser atingido pela tal bola de 12 quilos.

O Autobol era uma espécie de bate-bate de adultos (Crédito: Reprodução)

Um intervalo que roubou o show 

A primeira exibição pública do Autobol não foi um jogo completo, mas uma demonstração durante o intervalo de uma partida do Campeonato Carioca de 1970, entre Vasco e Portuguesa, no estádio da Ilha do Governador.  

O próprio inventor da novidade, Mário Tourinho, foi a campo dirigindo seu velho Hillman, dando voltas no gramado e dominando a bola gigante em meio à perplexidade dos torcedores. Dizem que o jogo em si foi tão monótono que os jornais do dia seguinte deram mais destaque à “loucura motorizada” do médico do que ao resultado da partida oficial. A partir dali animado com a repercussão, Tourinho comprou 11 carros velhos, convidou amigos e realizou quatro partidas só naquele mesmo ano. 

Em 1971 o sucesso já era tal que a Prefeitura de Vitória convidou os times para uma exibição na cidade, capital do Espírito Santo. O episódio capixaba, porém, terminou em vexame: os pilotos viajaram sem os carros, e o prefeito, para não cancelar o evento com o estádio cheio, foi obrigado a emprestar veículos oficiais do município. Os prejuízos aos cofres públicos foram consideráveis, e nunca mais ninguém se atreveu a retomar esse assunto por lá. 

A Federação de 1973 e o Campeonato Carioca 

Apenas partidas esporádicas foram disputadas até que, em 1973, os entusiastas do “esporte” na Guanabara formaram uma federação que contou com a adesão de América, Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo.  

A primeira das três edições foi disputada no antigo campo do América, que além de ser o clube onde Mário Tourinho era diretor, estava renovando o gramado, ou seja, já estava destruído mesmo e os carros não iam piorar muito as coisas. 

O segundo palco do Autobol  foi  campo do Colégio Santo Inácio, em Botafogo. Mas os padres se horrorizaram com a violência e pediram a transferência para o lugar mais distante possível. E assim as partidas foram transferidas para o campo dos Funcionários do Horto Florestal, no Jardim Botânico; e algumas foram disputadas até no campo do estádio das Laranjeiras, numa época que também aguardava replantio. 

O estádio do Fluminense antes das obras da Rua Pinheiro Machado (Crédito: Reprodução)

Quais carros eram utilizados? 

Os escolhidos eram modelos baratos, como o Dauphine, que tinham câmbio de três marchas, facilitando bastante as manobras, pois a ré e a primeira marcha faziam parte do mesmo canal. Outros automóveis como o Volkswagen Fusca 1300, Volkswagen 1600, Gordini, Renault RQ e o Karmann-Ghia também foram bastante utilizados. 

Havia sim estratégia. Carros com capô redondo, como o Fusca, eram ótimos para “chutar” a bola para o alto, possibilitando que os outros veículos a “cabeceassem” para o gol. Já os de capô quadrado executavam passes rasteiros. Com o tempo, a corrida tecnológica se intensificou: em uma partida, o Botafogo surpreendeu ao entrar em campo com quatro Volkswagen 1600 de quatro portas, modelo que, anos mais tarde, receberia o apelido de Zé do Caixão. O Fluminense, com quatro Gordinis, perdeu de goleada, mas aprendeu a lição e trocou a frota. 

Ninguém morreu? Sério? 

O Brasil, se não existisse, jamais seria inventado. E mais uma prova disso é que nunca ninguém morreu “jogando” Autobol. Tinha capotagens, incêndios, colisões em alta velocidade, carros com vidros espatifados, mas fora várias costelas quebradas, hematomas e uns cortes mais profundos aqui e ali, não há nenhum registro de alguma vítima fatal após um acidente. 

Alguns podem dizer que foi milagre; outros, uma lacuna nos arquivos históricos; ou, simplesmente, mais uma evidência de que o carioca tem uma relação com a sorte que desafia qualquer estatística. 

Por que ele acabou? 

O Autobol foi vítima de sua própria irresponsabilidade e do contexto histórico. Internamente, a falta de campos adequados e a escassez de patrocinadores, que não queriam nem pensar em ver suas marcas associadas àquela selvageria toda, tornaram o custo das partidas insustentável. 

Externamente, a crise do petróleo de 1973 chegou ao Brasil com força total. A Ditadura Militar, para economizar combustível, proibiu a realização de competições automobilísticas em todo o país. E sem gasolina, não havia Autobol que resistisse. O último campeonato foi em 1975, e o esporte caiu no esquecimento até virar uma curiosidade histórica revisitada por jornalistas, blogueiros e saudosistas. 

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