A grande graça do futebol é que não necessariamente o time mais forte, ou que joga melhor, vai ganhar do mais fraco. E cada geração teve um clube ou seleção destinado a alimentar a eterna discussão dos torcedores. No caso da Copa do Mundo, se ela premiasse apenas o futebol bonito, a Hungria de 1954, a Holanda de 1974 e o Brasil de 1982 provavelmente dividiriam uma prateleira exclusiva. Como isso nunca aconteceu, os três passaram a disputar outro campeonato, talvez ainda mais interminável. Qual foi a melhor seleção que nunca levantou a taça?
Na década de 1950, o plano húngaro de dominação global funcionou com rigor matemático durante quatro anos inteiros, período no qual acumularam goleadas humilhantes. A seleção de Gusztáv Sebes não apenas vencia, ela redesenhava o espaço físico do campo, provando que a rigidez tática era uma bobagem ultrapassada e que o dinamismo coletivo era a verdadeira resposta para o esporte no pós-guerra. O futebol vistoso e revolucionário tornou-se o maior embaixador de um país que tentava esquecer as próprias ruínas.
O ápice dessa sinfonia estava agendado para a tarde de 4 de julho de 1954, em Berna, onde os húngaros pretendiam apenas carimbar a faixa de campeões que o mundo inteiro já lhes havia concedido. No entanto, o destino, esse gozador, resolveu conspirar com a chuva. E o que aconteceu foi o maior paradoxo da história das Copas. O melhor time do mundo descobriu que, para entrar para a eternidade, às vezes é preciso perder.

Por que a Hungria se destacou no futebol na Europa destruída do pós-guerra?
A Hungria dos anos 1950 não era apenas um time de futebol, era um projeto de Estado. Sob o regime comunista instalado após a Segunda Guerra Mundial, o esporte tornou-se vitrine ideológica do bloco soviético, e o clube Honvéd, cujo nome significa “defensores da pátria”, foi transformado na espinha dorsal da seleção nacional, recrutando os melhores talentos do país sob uma disciplina praticamente militar. Deu certo. E um país pequeno e arrasado, produziu algo que ninguém esperava: o time mais revolucionário de sua época.
Sob o comando do técnico Gusztáv Sebes, os húngaros abandonaram o esquema W.M então vigente e adotaram o chamado W.W, uma formação na qual os jogadores trocavam de posições constantemente, confundindo as marcações rígidas da época e criando o embrião do que anos mais tarde viria a ser chamado de Futebol Total.
Era um novo conceito de futebol, com Nándor Hidegkuti atuando por exemplo como o primeiro “falso 9” da história, aquele atacante que recua para os pontas e os meias ataquem os espaços deixados pela defesa rival. Hoje você faz isso na pelada da rua. Mas para os anos 1950, era um conceito revolucionário.

Entre as Copas de 1950 e 1954 a Hungria disputou 30 jogos sem perder?
Mais do que isso. A Hungria ficou invicta por incríveis 32 partidas entre 1950 e 1954, uma sequência que incluiu 28 vitórias e 4 empates, com 144 gols marcados e apenas 36 sofridos. A última derrota antes desse período fora para a Áustria, em maio de 1950.
Durante esse período áureo, a Hungria não se limitou a segurar empates burocráticos para manter a sua invencibilidade. O time atropelava os oponentes com médias de gols astronômicas, combinando técnica refinada e uma preparação física muito superior à de seus rivais europeus, o que transformou a equipe na força mais temida do planeta antes mesmo de pisarem em solo suíço para a disputa do Mundial.
A Seleção da Hungria ganhou o Ouro nas Olimpíadas de 1952 em Helsinque?
O futebol olímpico de 1952 coroou o que já era visível a olho nu nos campos europeus: aquele time húngaro simplesmente jogava em outro nível. A conquista funcionou como o prenúncio perfeito, o cartão de visitas que apresentava ao mundo o “Time de Ouro” antes mesmo de a expressão se popularizar após a impressionante vitória nas Olimpíadas de 1952, realizadas em Helsinque. As expectativas para a Copa do Mundo de 1954 se tornaram enormes, e a Hungria emergia como a favorito incontestável.
Vale lembrar um detalhe. O futebol olímpico daquela era funcionava sob regras severas de amadorismo, o que na prática beneficiava enormemente os países do bloco comunista, cujos jogadores eram formalmente “militares” ou “funcionários públicos” e não profissionais registrados, driblando com elegância burocrática as restrições que barravam estrelas de países ocidentais.
Isso não diminui o mérito técnico da conquista, mas ajuda a explicar por que a Hungria chegava tão beneficiada a esse tipo de disputa, um detalhe que a própria organização do esporte na época deixava passar sem muito pudor. Puskás, por exemplo, tinha a patente de major no Exército Vermelho.

Quem foi esse Puskás?
Ferenc Puskás é amplamente reconhecido como um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos e o grande líder intelectual e técnico da seleção húngara. Conhecido como o “Major Galopante” devido à sua patente militar Puskás possuía um chute de pé esquerdo lendário pela precisão e pela potência inacreditáveis. Ele registrou a marca incrível de 84 gols em 85 partidas oficiais pela seleção da Hungria.
Depois que a União Soviética abafou a Revolução Húngara de 1956, Puskás decidiu não voltar ao país. Acabou suspenso pela FIFA por dois anos, perdeu a forma física e muitos imaginaram que sua carreira havia terminado. Foi então contratado pelo Real Madrid já aos 31 anos, idade considerada avançada para a época. Mas o que parecia um último suspiro transformou-se em um recomeço.
Ao lado de Alfredo Di Stéfano, conquistou três Copas dos Campeões da Europa, cinco Campeonatos Espanhóis e marcou quatro gols na final europeia de 1960 contra o Eintracht Frankfurt. Depois, naturalizou-se espanhol e ainda disputou a Copa do Mundo de 1962 pela Espanha. Seu legado permanece vivo até hoje. Desde 2009, a FIFA entrega anualmente o Prêmio Puskás, destinado ao autor do gol mais bonito da temporada.

O time da Copa de 1954 era o mesmo das Olimpíadas de 1952?
Essencialmente sim, com o núcleo duro mantido intacto: Grosics no gol, a dupla de zaga Lóránt e Lantos, o meio-campo com Bozsik e Zakariás, e o quarteto ofensivo mágico formado por Czibor, Kocsis, Hidegkuti e Puskás. Essa continuidade de elenco era rara para a época e explica boa parte da identidade coletiva do time, que jogava junto havia anos e conhecia de cor os movimentos uns dos outros, algo que nenhuma seleção rival conseguia simular em pouco tempo para treinos.
A campanha da Hungria na Suíça começou de forma devastadora. O massacre de 9 a 0 sobre os sul-coreanos teve três gols de Kocsis e dois de Puskás. No jogo seguinte, os húngaros aplicaram um histórico 8 a 3 na Alemanha Ocidental, mas o duelo trouxe uma consequência trágica: uma entrada violenta do zagueiro alemão Werner Liebrich lesionou o tornozelo de Puskás, que acabou ficando de fora das quartas de final e da semifinal.
O que foi a Batalha de Berna?
O episódio entrou para os anais das Copas como um dos momentos mais antiesportivos e caóticos da história do futebol mundial. A Batalha de Berna é o nome pelo qual ficou conhecido o confronto extremamente violento entre Hungria e Brasil, realizado em 27 de junho de 1954, pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1954. Sob uma chuva persistente que castigou o gramado do Estádio Wankdorf, a partida descambou rapidamente para a trocação generalizada, com pontapés, empurrões e entradas desleais de ambos os lados. O árbitro inglês Arthur Ellis expulsou três jogadores durante o jogo: os brasileiros Nílton Santos e Humberto Tozzi, e o húngaro József Bozsik.
A Hungria venceu a partida por 4 a 2, mas o apito final não encerrou as hostilidades. A briga continuou nos vestiários e nos túneis do estádio, envolvendo atletas, comissões técnicas e dirigentes em uma pancadaria generalizada com direito a garrafas arremessadas. E se tem um lado tragicômico nessa história, ele aconteceu na Guanabara.
Insuflada pela indignação d Mário Vianna no rádio, de que a arbitragem havia sido comprada a favor da Hungria, uma multidão saiu à rua para se vingar, mas errou o alvo por confusão entre Suíça (sede da Copa) e Suécia. E no calor das emoções, os indignados torcedores canarinhos erraram o alvo e apedrejaram a embaixada da Suécia, que sequer havia se classificado para o torneio.

E o que foi o Milagre de Berna?
O Milagre de Berna, por sua vez, é a denominação histórica dada à improvável vitória da Alemanha Ocidental sobre a favorita Hungria por 3 a 2 na grande final da Copa de 1954. Jogando sob forte chuva, os húngaros contaram com o retorno de Puskás e abriram uma vantagem de 2 a 0 com apenas oito minutos de jogo. No entanto, os alemães reagiram rapidamente, empataram ainda no primeiro tempo e conseguiram o gol da vitória aos 84 minutos de jogo com Helmut Rahn.
Vários fatores extracampo ajudaram a construir o milagre alemão. A equipe da Alemanha Ocidental utilizou chuteiras inovadoras de travas rosqueáveis da Adidas, perfeitamente adaptadas para o lamaçal do gramado, enquanto a Hungria sofria com o desgaste físico extremo das batalhas anteriores e com as condições precárias de jogo de um Puskás claramente sem ritmo e longe do ideal físico.

Qual a melhor seleção que nunca ganhou uma copa do Mundo? A Hungria de 1954, a Holanda de 1974, ou o Brasil de 1982?
A comparação evoca as três grandes sinfonias inacabadas do futebol mundial. Taticamente, a Hungria de 1954 foi a pioneira absoluta, introduzindo o conceito de mobilidade total dos atletas e o recuo do centroavante Hidegkuti, que serviu de inspiração direta para o Carrossel Holandês de Rinus Michels e Johan Cruyff em 1974.
Enquanto húngaros e holandeses baseavam seu jogo em dinâmicas de pressão e ocupação racional de espaços, o Brasil de 1982, comandado por Telê Santana, apostava no toque de bola vistoso e no talento individual de um meio-campo genial, que parecia transformar cada partida em espetáculo, e talvez tenha sido a equipe mais talentosa que o país já produziu, um time que jogava como numa dança.
O que une as três é a sensação de que os deuses do futebol, em sua crueldade, preferiram a eficiência à beleza. Mas há uma diferença: a Hungria de 1954 não apenas encantava, ela atropelava. Marcou 27 gols em cinco jogos, um recorde que ninguém superou. O futebol da Hungria era revolucionário, avassalador e, mesmo assim, insuficiente. Se a Holanda e o Brasil foram vítimas do destino, a Hungria foi vítima de um raio num dia de sol. O ponto comum entre os três esquadrões é o legado imaterial. Todos são mais lembrados e reverenciados pelo futebol arte do que os próprios campeões daquelas Copas.


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