Se no Rio de Janeiro, toda cidade inventa de ser capital disto ou daquilo para se engrandecer, um bairro carioca parece ter exagerado um tantinho na autoestima. No extremo oeste da Guanabara, Santa Cruz guarda, em seu solo histórico, marcos de um passado que vai da ocupação jesuíta à industrialização. Para valorizar esse patrimônio, a Lei Municipal 5.262, de 27 de julho de 2011, oficializou as “Sete Maravilhas de Santa Cruz”. A lista, que inclui desde um hangar de zepelins até uma antiga ponte-jazida, busca destacar a identidade cultural do local. No entanto, décadas de descaso público e abandono colocam em relevo o abismo entre o reconhecimento legal e a preservação efetiva, revelando um bairro que luta para manter viva sua memória diante de carências urbanas crônicas.

Apesar do título conferido por lei, não existe um circuito turístico oficial, sinalizado e promovido pela prefeitura, que una os sete monumentos — um roteiro ciclístico queimou a largada. A visitação depende da iniciativa individual, muitas vezes dificultada pela falta de informação, transporte e pela infraestrutura urbana precária. O projeto permanece, assim, mais como um símbolo de potencial não explorado do que uma realidade concreta para moradores e visitantes, encapsulando a contradição de Santa Cruz em uma riqueza histórica monumental ofuscada pelo esquecimento administrativo.

As “maravilhas” são testemunhas silenciosas de ciclos econômicos e sociais. Elas contam histórias de engenhos de açúcar, de engenharia militar pioneira, da aviação moderna e da fé de uma comunidade. Seu estado atual, porém, é variado: alguns espaços encontraram novos usos, outros estão em ruínas, e muitos sofrem com a degradação. Essa condição reflete as maiores mazelas do bairro, que vão além da conservação do patrimônio e incluem a precariedade dos serviços públicos, a violência e o sentimento de abandono por parte do poder público.

Palacete da Princesa Isabel: lembranças da História na Zona Oeste | Crédito: Reprodução

Quais são as “7 Maravilhas de Santa Cruz”?

De acordo com a Lei Municipal 5.262/2011, as sete maravilhas são: a Cidade das Crianças; o Batalhão Escola de Engenharia Villagran Cabrita; o Hangar do Zeppelin; a Matriz de Nossa Senhora da Conceição; a Ponte dos Jesuítas; a Catedral da Assembleia de Deus; e o Antigo Matadouro Industrial de Santa Cruz. A seleção buscou abranger edificações de relevância histórica, arquitetônica e afetiva para o bairro, representando diferentes épocas de sua formação.

A lei, em seu artigo 2º, determina que o Poder Executivo “tomará as providências necessárias para a preservação, a conservação e a proteção” destes bens. No entanto, a efetividade dessa determinação é questionada por moradores e coletivos culturais, que apontam a falta de manutenção, investimento e divulgação como obstáculos para que o título se traduza em legado vivo e acessível.

Projetos comunitários e pesquisadores locais eventualmente organizam roteiros guiados, mas sem periodicidade ou apoio institucional consolidado. A inexistência de um circuito formal é frequentemente citada como uma das fragilidades na implementação da lei, que permanece, em grande parte, como um reconhecimento simbólico sem políticas públicas efetivas de integração e promoção.

Conheça as 7 Maravilhas de Santa Cruz:

1) A Cidade das Crianças

Inaugurada em 1966 pelo governador Carlos Lacerda, a Cidade das Crianças foi um grande parque público inspirado em modelos internacionais, com minicidade, trenzinho, planetário e diversos equipamentos de lazer e educação. Tornou-se um símbolo de lazer para gerações de cariocas da Zona Oeste.

Atualmente, o local encontra-se em estado de grave abandono e degradação. O parque está fechado ao público há anos, com suas instalações pichadas, quebradas e tomadas por mato alto.

Recentemente a Prefeitura anunciou que vai erguer no local o Parque Terra Prometida, uma ação voltada para o estímulo do turismo religioso.  Estão previstas uma esplanada para eventos com capacidade para 70 mil pessoas em pé, auditório principal para seis mil pessoas sentadas, salas de conferência, estacionamento para 700 vagas e cerca de 200 ônibus, hotel escola, um Jardim de Contemplação, bosque nativo, Caminho das Águas, parque infantil, ciclovia, quadras esportivas, além de lojas de apoio para alimentação e comércio. Maravilha vai ser ver isso sair do campo das boas intenções.

Antiga Cidade das Crianças está fechada há dois anos | Crédito: Reprodução

2) O Batalhão Escola de Engenharia Villagran Cabrita

A origem do local remonta ao século XIX, com a instalação de um Colégio Militar. Posteriormente, sediou a Escola Militar de Engenharia, formando as primeiras turmas de oficiais engenheiros do Exército Brasileiro. Seu nome homenageia um herói da Guerra do Paraguai, Villagran Cabrita.

Atualmente, o vasto complexo continua abrigando uma unidade do Exército Brasileiro, o Batalhão Escola de Engenharia (B Es Eng). O acesso ao público é restrito, mas a imponência de suas edificações históricas, bem conservadas pelas Forças Armadas, pode ser avistada da rua, contrastando com o cenário de descaso de outros patrimônios do entorno.

3) O Hangar do Zepelim na Base Aérea de Santa Cruz

Construído entre 1936 e 1938, o Hangar do Zepelim é uma obra monumental de engenharia, projetado para ser a parada terminal da rota alemã de dirigíveis que ligava a Europa ao Brasil. É o único hangar desse tipo no mundo que ainda mantém suas condições originais e capacidade operacional.

Localizado dentro da Base Aérea de Santa Cruz, da Força Aérea Brasileira, o hangar permanece em atividade, abrigando aeronaves da unidade. Sua preservação é exemplar, devido à manutenção militar. Visitas são possíveis apenas em ocasiões especiais, como a “Primavera dos Museus” ou mediante agendamento autorizado, sendo um dos patrimônios mais bem conservados da nossa lista.

Hangar do Zepelim se ergue imponente na Base Aérea de Santa Cruz | Crédito: Reprodução

4) A Matriz de Nossa Senhora da Conceição

A história da matriz está intrinsecamente ligada à fundação de Santa Cruz. Sua construção inicial data do século XVII, associada aos jesuítas que administravam a Fazenda de Santa Cruz. A igreja passou por reformas e ampliações ao longo dos séculos, servindo como centro espiritual e social do bairro.

A Matriz está aberta ao culto e é um ponto vivo da comunidade. Embora necessite de constantes cuidados de conservação, mantém suas atividades religiosas regulares e é palco de festas tradicionais. Seu estado é considerado razoável, especialmente quando comparado a outros bens tombados da região, mas depende de iniciativas da paróquia e de fiéis para sua manutenção.

Fachada da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição

5) A Ponte dos Jesuítas

Erguida em 1752, a Ponte dos Jesuítas é uma sólida construção em pedra e argamassa de cal, areia e óleo de baleia. Sua função principal era de jazida (represa ou comporta) para controlar o nível d’água e irrigar os campos da Fazenda de Santa Cruz, demonstrando o avançado conhecimento hidráulico da época.

Ela na verdade é uma comporta. Em seu arco central está gravado o brasão da Companhia de Jesus com a data de 1752. A inscrição latina nele contida é “IHS”, monograma de Jesus, seguido pela data. A estrutura, tombada pelo IPHAN, encontra-se em razoável estado de conservação estrutural, mas o entorno e o canal estão frequentemente sujos e com mato, necessitando de uma valorização paisagística e de sinalização histórica adequada.

6)  Catedral da Assembleia de Deus

Inaugurada em 1998, é um templo relativamente recente, mas que se tornou uma marca visual do bairro devido às suas grandes dimensões e arquitetura imponente. Representa o crescimento e a consolidação das Assembleias de Deus como uma das principais forças religiosas na região.

A catedral está em pleno funcionamento, com cultos diários e em bom estado de conservação. Diferente das outras maravilhas, seu valor reside mais no aspecto comunitário, simbólico e arquitetônico contemporâneo do que na antiguidade histórica, mostrando como a identidade de Santa Cruz também se constrói com elementos modernos.

Fachada da Catedral da Assembleia de Deus | Crédito: Reprodução Google Maps

7 – Antigo Matadouro Industrial de Santa Cruz

Inaugurado em 1913, o Matadouro Industrial de Santa Cruz foi uma grande obra de saneamento da capital federal, transferindo para longe do centro urbano o abate de animais. Foi um marco de modernização e importante empregador na região por décadas.

Desativado, o complexo foi tombado e, após anos de abandono, passou por uma reforma. Desde 2016, abriga uma unidade do o campus Santa Cruz. O novo uso garantiu a preservação das belas fachadas e da estrutura, adaptando o interior para salas de aula e laboratórios, sendo um raro caso de revitalização bem-sucedida entre os patrimônios do bairro.

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