Na noite de sábado, 16 de novembro de 1996, o arquiteto Luiz Paulo Conde acabara de ser eleito prefeito do Rio de Janeiro pelo Partido da Frente Liberal, ao derrotar Sergio Cabral Filho no segundo turno das eleições municipais. Para comemorar, o prefeito eleito decidiu fazer uma paradinha na Lapa. Até aí, em tese, tudo bem. Mas os assessores acharam que seria uma boa ideia entrar no Circo Voador, a mais famosa casa de shows alternativa da cidade, onde naquela noite os Ratos de Porão e os Garotos Podres faziam o palco tremer com cerca de 800 punks na plateia. O que veio a seguir foi uma das cenas mais emblemáticas da história cultural carioca, uma espécie de colisão entre dois mundos que nunca deveriam ter se encontrado naquela hora e naquele lugar.
A comitiva chegou com bandinha de fanfarra e o entusiasmo característico das vitórias eleitorais. Os punks, que não tinham votado nesses caras e tampouco os tinham convidado, responderam à altura: vaias, impropérios e latas de cerveja voando. Em menos de dez minutos, o futuro prefeito e seu séquito batiam em retirada. A vingança do poder não tardou: dois dias depois, na segunda-feira, o prefeito Cesar Maia cassava o alvará do Circo Voador, alegando irregularidades. Só que algum assessor desavisado conseguiu errar o CNPJ do Circo, e fechou a Fundição Progresso, o centro cultural vizinho. A lona ficaria fechada por mais de oito anos, arrastando consigo vinte empregos diretos, uma creche que atendia oitenta crianças e uma das páginas mais vivas, malucas e divertidas da história da música brasileira.
O episódio tornou-se um dos maiores causos da contracultura carioca, um capítulo raro em que a juventude mais alternativa não apenas resistiu ao poder, o fez recuar, chapéu na mão, diante de uma plateia de camisetas pretas. Que o Circo tenha pagado caro por isso é outra história, e é uma história que vale contar.
Circo Voador for dummies
Na eventualidade do leitor ou leitora não ser carioca, simpatizante nem tiver lido rigorosamente coisa alguma sobre o cenário cultural brasileiro dos anos 1980, o Circo Voador nasceu em janeiro de 1982, na época, na Praia do Arpoador, ainda sob o peso da Ditadura Militar. O espaço foi concebido por Perfeito Fortuna e sua turma como uma usina de arte integrada, misturando teatro, circo, poesia e, acima de tudo, a efervescente nova cena do rock nacional que pedia passagem em meio aos suspiros finais do regime.
A proposta inicial era ficar um mês no Arpoador, mas a experiência durou três meses, atraiu multidões e convenceu a Prefeitura a ceder um terreno definitivo. E assim em 23 de outubro de 1982, a lona azul e branca foi levantada junto aos Arcos da Lapa, onde o Circo permanece até hoje. Naquele espaço absolutamente improvisado e generoso, shows memoráveis se contam às centenas. De Adoniran Barbosa aos Ramones, passando pelas viradas de madrugada ao som de Tim Maia, Jorge Benjor ou do experimentalismo de Hermeto Paschoal. O nome da casa é inspirado na série do Monty Python.
Na Lapa, o Circo Voador se consolidou como um dos maiores símbolos da vanguarda cultural e artística do Rio de Janeiro, um dos centros do movimento de renovação da música popular brasileira, símbolo da contracultura e personagem fundamental na retomada do bairro que passou a habitar.

Dois personagens improváveis
Você certamente já ouviu a expressão “um raio num dia de sol”, comumente usada quando algo absolutamente improvável aconteceu ou vai acontecer. Mas, para usar outro clichezão, ela se encaixa como uma luva para descrever o que aconteceu naquela noite quente de 16 de novembro de 1996.
Luiz Paulo Fernández Conde nasceu no Rio em 6 de agosto de 1934, filho de um empresário industrial e de uma cantora lírica. Tornou-se um nome de peso na arquitetura carioca, chegando a dirigir a escola da UFRJ. Era um homem de ópera, de projetos urbanísticos premiados e de vínculos com a elite intelectual da Guanabara.
Naquele ano, ainda estreante em eleições municipais, Conde foi lançado pelo PFL à sucessão do prefeito César Maia, sendo apontado por este como o idealizador de projetos como Rio-Cidade, Favela-Bairro e a construção da Linha Amarela. Surfando na popularidade de Cesar, Conde venceu Sérgio Cabral Filho no segundo turno das eleições, realizado no dia 15 de novembro. E no dia seguinte resolveu comemorar.


Só que naquele sábado, cerca de 800 punks, góticos e outros seres da noite já tinham um encontro marcado com bandas punks paulistas como os Garotos Podres e os Ratos de Porão. Formado em 1981 naquela estranha cidade cinza ao sul do Brasil, o Ratos de Porão é uma das bandas mais importantes e influentes da história do punk e do crossover thrash mundial.
Liderada pelo carismático e provocador vocalista João Gordo, a banda ganhou notoriedade pelas suas letras violentas de forte protesto social, que cuspiam críticas ferozes contra a pobreza, a corrupção política e a brutalidade policial do Estado brasileiro. O grupo era conhecido por gerar os mosh pits (rodas de punk) mais insanos do país, atraindo um público fiel que não tolerava qualquer tipo de autoridade ou discurso institucional.
Jamais alguém poderia sonhar que naquela noite os dois iam se encontrar.
Mas afinal, o que aconteceu?
Boa parte do público já havia entrado no Circo quando, súbito, apareceu uma dessas bandinhas de fanfarra, comuns em eventos eleitorais, cheia de bandeiras do PFL (o antigo PDS, partido de sustentação da Ditadura Militar) e tocando “Cidade Maravilhosa”. Só quem estava lá pode entender o choque. Nisso, os portões se abriram, e de uma SUV blazer preta desceu todo pimpão o prefeito eleito Luiz Paulo Conde.
Assim que Conde e sua trupe foram avistados na entrada da garagem, a poucos metros do palco, a reação da multidão foi imediata e furiosa. Segundo os registros do acervo do Jornal do Brasil, uma chuva torrencial de latas de cerveja cheias, gelo e o que mais estivesse à mão foi direcionada ao prefeito eleito, enquanto o público gritava palavras de ordem em coro, que não reproduziremos aqui para não ferir os mais sensíveis.
À frente da turba enfurecida João Gordo gritava coisas como “fora velho decrépito”. Conde apavorado e coberto pelos casacos dos seguranças, entrou errado no carro e se sentou no banco do motorista. A comitiva do PFL não conseguiu ficar nem 10 minutos no local, mas foi o suficiente para fazer do episódio um dos mais vistosos da história da noite carioca.

Quem teve essa ideia maluca?
O pai da criança nunca apareceu. A versão mais aceita é que Conde e sua comitiva estavam em turnê pela cidade comemorando a vitória e resolveu dar uma passadinha pela Lapa. Mas a assessoria do PFL sabia exatamente onde ia se meter. Só não deu bola.
Assim que foi avisada da ideia dos assessores de Conde de o levarem ao Circo, a coordenadora da casa de espetáculos Maria Juçá foi a casa do prefeito eleito, no Itanhangá, alertá-lo que a plateia aquela noite não seria muito receptiva àquela visita. Seguiu-se um dos melhores diálogos dos bastidores da noite carioca.
“É uma noite punk”, tentou explicar Juça, aflita. “O prefeito gosta muito de funk”, respondeu um assessor. “Você não está entendendo, é punk, não funk”, tentou ela novamente, “O prefeito sabe lidar bem com as diferenças”, rebateu mais uma vez o arrogante assessor. Juçá desistiu, sem antes avisar: “as diferenças é que não vão lidar bem com vocês”. Deu no que deu.
O dia seguinte
No domingo não se falava em outra coisa na cidade: os punks haviam expulsado o prefeito eleito da Lapa! Mas a vingança veio rápido. Na segunda-feira, o prefeito César Maia determinou o fechamento da casa, sendo xingado até de Hitler pelo então governador Marcello Alencar. A alegação oficial era de irregularidades no espaço, mas a sequência dos fatos deixava pouca margem para dúvida quanto à motivação real. Ao ser questionado sobre a cassação com o argumento de que o Circo era um dos pontos mais tradicionais da cidade, Maia declarou “Tradição de que? De bagunça? De desordem? De maconha?
Só que nada nunca é tão ruim que não possa piorar.
Quando o alvará foi publicado no Diário Oficial, um repórter do Jornal do Brasil que tinha ido ao Circo naquela manhã reparou em um dos detalhes mais bizarros que ilustram o nível de trapalhada e o ódio cego que pautaram a reação da prefeitura naquele momento.
Na pressa burocrática de redigir o decreto de interdição punitiva logo após o incidente com os punks, os técnicos da máquina municipal erraram os dados de identificação do alvo e emitiram a ordem de fechamento direcionada ao endereço e CNPJ da Fundição Progresso, o centro cultural vizinho. A galhofa foi geral.

Por que César Maia reconstruiu o Circo anos depois?
A resposta curta e grossa seria porque a Justiça mandou. Mas a reabertura do Circo Voador só aconteceu mesmo devido a uma combinação de intensa pressão popular, batalhas judiciais vencidas pelos artistas e uma oportuna mudança no cálculo político do próprio Cesar Maia.
Em seu terceiro mandato como prefeito, no início dos anos 2000, Maia percebeu que manter a lona fechada era uma mancha indelével em sua biografia e um desgaste desnecessário com a juventude e a classe cultural. E assim a Prefeitura do Rio, que havia demolido o espaço, teve que reconstruí-lo por determinação judicial, e em 22 de julho de 2004 o Circo Voador foi finalmente reaberto, com proteção acústica, camarins, climatização e a tradicional lona voadora azul e branca que se tornou patrimônio cultural da cidade.
João Gordo, por sua vez, jamais pediu desculpas. Os punks tampouco. E essa, provavelmente, é a parte mais punk de toda a história.



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