A incrível história da aviadora dada como morta e que foi encontrada viva em Araruama

Jean Batten cruzou o Atlântico Sul em um voo solo, de Londres até o Brasil, em 1935. Quando voava de Salvador para o Rio, o avião desapareceu.

A neozelandesa Jean Batten fez história em 1935 ao cruzar o Atlântico Sul em um voo solo, saindo de Londres, na Inglaterra, e pousando em Natal, no Brasil. O que quase ninguém sabe, é que em terras brasileiras a aviadora escreveria outro capítulo surpreendente. Quando saiu do Nordeste rumo ao Rio de Janeiro, o avião de Jean Batten desapareceu, causando uma comoção mundial pela suposta tragédia, que, felizmente, teve um final feliz. Ela foi encontrada viva, em uma pequena vila de pescadores em Araruama, na Região dos Lagos.

A surpreendente história do desaparecimento de Jean Batten é contada na (excelente) série documental ‘O século do Globo’, que estreou esta semana no Globoplay. Logo no primeiro capítulo, o jornalista e apresentador Pedro Bial (que também dirige a produção), descreve a história de Jean Battem e como ela mudaria para sempre os rumos de um dos maiores jornais do país.

Registro da aeronave de Jean Batten em Araruama – Reprodução/Globoplay

Encontrada viva por um furo de reportagem

Bial conta que a obsessão pelo furo de reportagem era uma das características de Roberto Marinho, que tinha assumido o jornal dez anos antes do feito de Jean Batten. Quando surgiu a notícia de que o avião tinha desaparecido após decolar de Salvador rumo ao Rio de Janeiro, todos os jornais noticiaram o desaparecimento e por consequência a morte da aviadora. Ou quase todos.

Vista aerea do local onde o avião de Jean Batten foi encontrado em Araruama / Reprodução

“Quando ela saiu de Natal com destino ao Rio de Janeiro, entre Salvador e o Rio de Janeiro, o avião dela desapareceu. Todos os jornais começaram a noticiar o desaparecimento, e por consequência a morte de Jean Batten. Roberto Marinho aciona três repórteres: um por avião, outro por mar e outro por terra para tentar localizar a Jean Batten. O Alvares Pinheiro e o fotógrafo seguiram rumo ao norte do litoral fluminense e chegam a Araruama. Depois de andarem muito por um areal, eles encontraram a Jean Batten viva, numa rede, numa aldeia de pescadores. Voltaram com esse furo extraordinário, enquanto todos os jornais estavam falando sobre o desaparecimento e morte de Jean Batten, eles entram com a noticia de que ela estava viva e que foi localizada pelos repórteres de o Globo”, conta Bial.

Os jornalistas de O Globo que descobriram o paradeiro de Jean Battem em Araruama – Reprodução/Globoplay

Muito mais do que uma simples aventureira

Jean Batten foi muito mais do que uma aventureira dos céus. Nascida em 1909, na Nova Zelândia, ela marcou a história da aviação mundial ao se tornar uma das primeiras mulheres a realizar voos de longa distância sozinha, desafiando barreiras técnicas, sociais e de gênero. Mas sua história, que começou com aplausos e manchetes, terminou com silêncio e esquecimento — em uma vala comum na Espanha.

Jean Gardner Batten começou sua trajetória como pianista, mas trocou o teclado pelo manche ao ser inspirada por Charles Kingsford Smith, pioneiro da aviação australiana. Aos 18 anos, decidiu que queria voar — e voou alto. Com apoio da mãe, que sempre incentivou sua paixão, Jean ingressou no London Aeroplane Club e, já em 1930, realizava seus primeiros voos solo. A licença de piloto comercial veio antes de 1932, graças a empréstimos de amigos e apoiadores.

Jean Batten em 1937 / Keystone-France/Getty Image

Voando para a história

Foi em maio de 1934 que Jean Batten conquistou seu lugar definitivo na história. A bordo de um frágil biplano Gipsy Moth, ela ligou a Inglaterra à Austrália em 14 dias e 22 horas, superando em mais de quatro dias o recorde anterior de Amy Johnson. Em 1936, ela foi ainda mais longe: realizou o primeiro voo solo entre a Inglaterra e a Nova Zelândia, um feito inédito.

Essas proezas renderam a Jean inúmeros prêmios, incluindo o prestigioso Harmon Trophy por três anos consecutivos. Contratada pela Castrol, ela também publicou seu livro Solo Flight e tornou-se uma celebridade internacional, reverenciada por sua bravura.

Jean Batten em 1935, ano em que fez história na aviação / Getty Image

Batten teve seu primeiro contato com a aviação ainda criança, mas foi com o apoio obstinado de sua mãe, Ellen, que transformou seu sonho em realidade. Após conquistar a licença de piloto comercial na Inglaterra em 1932, enfrentou inúmeras dificuldades para financiar suas viagens — muitas vezes recorrendo a relacionamentos pessoais para conseguir apoio financeiro.

Sua determinação rendeu feitos históricos. Com uma coragem fora do comum e determinação implacável, ela se tornou a mulher mais famosa da Nova Zelândia em sua época, quebrando recordes e fronteiras na aviação. Em 1935, como já contado aqui, tornou-se a primeira mulher a cruzar o Atlântico Sul em um voo solo, de Londres até o Brasil, em 61 horas — um marco que lhe rendeu a condecoração com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, no Brasil. No ano seguinte, fez o primeiro voo direto da Inglaterra até a Nova Zelândia, consolidando seu nome como ícone da aviação mundial.

Reclusão e morte trágica

Apesar do sucesso, Jean Batten nunca se casou e vivia reclusa, frequentemente na companhia da mãe. Após a morte dela, em 1966, Batten passou a viver isolada em diferentes partes da Europa, até desaparecer completamente dos holofotes.

Seu paradeiro permaneceu um mistério até 1987, quando veio à tona uma revelação chocante: Jean Batten havia morrido em 22 de novembro de 1982, em Maiorca, após ser mordida por um cachorro. Ela recusou tratamento médico e faleceu por complicações decorrentes de um abscesso pulmonar. Sem documentos ou contatos, foi enterrada como indigente — sem que o mundo sequer soubesse.

Jean Batten morreu na Espanha, em 1982, e foi enterrada como indigente / Getty Image

Jean Batten foi enterrada em uma cova anônima, longe dos aplausos que marcaram sua vida nos céus. Sua história, que mistura glória, superação e solidão, é um lembrete de como mesmo os maiores ícones podem ser esquecidos — até que alguém se lembre de contá-los de novo.

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