A maior façanha de Gana numa Copa do Mundo não foi um gol, uma defesa milagrosa ou uma penalidade perdida. Foi, na verdade, não jogar. Em outubro de 1964, as 15 seleções africanas então filiadas à FIFA lideradas pelo país que na época era bicampeão continental boicotaram unilateralmente a Copa de 1966 na Inglaterra, deixando o maior torneio de futebol do planeta sem nenhum representante africano. O arquiteto político desse ato de desobediência coletiva foi Kwame Nkrumah, o primeiro presidente da Gana independente, que transformou o futebol em arma diplomática numa época em que a maioria dos países da África nem sequer existia como nação soberana há uma década. 

Meio século depois, Gana continua proporcionando momentos que parecem ter saído de um roteiro de cinema, ou de uma novela das oito, dependendo do dia. Já teve jogadores ameaçando não entrar em campo por falta de pagamento, um bruxo famoso jurando que ia enfeitiçar Cristiano Ronaldo e até um uniforme maneiríssimo que a FIFA, essa chata de galochas, não deixa o time usar. 

Se o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes, como diz o poeta, Gana faz questão de provar que as menos importantes podem ser também as mais divertidas. 

Mausoléu de Kwame Nkrumah, em Acra, Gana (Crédito: Reprodução)

Gana: a Estrela Negra que batizou um time 

Para quem não tem intimidade, Gana fica na costa oeste da África, e é uma das economias mais estáveis do continente. Até 1957, o território era conhecido como Costa do Ouro (Gold Coast) e estava sob domínio britânico. Em 6 de março de 1957, Gana tornou-se o primeiro país da África subsaariana a obter independência do domínio colonial, um marco que ecoou por todo o continente e lançou o novo Estado imediatamente ao centro das aspirações panafricanas. 

O nome do time nacional, Estrelas Negras (Black Stars), é uma homenagem à Estrela Negra da África presente na bandeira de Gana, ela própria um símbolo panafricano de liberdade e unidade inspirado na Black Star Line de Marcus Garvey. Nascido em 1887, na Jamaica, ele foi um dos maiores defensores do movimento que buscava unir os povos africanos e suas diásporas em torno da independência cultural, política e econômica. Suas ideias influenciaram líderes como Malcolm X e Kwame Nkrumah, além de inspirar o movimento Rastafári, que o vê como um profeta, como se percebe em alguns dos maiores sucessos de Bob Marley ou Peter Tosh.

Marcus Garvey, o grande profeta do Panafricanismo, que influenciou até o reggae jamaicano (Crédito: Reprodução)

Um presidente que usou o futebol como manifesto 

Kwame Nkrumah nasceu em 1909 na então Costa do Ouro, estudou filosofia e teologia nos Estados Unidos, doutorando-se em filosofia pela Universidade da Pensilvânia, e voltou à África impregnado das ideias do panafricanismo de figuras como Marcus Garvey. Tornou-se o primeiro primeiro-ministro e depois o primeiro presidente de Gana, governando de 1957 a 1966, quando foi derrubado por um golpe militar enquanto estava em visita oficial ao exterior.  

Nkrumah é considerado um dos pais fundadores do Pan-Africanismo. Sua trajetória combinou uma visão política extraordinária com um autoritarismo crescente que o tornou uma figura contraditória: fundou universidades, hospitais e infraestrutura, mas também suprimiu oposições, prendeu adversários e construiu um culto à personalidade que o levou a acumular títulos como “Osagyefo” (o Redentor).  

Para Nkrumah, a independência formal de Gana não era o fim do projeto, mas o começo: ele sonhava com um Estado panafricano unificado e enxergava em cada vitória ganesa, fosse no tabuleiro político ou no campo de futebol, uma prova da capacidade intelectual e organizacional do homem negro. 

Kwame Nkrumah, presidente de Gana e um um dos pais fundadores do Pan-Africanismo (Crédito: Reprodução)

O puro sumo de stalinismo no futebol 

A ascensão meteórica das Estrelas Negras no futebol internacional foi uma política de Estado. Nkrumah incumbiu o presidente da Federação Ganesa  Ohene Djan, de transformar a seleção de Gana em “uma vitrine no continente africano”. Os resultados foram espetaculares no plano regional: Gana venceu a Copa das Nações Africanas de 1963, que sediou, e repetiu o feito em 1965, na Tunísia. Charles Kumi Gyamfi assumiu o comando em 1961 e as Estrelas Negras conquistaram títulos africanos consecutivos em 1963 e 1965, além de registrarem sua maior vitória histórica, 13 a 2 sobre o Quênia. 

A estratégia de Nkrumah era de dar orgulho ao ditador baixinho e bigodudo soviético. Primeiro, no começo dos anos 1960, foi criado um superclube chamado Real Republikans, nome, por óbvio, inspirado no Real Madrid. E aí veio o tapa da pantera. Dois dos melhores jogadores de cada clube ganês foram transferidos compulsoriamente para o Real Republikans, com o objetivo de formar um grupo forte elevar o padrão da seleção nacional. Era uma espécie de realpolitik na veia, ou na canela.   

O Estado concentrou o talento onde achava mais eficiente, sem muita consulta aos envolvidos. A seleção funcionava bem. Já os clubes, com seus melhores jogadores confiscados, não ficaram exatamente felizes, mas o projeto nacional marchava célere. A Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, parecia ao alcance das Estrelas Negras. E a seleção da época, conhecida como a “geração de ouro” de Osei Kofi e companhia, tinha talento de sobra para isso. 

Mas o destino, ou melhor, a FIFA, tinha outros planos. 

Os Real Republikans, no início dos anos 1960, com alguns troféus conquistados (Crédito: Reprodução)

O escândalo das vagas 

Em janeiro de 1964, a FIFA anunciou a distribuição das 16 vagas para a Copa de 1966 na Inglaterra. A Europa recebeu 10 vagas, a América do Sul quatro e a América do Norte uma.  África, Ásia e Oceania teriam de disputar entre si uma única vaga. Três continentes inteiros numa peleja de sobrevivência pela última cadeira dessa dança maluca. Gana protestou. 

Para piorar a equação política, a África do Sul foi incluída no grupo, o que significava que as nações africanas poderiam ser obrigadas a enfrentar o regime do Apartheid numa mesma chave. A África do Sul havia sido expulsa da Confederação Africana de Futebol em 1958 justamente por suas as políticas racistas, mas a FIFA a havia reintegrado ao cenário internacional em 1963. Isso era, para os países africanos recém-independentes, uma afronta dupla: além de receber uma única vaga para um continente inteiro, seriam forçados a legitimar com suas presenças o regime segregacionista. O pavio estava aceso. 

O panafricanismo mostra suas garras 

Em outubro de 1964, todos os 15 países então filiados à Confederação Africana de Futebol boicotaram a competição de forma unânime. Era um gesto sem precedentes na história do esporte: um continente inteiro se retirando do maior torneio de futebol do mundo em nome de princípios políticos. O boicote demonstrou que os africanos também sabiam jogar o jogo da política global, usando plataformas ocidentais e táticas como votação em bloco, barganha coletiva e mobilização política para conseguir mudanças na FIFA. 

A vaga que seria africana acabou sendo ocupada pela Coreia do Norte, que terminou como uma das revelações do torneio. Mas a FIFA havia aprendido uma lição amarga. E sendo FIFA, para a Copa de 1970 foi concedida uma vaga exclusiva para a África e outra para a Ásia. A influência dos continentes no torneio só cresceria nas décadas seguintes. 

O primeiro vexame mundial 

Foi um dos momentos mais surreais da Copa do Mundo no Brasil em 2014. Revoltados por não terem recebido os bônus prometidos pela classificação ao torneio, os jogadores pararam de treinar dias antes do primeiro jogo contra Portugal. O próprio presidente John Dramani Mahama telefonou para a concentração garantindo que todos receberiam o pagamento. Mas o clima já estava tão pesado, após várias promessas não cumpridas, que o time se recusou a receber por transferência bancária.  Queria dinheiro na mão.

A solução, foi mandar um avião fretado com cerca de US$ 3 milhões em dinheiro vivo para o Brasil. As imagens do zagueiro John Boye beijando maços de dólares no hotel da delegação se espalharam pelo mundo e se tornaram um dos momentos mais icônicos e e polêmicos da Copa. Gana acabou perdendo para Portugal por 2 a 1 e foi eliminada na fase de grupos. Mas não sem antes apelar mais uma vez. 

Nana Kwaku Bonsam : um bruxo para quebrar Cristiano Ronaldo 

Antes da partida com Portugal, o mundo do futebol iria se espantar com Gana mais uma vez. Nana Kwaku Bonsam, descrito como um sacerdote e curandeiro ganês, anunciou numa rádio local que havia causado lesões graves em Cristiano Ronaldo. “Eu disse quatro meses atrás que trabalharia seriamente em Cristiano Ronaldo para tirá-lo da Copa do Mundo ou pelo menos impedi-lo de jogar contra Gana. Eu disse que farei o possível para mantê-lo lesionado”, afirmou. 

Usando uma fotografia e poções especiais colocadas ao redor da imagem do craque, além de um ritual envolvendo o sacrifício de quatro cachorros para convocar um espírito, o feiticeiro afirmava ter causado uma série de lesões ao jogador que os médicos não conseguiam diagnosticar. “Esta lesão jamais poderá ser curada por qualquer médico, porque é espiritual. Hoje é o joelho, amanhã é a coxa, depois é outra coisa”, declarou. O episódio teve cobertura mundial e transformou o bruxo em celebridade. 

Cristiano Ronaldo jogou a partida contra Gana e fez o gol da vitória portuguesa por 2 a 1. Gana e Portugal foram eliminados na fase de grupos, já que a seleção ganesa não conseguiu avançar apesar dos esforços espirituais de Bonsam. Quanto ao feitiçeiro, Cristiano Ronaldo jamais disse nada publicamente. 

Nana Kwaku Bonsam, o “feiticeiro” que virou celebridade mundial (Crédito: Reprodução)

O uniforme que a FIFA não deixa usar 

O uniforme principal de Gana para a Copa de 2026 é considerado por muitos analistas o mais ousado e culturalmente rico do torneio. A Puma desviou da tradição em sua tentativa de se apoiar na herança ganesa por meio de um design multicolorido que homenageia Kwaku Ananse, a lendária figura da aranha do folclore da África Ocidental. A icônica Estrela Negra domina o centro, com os cinco pontos se ramificando numa teia.  

O uniforme que talvez a gente nunca veja em campo (Crédito: Reprodução)

Kwaku Ananse (também escrito Anansi) é uma das figuras mais importantes do folclore da África Ocidental, especialmente entre o povo Akan de Gana. Ele é representado como uma aranha com características humanas, e suas histórias giram em torno de sua astúcia, inteligência e habilidade de enganar adversários mais fortes e poderosos. O personagem simboliza sabedoria, criatividade e resiliência, qualidades que a seleção ganesa esperava levar para os gramados. 

O problema é que o uniforme tem base branca, o que o tornou vítima de um regulamento da própria FIFA. A regra prioriza, sempre que possível, o contraste entre uma camisa escura e uma camisa clara nos jogos, para acomodar telespectadores com deficiência de visão das cores. As Estrelas Negras jogam o Grupo L contra Panamá, Inglaterra e Croácia, e qualquer possibilidade de ver o uniforme de Kwaku Ananse em campo depende inteiramente de Gana avançar para a fase eliminatória. Um país que derrubou a FIFA com um boicote de um continente inteiro em 1964, portanto, encontrou na regulamentação de acessibilidade para daltônicos o inimigo mais recente do seu simbolismo cultural.

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