Na noite de 19 de maio de 1986, uma segunda-feira de outono com céu limpo sobre o Vale do Paraíba, dezenas de objetos voadores não identificados cruzaram os céus do Brasil, foram detectados por radares militares e provocaram uma das maiores operações aéreas da história da Força Aérea Brasileira. O fenômeno durou ao menos três horas, mobilizou pilotos civis e militares, controladores de voo e as mais altas autoridades da Aeronáutica, e encerrou a madrugada exatamente como havia começado: sem explicação. Tratava-se, enfim, de um problema sério demais para ignorar e misterioso demais para resolver.
O Brasil de 1986 era um país recém-saído da ditadura, festejando a Nova República. O presidente José Sarney governava, o coronel Ozires Silva, fundador da Embraer, acabara de se reunir com ele em Brasília e voltava para São José dos Campos para assumir no dia seguinte a presidência da Petrobras quando os céus roubaram a cena.
O episódio que passaria à história como a “Noite Oficial dos Óvnis” não ganhou esse nome por acaso ou por entusiasmo ufológico. Quatro dias depois dos eventos, o então ministro da Aeronáutica, brigadeiro Octávio Júlio Moreira Lima, convocou uma coletiva de imprensa na qual informou que cinco caças da FAB tinham perseguido 21 UFOs. Quando o próprio ministro da Aeronáutica convoca a imprensa para dizer que caças perseguiram discos voadores, e não pegaram nenhum, não dá para dizer que aquilo tudo foi fruto de histeria coletiva, nem falha de radar ou delírio dos pilotos.
O show luminoso que assustou a Força Aérea Brasileira
O que aconteceu na noite de 19 de maio de 1986 entrou para a história como a “Noite Oficial dos OVNIs”, um daqueles raros momentos em que o fantástico e o oficial decidiram assinar a mesma ata. Por volta das 20h, o céu do Sudeste brasileiro transformou-se em uma árvore de Natal fora de época, com dezenas de pontos luminosos de cores vibrantes executando coreografias que desafiavam os manuais de aerodinâmica.
O fenômeno durou cerca de três horas, tempo suficiente para que a rotina dos aeroportos fosse suspensa e o alto comando da Aeronáutica perdesse o sono tentando entender que tipo de subversão tecnológica era aquela.
As fontes históricas, incluindo os registros oficiais da própria FAB, mostram que o evento não foi o delírio coletivo de uma noite de outono. A profusão de luzes era tão intensa e coordenada que o sistema de defesa aérea não teve outra escolha senão tratar o pisca-pisca cósmico como uma ameaça real à segurança nacional. Enquanto o cidadão comum dormia sereno alheio ao perigo, as bases militares brasileiras se mobilizavam para enfrentar algo que parecia saído de um roteiro de ficção científica de Hollywood.

Um plantão que entrou para a história
Naquela noite, no controle de tráfego do Aeroporto Internacional de São José dos Campos estava o sargento Sérgio Mota da Silva, então com 28 anos. Foi ele quem, por volta das 20h, avistou o primeiro ponto luminoso e disparou a série de comunicações que mobilizaria a defesa aérea do país.
Mota estava sozinho na torre de controle e gerenciava a decolagem do voo 703 da extinta empresa aérea Rio Sul com destino ao Rio de Janeiro quando avistou uma estranha luz parada no céu, semelhante a um farol. Ele ligou para a torre do Aeroporto Internacional de Guarulhos para checar se alguma aeronave se aproximava de São José dos Campos. Mas Guarulhos disse que não havia nada.
Hoje reservado e relutante em ouvir os áudios da época (“a vivência daquela noite é marcante demais para precisar deles”), lembra que o número real de objetos pode ter sido muito maior que 21. “Às vezes, os pilotos tinham contato visual dos alvos, mas os radares não registravam nada. Outras, os radares captavam a presença de objetos, mas os pilotos não conseguiam avistá-los”, explicou ele à Folha de S.Paulo.
Mas efetivamente o que aconteceu?
Na noite daquela segunda-feira de 1986, pelo menos 21 objetos voadores não identificados, alguns deles com até 100 metros de diâmetro, foram avistados por dezenas de testemunhas, civis e militares, em quatro estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. O fenômeno não foi desabafo de um bêbado solitário num boteco da Lapa. Foi registrado simultaneamente por militares treinados, pilotos comerciais experientes e pelo mais sofisticado sistema de defesa aérea que o Brasil dispunha na época.
Só no interior de São Paulo, foram registrados avistamentos em Caçapava, Taubaté e Mogi das Cruzes. Mas o fenômeno transbordou rapidamente para além do Vale do Paraíba. Outras aeronaves relataram avistamentos naquela noite. A primeira foi um Bandeirante, da TAM, que fazia a rota de Londrina (PR) a São Paulo (SP): o piloto chegou a informar ao Centro de Controle de Área de Brasília que havia um artefato se aproximando dele, em aparente rota de colisão. A segunda, da Transbrasil, avistou um UFO sobre a região de Araxá, no interior de Minas, num voo que seguia de Guarulhos para Brasília.
Uma testemunha ilustre
Uma testemunha aérea era, convenhamos, das mais ilustres. O então coronel Ozires Silva, fundador da Embraer, voltava para São José dos Campos em um Xingu, com o comandante Alcir Pereira da Silva, depois de ter participado de uma reunião em Brasília com o presidente José Sarney. Ozires assumiria a presidência da Petrobras no dia seguinte, quando foi informado sobre os objetos pelo controlador de voo.
Os dois fizeram o primeiro avistamento quando o avião já começava os procedimentos para pouso, entre São Paulo e Mogi das Cruzes, e decidiram subir para perseguir, por conta própria, três objetos durante quase 30 minutos. Senta a Pua! Um deles foi definido como “uma grande estrela vermelha”. O futuro presidente da Petrobras caçando discos voadores a bordo de um turboélice da Embraer, na véspera da posse é mais uma cena brasileira que se não acontecesse ninguém teria escrito.

A confirmação que ninguém queria
Para desespero dos céticos, os Ovnis não foram apenas vistos; eles foram devidamente “carimbados” pelos radares do Centro Integrado de Defesa Aérea e de Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta). Na linguagem fria dos militares, isso significa que os objetos possuíam “eco de radar”, ou seja, eram massas sólidas e físicas que refletiam as ondas eletromagnéticas do sistema de defesa. Não eram nuvens, detritos espaciais ou ilusões de ótica causadas por inversão térmica; era metal, ou algo tão denso quanto, cortando as nuvens.
O Cindacta, criado nos anos 1970 para integrar a defesa aérea e o controle de tráfego civil num único sistema, era à época uma das estruturas de monitoramento aéreo mais modernas da América Latina. Registros do Arquivo Nacional mostram 21 alvos visuais nos radares do Cindacta, com altitudes variando entre menos de 1,5 km e mais de 12 km, e cores branco, verde e vermelho, além de movimentos bruscos. Quando um sistema projetado para não errar registra 21 alvos anômalos ao mesmo tempo em múltiplos estados, a única coisa que se pode dizer com certeza é que havia algo para registrar.
A FAB entra em cena
Às 22h34, um caça-leve modelo F-5, prefixo FAB-4848, pilotado pelo tenente Kleber Caldas Marinho, partiu da Base Aérea de Santa Cruz. Foi o primeiro dos cinco jatos de combate que a FAB acionou para interceptar os objetos. Era uma operação de defesa legítima, não um capricho burocrático. Em seguida o capitão Armindo Sousa Viriato de Freitas, às 22h48, decolou da Base Aérea de Anápolis em um Mirage F-103.
O que se seguiu foi uma das perseguições mais bizarras da história militar da América Latina. O Tenente Kleber chegou a perseguir um dos objetos, que foi captado nos radares de solo, pelo radar do próprio caça e visto pelo piloto. Em seu depoimento, descreveu: “Em determinado momento quando voltei a observar o objeto […] eu pude observar três cores distintas, verde, vermelho e branco que pulsaram”.
O capitão Viriato afirmou em entrevista à TV Globo, que a velocidade era impressionante, e que o objeto, ao sumir, podia ter atingido “Mach 15”, velocidade equivalente a mais de 18 mil quilômetros por hora, 15 vezes a velocidade do som.
Para se ter ideia do que significa esse número, o avião mais rápido já construído pelo ser humano até hoje, o SR-71 Blackbird da Força Aérea dos Estados Unidos, chega a Mach 3,3. O que os pilotos brasileiros relataram naquela noite supera em mais de quatro vezes o limite máximo da tecnologia aeronáutica conhecida, quarenta anos depois.
Os pilotos relataram um verdadeiro manual de impossibilidades aerodinâmicas: os objetos pairavam imóveis, voavam em zigue-zague, faziam curvas de 90 graus sem perder velocidade, mudavam de cor (vermelho, amarelo, verde, branco), alteravam trajetória e altitude em frações de segundos.

A histórica e surreal coletiva do ministro da Aeronáutica
Quem viveu nos anos 1980 sabe que todo dia de manhã deve uma oração à graça alcançada da Internet não existir naquela década. E este é um exemplo lapidar. No dia 23 de maio de 1986, às 16h30, o ministro da Aeronáutica, brigadeiro Octávio Júlio Moreira Lima, convocou uma coletiva de imprensa histórica. Diante de jornalistas boquiabertos, o ministro admitiu oficialmente que cinco caças da FAB haviam perseguido 21 objetos voadores não identificados. Foi um momento de transparência surreal para uma força que, como se sabe, passara as últimas décadas guardando segredos.
Sua frase mais célebre, e, para muitos, a mais reveladora foi: “O fenômeno é sólido e reflete inteligentemente”. Em outras palavras, não se tratava de lixo espacial, fenômeno meteorológico ou falha técnica; era algo sólido e que parecia responder com inteligência às tentativas de aproximação. A frase se tornou um clássico da ufologia nacional.
A imagem do ministro, um militar de postura firme, explicando que a tecnologia do país fora superada por pontos luminosos desconhecidos, correu o mundo. Moreira Lima prometeu um relatório completo sobre o caso em 30 dias, demonstrando um otimismo burocrático admirável diante de um fenômeno que claramente não seguia o calendário da administração pública brasileira.

O relatório que demorou 23 anos para decolar
Como quase tudo que se promete em Brasília, o prazo de 30 dias do ministro sofreu um ligeiro atraso de mais de duas décadas. Apenas 23 anos depois, em 25 de setembro de 2009, um documento oficial sobre o caso veio a público graças à Lei de Acesso à Informação. O relatório, assinado pelo interino do Comando da Aeronáutica (COMDA), José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, tinha uma data curiosa: 2 de junho de 1986, provando que as conclusões já estavam prontas enquanto o público esperava sentado.
O relatório, marcado como “Confidencial” e encontrado entre as mais de 4.500 páginas liberadas em 2009 pela Aeronáutica e hoje em poder do Arquivo Nacional, descrevia minuto a minuto as aparições dos objetos, suas trajetórias, velocidades e comportamentos. Havia sido produzido semanas após os eventos, portanto com base em dados frescos. Ele afirmava em sua conclusão que “os fenômenos são sólidos e refletem de certa forma inteligência, pela capacidade de acompanhar e manter distância dos observadores, como também voar em formação, não forçosamente tripulados”.
“Não forçosamente tripulados” é uma frase que, numa leitura apressada, parece uma cautela científica. Numa leitura mais demorada, é o Estado brasileiro dizendo, com todas as letras, que havia algo lá, inteligente, físico e detectável, mas que não sabia o que era.


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