A polarização existe? Um ensaio sobre a recusa do outro na política brasileira

No Brasil contemporâneo a disputa entre lulismo e bolsonarismo tornou-se uma disputa por reconhecimento da própria narrativa nacional

A pergunta é simples. Quase infantil em sua aparência. A polarização existe no Brasil contemporâneo? A pergunta parece simples, mas a resposta atravessa territórios sociológicos, antropológicos, psicológicos e políticos que revelam algo muito mais complexo do que uma disputa eleitoral entre dois campos.

Este ensaio nasce de muitas conversas. Conversas com juristas que analisam os limites institucionais da democracia brasileira. Conversas com sociólogos atentos à mutação da cultura política do país. Conversas com filósofos políticos interessados na deterioração do reconhecimento do adversário. Conversas com jornalistas que observam diariamente o espetáculo da política transformado em narrativa permanente.

Entre todas essas conversas houve uma que funcionou como gatilho intelectual para este texto. Uma longa conversa com o jornalista e intelectual público Mauro Malin.

Naquela conversa surgiu uma pergunta aparentemente banal. Se o Brasil vive uma polarização tão evidente, por que tantos setores políticos afirmam que ela não existe? A resposta não é trivial.

Uma parte significativa do campo lulista, progressista e de esquerda sustenta que não há polarização no Brasil atual. Segundo essa interpretação, o que existe é uma disputa entre democracia e autoritarismo. Neste enquadramento o bolsonarismo não é percebido como um campo político legítimo dentro da disputa democrática, mas como um movimento que flerta com a ruptura institucional.

Por essa razão a palavra polarização seria inadequada, pois ela sugeriria equivalência entre dois projetos políticos legítimos. Essa tese ganhou força depois dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos três poderes em Brasília foram invadidas.

A interpretação dominante em setores progressistas é a de que aquele episódio representou uma tentativa de golpe de Estado ou, no mínimo, uma insurreição contra as instituições democráticas. Em decisões e comunicados oficiais o Supremo Tribunal Federal enquadrou juridicamente vários núcleos e condutas como parte de uma tentativa de ruptura institucional.

Esse enquadramento produziu uma consequência simbólica poderosa. A política deixou de ser vista como disputa entre adversários e passou a ser interpretada como um confronto entre democracia e ameaça autoritária.

Nesse tipo de leitura o adversário não é apenas adversário. Ele passa a ser percebido como alguém que não aceita as regras do jogo. Essa transformação altera a própria gramática da política.

Quando um ator político é visto como alguém que rejeita o pacto democrático, ele deixa de ocupar o lugar de adversário legítimo. Ele passa a ser percebido como perigo. A disputa deixa de ser agonística. Ela passa a ser moral.

Nesse cenário afirmar que existe polarização torna-se incômodo. Reconhecer a polarização implicaria reconhecer a legitimidade política de dois polos. Para muitos setores progressistas isso seria inaceitável, pois equivaleria a legitimar um movimento considerado antidemocrático.

Curiosamente o campo bolsonarista realiza movimento semelhante, embora por caminhos discursivos distintos. Em muitos discursos e manifestações do universo bolsonarista também se afirma que não existe polarização no Brasil. O argumento é outro. Segundo essa narrativa o país não estaria dividido entre direita e esquerda. O conflito seria entre o povo e o sistema.

O sistema seria composto por elites políticas tradicionais, setores do Judiciário, universidades, grandes veículos de imprensa e partidos de esquerda. Nesse enquadramento o lulismo não aparece como adversário político legítimo. Ele surge como parte de uma engrenagem de poder que teria capturado as instituições do Estado.

O resultado é paradoxal. Dois campos que disputam intensamente o poder político negam a existência da polarização enquanto alimentam um dos ambientes políticos mais polarizados da história recente do Brasil.

Esse paradoxo revela algo fundamental sobre a cultura política contemporânea. Negar a polarização tornou-se estratégia discursiva. A negação permite deslegitimar o adversário.

Se não há dois polos legítimos em disputa, então um dos lados representa a normalidade democrática e o outro representa uma anomalia que precisa ser combatida.

A sociologia política ajuda a compreender esse fenômeno. A democracia moderna pressupõe a existência de adversários legítimos. A política democrática não elimina o conflito. Ela organiza o conflito dentro de regras reconhecidas.

Quando um campo político passa a negar a legitimidade do outro, a disputa deixa de ocorrer dentro de um espaço compartilhado. O adversário é deslocado para fora da comunidade política.

Esse deslocamento produz consequências profundas na vida social. O livro A Biografia do Abismo, de Felipe Nunes e Thomas Traumann, ajuda a compreender esse processo. A obra se baseia em milhares de entrevistas realizadas em diferentes regiões do país e descreve como a política passou a atravessar a vida cotidiana dos brasileiros.

Os autores mostram que a polarização brasileira não é apenas ideológica. Ela é afetiva. O que está em jogo não é apenas divergência de ideias. O que emerge é um sentimento de aversão em relação ao outro campo político. Pessoas deixam de falar com parentes. Amizades se rompem. Relações profissionais se tornam tensas. A política invade o cotidiano.

A polarização afetiva significa que o eleitor não precisa necessariamente amar seu candidato. Basta que deteste o adversário. Esse mecanismo psicológico produz uma energia mobilizadora extraordinária. A política passa a funcionar como marcador identitário.

Ser lulista ou ser bolsonarista deixa de ser apenas preferência eleitoral. Passa a ser forma de pertencimento social. A antropologia ajuda a compreender esse fenômeno com maior clareza. Sociedades humanas sempre organizaram identidades coletivas a partir da distinção entre o grupo interno e o grupo externo. O grupo interno é percebido como comunidade moral. O grupo externo é percebido como ameaça ou alteridade radical.

Esse mecanismo está presente em diversas culturas ao longo da história.
Na política contemporânea ele se manifesta na construção simbólica do inimigo. O adversário deixa de ser alguém que pensa diferente. Ele passa a ser descrito como corrupto, golpista, comunista, fascista, inimigo da pátria ou agente de uma conspiração.

Essa linguagem não é apenas retórica. Ela produz efeitos psicológicos reais.
Quando um grupo político é retratado como ameaça existencial, qualquer forma de convivência se torna difícil. O conflito político se transforma em batalha moral.

Nesse ponto a análise de Felipe Nunes em outro livro, O Brasil no Espelho, oferece uma contribuição adicional. A obra mostra como a sociedade brasileira contemporânea vive um processo de autoobservação intensa. O país olha para si mesmo através de pesquisas de opinião, debates públicos e narrativas políticas que procuram interpretar quem somos.

Nesse espelho coletivo aparecem duas imagens diferentes do Brasil. Uma imagem descreve o país como sociedade em busca de inclusão social, justiça distributiva e fortalecimento das políticas públicas. Essa visão encontra eco no campo lulista.

Outra imagem descreve o Brasil como sociedade sufocada por burocracias, corrupção e captura institucional do Estado. Essa visão alimenta o imaginário bolsonarista. Essas duas imagens coexistem dentro do mesmo país. Elas não são ilusões completas. Elas se apoiam em experiências reais vividas por diferentes segmentos sociais.

A polarização emerge quando essas imagens passam a se enxergar como incompatíveis. O espelho se quebra. Cada lado passa a enxergar apenas fragmentos que confirmam suas próprias convicções.

A antropologia política ensina que conflitos simbólicos muitas vezes expressam disputas por reconhecimento. Grupos sociais lutam para afirmar sua visão de mundo como legítima. No Brasil contemporâneo a disputa entre lulismo e bolsonarismo tornou-se uma disputa por reconhecimento da própria narrativa nacional.

Cada campo político reivindica o direito de definir o que significa democracia, o que significa liberdade, o que significa povo. Essa disputa produz intensidade emocional extraordinária.

Pesquisas eleitorais recentes mostram que candidaturas associadas ao lulismo e ao bolsonarismo concentram a maior parte das intenções de voto. Outros candidatos aparecem com percentuais muito menores. Esse padrão sugere a formação de um sistema político bipolarizado. Ao mesmo tempo cada campo político insiste em afirmar que a polarização não existe.

Esse gesto discursivo possui função estratégica. Negar a polarização permite afirmar que apenas um lado representa a normalidade democrática. O outro seria desvio histórico.

A psicologia social mostra que grupos humanos tendem a reforçar sua coesão interna diante da percepção de ameaça externa. Quanto mais intensa é a imagem do inimigo, maior tende a ser a solidariedade interna.

Na política esse mecanismo produz campanhas baseadas na mobilização contra o adversário. O eleitor é convocado a votar não apenas por esperança em um projeto político, mas por medo da vitória do outro campo.

Esse medo produz disciplina eleitoral. A polarização torna-se recurso político poderoso. Paradoxalmente os mesmos atores que se beneficiam desse ambiente muitas vezes negam sua existência. A negação cumpre função simbólica importante. Ela permite preservar a convicção moral de que o próprio campo político representa a ordem legítima da democracia.

Reconhecer a polarização implicaria admitir que o adversário possui legitimidade social comparável. Esse reconhecimento é difícil. Ele exige admitir que milhões de cidadãos que pensam diferente também pertencem à comunidade política.

A democracia depende dessa admissão. Sem ela o adversário se transforma em inimigo. Quando isso acontece a política deixa de ser disputa entre projetos e passa a ser luta pela eliminação simbólica do outro.

O Brasil contemporâneo parece caminhar sobre essa fronteira delicada. A pergunta inicial retorna então com nova força. A polarização existe?
A resposta exige honestidade intelectual.

Existe polarização no sentido sociológico clássico. Dois campos políticos estruturam grande parte da competição eleitoral brasileira. As identidades políticas se organizam em torno desses polos. O eleitorado se distribui entre eles de maneira relativamente estável.

Mas existe algo além da polarização. Existe a recusa do outro. Esse talvez seja o fenômeno mais inquietante do presente. A democracia exige que adversários reconheçam a legitimidade da existência política uns dos outros.

Quando esse reconhecimento desaparece, o conflito político perde seu caráter democrático. A política se transforma em território de desconfiança permanente. Famílias se dividem. Amizades se desfazem. Redes sociais se tornam arenas de agressão simbólica.

A sociedade passa a viver dentro de uma narrativa contínua de confronto. O abismo descrito por Felipe Nunes não é apenas metáfora. Ele é experiência social.

O país continua caminhando à beira desse abismo simbólico em que adversários se observam com desconfiança e muitas vezes com desprezo. Talvez o primeiro passo para compreender a situação brasileira seja aceitar um fato simples. A polarização existe. E talvez ela exista justamente porque tantos insistem em afirmar que ela não existe.

A democracia brasileira atravessa um momento em que reconhecer o adversário tornou-se um gesto político raro. Talvez seja exatamente por isso que essa pergunta aparentemente simples continua a ecoar com tanta força. A polarização existe?

Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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