Em junho de 1938, enquanto Adolf Hitler completava a anexação da Áustria, Benito Mussolini trocava telegramas com seus jogadores e a Espanha sangrava numa guerra civil que proibia seu futebol de existir, um jovem carioca de 1,68 metro e pé número 36 se tornou a primeira estrela global do futebol brasileiro — jogando descalço na lama de Estrasburgo, de bicicleta nas quartas de final e sem poder entrar em campo na semifinal mais importante de sua vida. A Copa do Mundo de 1938, realizada na França entre os dias 4 e 19 de junho, foi a última antes do maior conflito da história humana, e o retrato mais fiel de um continente que já havia começado a entrar em colapso. Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, não foi apenas o melhor jogador e artilheiro da competição: foi o primeiro atleta preto a ter sua imagem explorada comercialmente por uma grande marca e o símbolo de uma era que o futebol nunca mais repetiria. 

O torneio reuniu apenas 15 seleções, e mesmo assim cheias de ausências, traumas políticos e boicotes. Argentina e Uruguai recusaram-se a participar porque a Fifa insistiu em realizar o torneio na Europa pela segunda vez consecutiva, ignorando a alternância de sedes que os sul-americanos exigiam. A Espanha estava proibida de existir pela guerra civil. A Áustria havia sido simplesmente varrida do mapa pelos nazistas três meses antes do apito inicial. Quando a bola começou a rolar no Stade de la Meinau, em Estrasburgo, o mundo se preparava, sem saber, para assistir tanto ao início de uma lenda quanto ao crepúsculo de uma época. 

O que aquelas semanas de junho na França guardavam era uma contradição histórica das mais devastadoras: nunca o futebol havia sido tão belo e tão ameaçado ao mesmo tempo. Leônidas faria gols descalço e um de bicileta que o juiz anulou porque nunca tinha visto aquilo. Uma partida entre Brasil e Tchecoslováquia entraria para a história como a mais violenta da competição. Um italiano fez um gol de pênalti segurando os calções nas mãos. E um craque austríaco seria encontrado morto meses depois de recusar-se a vestir a camisa da Alemanha nazista. A Copa de 1938 foi, ao mesmo tempo, um torneio de futebol e um documento de época.  

A Copa de 1938 marcou o fim de uma era no futebol (Crédito: Reprodução)

O retrato de um mundo que não existe mais: por que a Copa de 1938 é única na História 

Bem, a Copa de 1938 é com frequência descrita por historiadores e jornalistas esportivos como o retrato fiel de uma era irrecuperável. Não apenas pelo contexto político, mas pela própria composição do torneio. Nenhuma Copa do Mundo antes ou depois concentrou tantos eventos políticos diretamente conectados à competição. A Espanha, que possuía uma equipe promissora, foi obrigada a se retirar das eliminatórias devido à Guerra Civil. A federação austríaca foi dissolvida 80 dias antes da abertura do torneio após a anexação do país pela Alemanha nazista. A Itália jogou de preto, simbolizando o regime fascista de Mussolini. E nem a Inglaterra cogitou participar, pois, ainda considerava a Copa um torneio sem expressão. 

Pouco tempo depois da final vencida pela Itália, em junho daquele ano, a Europa mergulharia em uma guerra que arrastaria o mundo e mudaria completamente o curso da história. O troféu Jules Rimet, aliás, só sobreviveu à guerra porque o vice-presidente italiano da Fifa, Ottorino Barassi, o escondeu em uma caixa de sapato sob sua cama, salvando-o assim de cair em mãos alheias. Uma vergonha para a CBF, que mais tarde perderia o troféu num roubo, e mais uma prova de que a simplicidade é a maior de todas as sofisticações, como ensinava Leonardo da Vinci.

Como o “Anschluss” calou a poderosa Áustria 

Apontada como uma das favoritas a vencer a competição, a seleção da Áustria praticava um futebol refinado, técnico e muito à frente de seu tempo. Características que lhe valeram o apelido de “Wunderteam” (Time Maravilha). O time, que segundo os jornais europeus jogava um “futebol de champagne”, enfileirou 14 vitórias consecutivas contra diferentes seleções europeias 12 de março de 1938, quando tudo acabou. Com o “Anschluss”, a anexação da Áustria pela Alemanha nazista em março de 1938, a seleção austríaca foi dissolvida. 

Com isso a Fifa se viu em um impasse regulamentar, pois a Áustria já estava na tabela. O torneio ficou com apenas 15 equipes, e a Suécia, que enfrentaria os austríacos na primeira fase, avançou automaticamente para as quartas, no único “W.O.” da história das Copas. 

Tanques alemães recebidos com festa em Viena (Crédito: Reprodução)

O triste fim do “Mozart do futebol” 

Com o território absorvido pelo Terceiro Reich, a seleção austríaca foi sumariamente dissolvida e seus jogadores foram forçados a defender a bandeira da Alemanha na Copa, destruindo uma das equipes mais bonitas do futebol europeu.  Nem todos, porém, aceitaram a jogar ao lado dos nazistas.  Entre eles estava Matthias Sindelar, o maior craque da história do futebol austríaco. Dono de enorme habilidade técnica, era chamado de Der Papierene, algo como “O Homem de Papel”, devido ao físico magro e elegante. Foi o líder e símbolo do Wunderteam. 

 Matthias Sindelar, craque de bola e herói da resistência austríaca

Oficialmente, ele alegou problemas de saúde para não jogar, mas muitos acreditam que sua posição foi um ato deliberado de resistência. O preço de tanta dignidade foi cobrado rapidamente. Sindelar abriu um café em Viena e começou a ser perseguido pela Gestapo por sua recusa em colocar qualquer tipo de propaganda nazista em seu estabelecimento. Em 23 de janeiro de 1939, Sindelar foi encontrado morto em seu apartamento ao lado de sua namorada italiana, Camilla Castagnola. Segundo o laudo oficial, e nazista, a causa mortis foi asfixia por monóxido de carbono. Mas a versão do acidente nunca convenceu ninguém que conhecia sua história. 

Cartaz oficial da Copa do Mundo de 1938

O nascimento de uma estrela global 

Leônidas da Silva não era um estreante em Copas do Mundo. Ele jogou contra a Espanha na Copa de 1934 e marcou o único gol brasileiro na partida, que terminou 3 a 1 e eliminou o Brasil naquela competição. Em 1938 ele encontraria a consagração mundial. Um de seus apelidos “Homem de Borracha” não era apenas pitoresco, era uma tentativa de descrever algo que os vocabulários esportivos da época simplesmente não tinham ferramentas para explicar.

Sua elasticidade muscular era extraordinária, permitindo posições durante as cobranças que pareciam anatomicamente impossíveis. A bicicleta _ o chute de costas para o gol com a bola no alto _ virou sua marca registrada. No famoso jogo contra a Polônia, sobre o qual falaremos adiante, ele chegou a marcar um gol de bicicleta. Mas o juiz anulou a jogada por nunca ter visto aquilo antes. 

O “Diamante Negro” e a jogada que o consagrou (Crédito: Reprodução)

A Lenda da lama de Estrasburgo 

O gol de bicicleta de Leônidas pode ter sido anulado, mas em compensação, ele iria fazer algo ainda mais inacreditável naquele que ficou conhecido como um dos jogos mais épicos da história do futebol. No dia 5 de junho de 1938, no Stade de la Meinau, em Estrasburgo, o Brasil enfrentou a Polônia debaixo de um temporal que transformou o campo em um lamaçal. 

Foi na prática uma pelada de 11 gols em um gramado de condições tão impróprias que jamais seria liberado para uma partida atualmente. O Brasil venceu por 6 a 5, com três gols de Leônidas, dois de Perácio e um de Romeu. A Polônia devolveu com um de  Szerfke e quatro de Willimowski, uma marca que só foi superada em 1994 pelo russo Oleg Salenko. O lado sombrio da história é que o artilheiro polonês resolveu defender a Alemanha durante a guerra, e após a derrota foi considerado um traidor em seu país.  

Em compensação, Leônidas marcou um de seus três gols de uma maneira sensacional: descalço! Nunca se soube ao certo se sua chuteira se rompeu ou escorregou no lamaçal. Em vez de interromper o jogo, o atacante brasileiro, acostumado com as peladas de rua, simplesmente continuou a jogada sem uma das chuteiras. 

Acostumado às peladas de rua, Leônidas fez até gol descalço (Recriação de IA)

A “Batalha de Bordeaux” 

Em 12 de junho de 1938, o Stade du Parc Lescure, em Bordeaux, tornou-se palco de um Brasil e Tchecoslováquia que ficou marcado como um dos confrontos mais lendários e brutais da história das Copas do Mundo: três expulsões e 14 contundidos sendo que dois tiveram fraturas: o goleiro Plánička, com o braço quebrado, e o artilheiro Nejedlý, com a perna fraturada.  

O empate em 1 a 1 forçou um jogo de desempate dois dias depois. O número de expulsos só foi superado 68 anos depois, no duelo entre Portugal e Holanda de 2006, que teve quatro atletas recebendo o cartão vermelho. Leônidas marcou o único gol brasileiro no empate, mas saiu do jogo de desempate debilitado pelas pauladaria acumulada. 

Por uma das mais bizarras decisões do futebol brasileiro, aquele foi o último jogo de Leônidas naquela Copa. Seus gols, dribles e improvisações chamaram a atenção da imprensa europeia que garantiu a ele reconhecimento internacional. 

Pela primeira vez, um jogador brasileiro transformava-se em celebridade mundial do futebol. Antes de Pelé, Garrincha ou Zico, foi Leônidas quem apresentou ao planeta a ideia do futebol brasileiro como espetáculo artístico. Seu sucesso ajudou a criar a imagem internacional do Brasil como país do drible e da criatividade em campo.  

Leônidas, o primeiro craque mundial do futebol brasileiro (Crédito: Reprodução)

 A Decisão Fatal 

Na semifinal contra a Itália, em Marselha, o técnico Adhemar Pimenta tomou a controversa decisão de poupar Leônidas da Silva e o atacante Tim, alegando que ambos estavam com lesões ou muito desgastados fisicamente após a extenuante “Batalha de Bordeaux”. E isso deu pano para manga por muito tempo. 

A versão que correu o país na época era que a comissão técnica brasileira já dava a vitória contra a Itália como certa, chegando a planejar a viagem para Paris antes mesmo de jogar a semifinal. Só que a realidade era mais dura que apenas achar um culpado. 

O próprio Leônidas escreveu aos jornais que estava debilitado pela pancadaria que sofrera nos dois jogos contra a Tchecoslováquia. E aquele jogo contra a Itália não era um jogo qualquer. 

“Il Vecchio Maestro” e um gol segurando os calções com as mãos 

O Brasil e Itália disputado em 16 de junho de 1938 foi um dos maiores e mais engraçados clássicos da história do futebol mundial. No comando da azzurra estava Vittorio Pozo, um dos maiores treinadores de futebol de todos os tempos, conhecido como “Il Vecchio Maestro” e o único a vencer duas Copas do Mundo consecutivas até hoje. 

Vittorio Pozo, único treinador a vencer duas Copas seguidas (Crédito: Reprodução)

Sua reputação, porém, ficou arranhada, por suas ideias de direita e proximidade com Mussolini, que dava palpites nos jogos, esporros no técnico e nos jogadores. Nunca restou comprovado sua filiação ao Partido Fascista. Mas, para dar uma ideia do quanto seu filme estava queimado após a guerra, a proposta de seu nome batizar o estádio de sua cidade natal, Turim, construído para a Copa de 1990, foi recusada e o campo recebeu o nome de Delle Alpi. 

Mas o melhor desse jogo foi um dos episódios mais hilários da história das Copas. Após uma falta dura de Domingos da Guia em Silvio Piola o juiz marcou pênalti contra o Brasil. Ao se preparar para a cobrança, o capitão italiano Giuseppe Meazza resolveu amarrar melhor o calção, mas acabou rompendo o cordão.

Meazza segura o calção para fazer a cobrança (Recriação de IA)

Assim, com a mão na cintura para segurar o calção, ele converteu o pênalti, no ângulo direito. Ao comemorar o gol, Meazza levantou os dois braços e deixou o calção cair, em uma cena hilária que deve ter provocado desmaios em boa parte das damas nas arquibancadas. Testemunhas dizem que até Walter, o goleiro do Brasil caiu na gargalhada. 

Artilheiro e precursor do marketing esportivo 

Leônidas perdeu aquela Copa, mas saiu como melhor jogador do torneio, artilheiro com sete gols, e, numa época em que o conceito de “direito de imagem” mal existia tornou-se inadvertidamente o precursor de todo o marketing esportivo moderno.  A história começou quando o chocolate ao leite crocante da tradicional fabricante Lacta foi lançado no mercado brasileiro em 1932 com o nome simples de Chocolate Lacta. Em 1938, a fama de Leônidas na Copa do Mundo inspirou a empresa a rebatizar o produto de Diamante Negro, outro de seus apelidos. 

A negociação, pelo padrão atual, beira o absurdo. A diretoria da Lacta não sabia nem quanto deveria pagar ao jogador. Acabou fechando o acordo por dois contos de réis, o que, convertendo para valores de hoje, daria algo como uma merreca de 250 mil reais.  E Leônidas nem gostava do chocolate que levou seu nome. Pelo sucesso dentro de campo, o ex-atacante também foi rosto de marcas como Kolynos, Emagrina, cigarros Sudar e teve até uma linha de relógios que levava seu nome. Boa parte delas ficou no passado, mas o Diamante Negro é até hoje um sucesso comercial no Brasil. 

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