Por Jan Theophilo
Você certamente já presenciou ou ouviu um causo como esse. Em um dos mais notórios, um bando de macacos-prego foi flagrado invadindo um prédio no Jardim Botânico. Os moradores contaram que os primatas subiram pela tubulação externa do edifício e entraram em todos, sim todos, os apartamentos pelas janelas, revirando as latas de lixo em busca de alimento. Em março deste ano, outro macaco-prego foi apreendido dentro de um escritório no Campo Olímpico de Golfe, na Barra da Tijuca. O malandro estava manuseando uma caneta e rabiscando papéis sobre uma mesa. Não foi divulgado sobre o que tratavam seus ofícios. Brincadeiras à parte, depois da praga dos saguis que se consolidaram nas matas fluminenses, os macacos-prego viraram um novo flagelo. E o pior, eles não estão sozinhos.
Segundo dados do IBAMA, nos últimos três anos o número de macacos-prego apreendidos em feiras ou encontrados em situação de abandono pelas ruas aumentou consideravelmente no estado. “Se antes recebíamos um macaco-prego por mês, hoje são de cinco a seis por semana “, diz o superintendente do instituto no Rio, Rogério Rocco. E se ter um macaco em casa pode ser diferentão, o dia a dia é bem mais complicado e arriscado do que adotar um jabuti. “Um macaco-prego filhote é muito bonitinho sim, mas ele cresce. Pode chegar a 50 centímetros e uma mordida no pescoço de uma pessoa pode ser letal “, diz o veterinário Leandro Nogueira: “É complexo lidar com um primata dentro de um apartamento. Eles precisam de muito espaço para gastar energia. Os donos se cansam, desistem de cuidar deles e os abandonam”.

E a questão pode se tornar um problema grave de saúde pública. Primeiro, porque, criados a leite de pera em apartamentos de bacanas, quando abandonados na cidade os macacos domesticados se apavoram e ficam ainda mais agressivos. E para complicar mais, a espécie é suscetível a contrair o vírus do herpes. “Um dos grandes medos da comunidade científica é que a gente se contamine de volta. Um vírus humano em um animal passa por alterações genéticas, e, se numa mordida, ele for retransmitido para os humanos, pode gerar uma zoonose grave. A gripe aviária é exemplo desse ciclo perigoso “. alerta o veterinário Jeferson Pires, do Centro de Recuperação de Animais Selvagens (Cras), da Universidade Estácio de Sá, localizado em Vargem Grande.
Somente no ano passado, morreram cerca de cem macacos-prego apreendidos no Estado do Rio, segundo o departamento de pesquisa da universidade. Não é possível fornecer um número preciso de ataques de macacos-prego aos humanos no Rio de Janeiro ano passado. A informação sobre incidentes de ataques de macacos não é sistematicamente coletada ou divulgada pelo governo ou outras instituições no Brasil.
Fantasiados, instragramados em poses engraçadas, os macacos-prego podem não ter ainda superado o sucesso dos perfis de gatinhos, mas explodiram nas redes sociais. E, sim, tanto o Twelves (macaco de estimação do cantor Latino) quanto a Cuta (do ex-jogador Emerson Sheik), foram molas propulsoras da situação. Twelves chegou a ter um perfil próprio no Instagram com 142 mil seguidores. “As pessoas postam fotos dos macacos com roupas de palhacinho, andando de skate, e isso gera like. Like gera engajamento e engajamento vira dinheiro”, diz o veterinário Leandro Nogueira.
Leandro trabalha no único Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS ) do IBAMA no Rio de Janeiro. Existem 24 deles em todo o Brasil e é para esta unidade que os macacos-prego (assim como qualquer outro animal silvestre recolhido) são levados. Com um orçamento anual que é um troco de pinga e mal passa o milhão de reais, um pequeno grupo de veterinários e biólogos heroicamente recebe, identifica, reabilita e destina animais silvestres para criadores conservacionistas, zoológicos ou santuários, quando não há possibilidade de reintegração _ o que é exatamente o problema com os macacos-prego. No ano passado, mais de sete mil animais silvestres de todos os tipos passaram pelo CETAS do Rio, que fica localizado no coração da Floresta Nacional Mário Xavier, em Seropédica. Lá a rotatividade é tão grande quanto o número de espécies e histórias.

“Hoje, por exemplo, estamos enviando 270 jabutis para reintegração no Centro-Oeste. Mas pode chegar aqui a qualquer momento a Polícia Federal trazendo um caminhão com 300 canários apreendidos “, conta o chefe do CETAS, André Oliveira. Até o fechamento desta edição 1509 diferentes animais passaram ou estão pelo centro este ano – 63 deles, macacos-prego. Mas por ali há de tudo. Desde um bando de ariranhas que foram pintadas de amarelo e tiveram as caudas cortadas para serem vendidas por R$ 500 como papagaios em uma feira de Duque de Caxias; dezenas de araras canindé que no mercado legalizado custam uma bobagem de R$ 70 mil (aquela azul dos filmes sai pelo dobro disso); pássaros exóticos como o periquito arco-íris ou o ring neck, originários da Nova Zelândia e que também custam alguns milhares de reais; e até duas onças apreendidas pela polícia ainda filhotes com traficantes nos morros do Pavão-Pavãozinho e do Chapadão.
Um dos maiores desafios do Ceta para lidar com o aumento expressivo da captura dos macacos-prego é que eles precisam ser acomodados em jaulas específicas, que permitem o manejo dos animais para limpeza. E hoje eles não só ocuparam todas elas como alguns exemplares menores precisaram ser colocados em uma espécie de caixote especial. “Você pode pensar que 63 animais não é um número tão grande assim. O problema é que a coisa de dois meses nós conseguimos doar 30 deles para um santuário e já estamos lotados novamente. As apreensões têm crescido tanto que não conseguimos realocá-los em outros bioparques porque todos estão cheios de macacos-prego “, diz André Oliveira.

E os macacos-prego não são os únicos a preocupar as autoridades ambientais. Nas comunidades carentes do Rio apreensões indicam que surgiu um novo modismo: os micos de cheiro, que também são portadores de doenças como raiva, herpes, verminoses, enterites, ectoparasitos e pneumonia – e ficam mais estressados quando confinados em ambientes pequenos. “Ele é menor, mais engraçadinho e é capturado por caçadores na floresta amazônica. Ou seja, não temos nem como reintegrá-los a natureza por aqui. Para te ajudar a entender, vou dar um exemplo os saguis são hoje um grande problema no Rio por terem se tornado inimigos dos mico-leão dourados”, explica o veterinário Leandro Nogueira. No caso dos macacos-prego outro complicador é que eles estão se acasalando com macacos-prego de outras regiões brasileiras, o que altera o DNA dos animais. Ou seja, simplesmente devolvê-los a natureza é como soltar um vira-lata caramelo num canil lotado de golden retrievers. No fim você não terá goldens fofinhos de pedigree, só terá vira-latas.

“É uma questão de gestão de fauna que é muito pouco debatida no Brasil “, diz Leandro Nogueira: “Por exemplo, hoje há uma realidade pouquíssimo comentada que é a explosão de cascavéis apreendidas dentro das casas das pessoas em cidades como Resende, Miguel Pereira ou Piraí. Semanalmente recebemos de 8 a 13 cascavéis”. No momento o CETAS abriga 37 delas, e uma agenda de reuniões com prefeituras e o Ministério Público busca encontrar soluções. #medo
Mas, enfim, pelo menos para os macacos-prego, uma boa notícia está se consolidando no horizonte. “Estamos negociando uma parceria para levar esses animais para uma ilha na represa da Light de Ribeirão das Lajes, em Piraí “, adianta o superintendente do IBAMA no Rio, Rogério Rocco. Segundo ele, os animais serão esterilizados e mantidos no que se pode chamar de confinamento natural. “Lá eles estarão protegidos e não terão como interagir com outras espécies “, diz Rogério. No CETAS 40 deles já estão fazendo as malas para a futura mudança.
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