A mestiçagem como potência de resistência e criação: Beatriz Bueno em diálogo com a tradição brasileira

É no meio da escala racial que se concentram as ambiguidades do país

O Brasil nasceu do encontro brutal e desigual entre corpos e mundos. O que se chama de formação nacional foi, antes, uma sucessão de violências que moldaram a carne e o espírito de um povo. O estupro colonial não foi apenas crime individual, foi política demográfica de Estado, estratégia deliberada de povoamento e dominação. Em meu artigo Negritude e Parditude: a imagem inteira do Brasil, afirmei que o estupro é o mito fundador de nossa sociedade, o gesto inaugural de um país que se fez mestiço à força.

As mulheres indígenas e africanas foram transformadas em território de conquista, e de seus corpos nasceram as gerações que formariam a base do povo brasileiro. A violência sexual tornou-se, paradoxalmente, instrumento de criação. Dessa tragédia, brotou uma civilização marcada por contradições: um país de opressão e beleza, de dor e invenção, de ferida e canto.

A mestiçagem é, portanto, o centro ambíguo de nossa história. É ferida aberta e força vital. Representa a lembrança do estupro e a potência de sua superação. É o trauma que se recusa a ser esquecido e a criação que se afirma apesar de tudo. Nessa dualidade, o Brasil aprendeu a existir. Darcy Ribeiro chamou o resultado desse processo de povo-novo, povo mestiço, povo tropical. Em O Povo Brasileiro, ele descreveu como as matrizes indígenas, africanas e europeias, ao se encontrarem, produziram uma civilização singular, dotada de extraordinária capacidade de convivência e criação cultural. O que para os colonizadores era impureza tornou-se nossa marca de identidade. O que era pecado e crime converteu-se em força de expressão.

Contudo, como defendo em meu artigo, não se pode entender essa mestiçagem sem reconhecer sua origem violenta. Celebrar a mistura sem enfrentar o estupro é repetir o mito da harmonia racial e apagar as hierarquias que sustentam o racismo estrutural. O Brasil foi construído sobre corpos violentados e memórias silenciadas. Somente o reconhecimento desse passado pode dar à mestiçagem um sentido ético e político. É preciso enxergar a violência como fato e a criação como resposta.

Beatriz Bueno, jovem pesquisadora, professora e militante, recoloca essa questão em linguagem do presente. Criadora do movimento Parditude, ela compreende que o debate racial brasileiro precisa incluir a experiência multirracial. Para Beatriz, ser pardo não é estar entre dois mundos, é ser o próprio retrato do Brasil. Parditude não é divisão, é soma. É o reconhecimento da mestiçagem como realidade viva, marcada por racismo e invisibilidade, mas também por criatividade e resistência. O movimento que ela lidera não propõe um novo gueto identitário, propõe um novo pacto de reconhecimento. Pretos, pardos, indígenas e brancos antirracistas devem se ver como parte de uma mesma luta pela dignidade humana.

Em meu artigo, escrevi que Negritude e Parditude formam juntas a imagem inteira do Brasil. A Negritude expressa a força ancestral da África reinventada no Novo Mundo. A Parditude amplia essa força ao incluir os corpos e histórias que nasceram da mistura. A primeira é a raiz, a segunda é o tronco que floresce. Uma sem a outra é metade. Beatriz Bueno compreende essa unidade e a transforma em prática. Sua proposta é política e pedagógica: nomear o pardo, dar-lhe consciência, devolver-lhe visibilidade, criar pontes e não fronteiras.

A tradição intelectual brasileira sempre oscilou entre negar e exaltar a mestiçagem. Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, tentou transformá-la em mito conciliador, o que serviu para mascarar o racismo. Darcy Ribeiro, ao contrário, entendeu-a como processo conflitivo e criador. Mário de Andrade e Oswald de Andrade viram nela a base de uma revolução estética. Jorge Amado fez dela matéria viva de sua literatura.

Milton Santos enxergou-a como geografia plural e dinâmica. Paulo Freire encontrou nela o sentido da pedagogia libertadora. Lélia Gonzalez revelou sua dimensão afro-latino-americana. Conceição Evaristo transformou-a em escrevivência. Ariano Suassuna a celebrou como arte popular e erudita. Ailton Krenak viu nela um chamado à convivência entre mundos. Todos, cada qual a seu modo, perceberam que o Brasil é mistura e que essa mistura, longe de ser fraqueza, é possibilidade.

Beatriz Bueno emerge dessa linhagem e a renova. Sua Parditude é, de certo modo, a tradução contemporânea da civilização mestiça de Darcy Ribeiro. É o gesto de transformar análise em ação. Se Darcy descreveu o povo brasileiro, Beatriz convida-o à consciência de si. Ela propõe que o pardo deixe de ser categoria estatística e se torne sujeito histórico. O pardo não é ausência de cor, é síntese de todas as cores. É memória e presente, é dor e festa.

A música brasileira sempre compreendeu essa complexidade com uma precisão que a teoria às vezes não alcança. Caetano Veloso, em parceria com Gilberto Gil, escreveu uma das mais agudas descrições do Brasil real na canção Haiti. Quando canta “Pense no Haiti, reze pelo Haiti, o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui”, e depois acrescenta “pretos e quase pretos, brancos e quase brancos tratados como pretos”, ele traduz em poesia aquilo que sociólogos e antropólogos levam décadas tentando explicar.

A frase é uma radiografia moral da sociedade brasileira: um país onde a cor é gradação, e onde a mestiçagem não elimina o racismo, apenas o complexifica. Beatriz Bueno reconhece nessa canção a mesma tensão que atravessa a Parditude: a luta por reconhecimento de quem vive entre fronteiras, de quem é visto ora como quase, ora como menos. Caetano, com sua sensibilidade mestiça, canta o que Beatriz analisa. Ambos falam do Brasil que se reconhece e se nega ao mesmo tempo.

A mestiçagem brasileira é, ao mesmo tempo, invenção e disfarce. Durante séculos, serviu para legitimar o poder das elites que se diziam brancas enquanto se alimentavam da mistura que negavam. A ideologia do branqueamento tentou apagar a presença negra e indígena na formação do país.

Em meu artigo, mostrei como o estupro funcionou também como instrumento simbólico dessa política: produzir mestiços era uma forma de diluir a diferença. Mas o que as elites não previram é que a mestiçagem poderia se transformar em resistência. O sangue misturado não esqueceu suas origens. As culturas cruzadas reinventaram-se nas periferias, nas favelas, nos terreiros, nas escolas de samba, nas universidades, nos quilombos urbanos.

Beatriz Bueno, ao afirmar que Parditude não é divisão, reivindica o direito de ser múltipla sem ser negada. Ela sabe que o pardo brasileiro carrega tanto o peso do privilégio relativo quanto o fardo da exclusão. É no meio da escala racial que se concentram as ambiguidades do país. O pardo é o espelho do Brasil, o lugar onde o racismo se disfarça e onde a consciência pode nascer. Sua militância propõe transformar essa ambiguidade em força política. Parditude é o nome dessa travessia.

Quando Caetano Veloso canta “pretos e quase pretos, brancos e quase brancos tratados como pretos”, ele denuncia a estrutura social que insiste em hierarquizar as tonalidades. É o mesmo Brasil que Darcy Ribeiro descreveu como povo-novo e que ainda não se reconheceu como tal. Beatriz Bueno, com sua juventude e coragem, propõe que esse reconhecimento finalmente aconteça. Ela convida o país a ver-se inteiro, com todas as suas cores, com todas as suas contradições.

A mestiçagem, lida a partir de meu artigo e da prática de Beatriz Bueno, não é mito nem harmonia. É campo de forças, é zona de criação. O estupro colonial foi o crime originário, mas dele emergiu o povo que hoje canta, escreve e pensa o Brasil. A mestiçagem é, assim, o testemunho de que a vida resiste mesmo quando nasce da dor. O povo brasileiro é o povo da sobrevivência. Beatriz Bueno e a Parditude dão nome e forma contemporânea a essa sobrevivência.

O pensamento progressista brasileiro, de Darcy a Milton Santos, de Lélia Gonzalez a Paulo Freire, sempre buscou reconciliar o país com sua realidade. Todos souberam que não há projeto de nação possível sem reconhecer a mistura. Beatriz Bueno leva essa intuição à prática militante. Ela propõe que o antirracismo seja ampliado, que as lutas não se anulem, mas se somem. A soma é o princípio ético da Parditude. Somar é reconhecer sem apagar.

A mestiçagem, portanto, precisa deixar de ser desculpa e tornar-se compromisso. Um compromisso com a verdade histórica e com a igualdade social. A luta antirracista no Brasil será tanto mais forte quanto mais conseguir incluir as vozes mestiças sem diluir a negritude. A síntese está na solidariedade. O país só será democrático quando aceitar que todos os seus filhos, pretos e quase pretos, brancos e quase brancos, indígenas e mestiços, pertencem ao mesmo projeto civilizatório.

O Brasil é um espelho quebrado, mas cada fragmento reflete uma parte de sua beleza. Darcy Ribeiro sonhou com uma civilização mestiça capaz de ensinar o mundo a conviver. Paulo Freire ensinou que o diálogo é caminho para a liberdade. Lélia Gonzalez mostrou que a América é afro-latina. Conceição Evaristo escreveu o corpo da mulher negra como texto coletivo. Ariano Suassuna viu no sertão o barroco da alma nacional. Caetano Veloso cantou o Haiti e viu o Brasil. Eu escrevi que o estupro é o mito formador, e Beatriz Bueno transformou o diagnóstico em ação.

Cada um de nós, a seu modo, tenta dizer que o Brasil é mestiço não por escolha, mas por destino; e que desse destino é possível fazer um futuro. A mestiçagem, compreendida como potência de resistência e criação, é o fio que nos une e nos desafia. É o território onde podemos construir uma nova ética da convivência. É o espaço onde o racismo pode ser desarmado pela consciência e pela ternura.

Beatriz Bueno, ao articular Parditude e Negritude, oferece ao Brasil a chance de se olhar sem medo. Sua juventude carrega a ousadia que o pensamento precisa. Seu movimento é uma forma de devolver sentido à política, de fazer da identidade um campo de solidariedade e não de competição. Ela representa a maturidade de uma geração que já não aceita os silêncios herdados.

O Brasil que emerge desse diálogo é mais verdadeiro. É o país que reconhece o estupro como origem, mas não como destino. É o país que transforma o trauma em projeto. É o país que canta Caetano Veloso, lê Darcy Ribeiro, estuda Lélia Gonzalez, sonha com Paulo Freire e aprende com Beatriz Bueno que a cor da pele é história e possibilidade.

A mestiçagem é o retrato que não se apaga. É a marca que nos define e nos desafia. Pretos e quase pretos, brancos e quase brancos, todos somos parte dessa mesma narrativa. O Brasil será tanto mais humano quanto mais reconhecer sua mistura. A Parditude é o nome desse reconhecimento. Ela é a política da soma, o movimento da memória, a pedagogia do encontro. É o gesto de uma geração que se recusa a viver fragmentada e quer, finalmente, enxergar a imagem inteira do Brasil.

*Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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