Em 17 de dezembro de 1928, o pacato bairro de Sepetiba tornou-se momentaneamente o improvável centro do sistema solar quando o astrônomo inglês Richard Mansfield Robinson aportou em suas areias para explorar novos mundos e procurar novas vidas e novas civilizações. Audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve. Ao menos pelas ondas do rádio. Enquanto o mundo se perdia em conflitos terrenos, Robinson acreditava que a paz, ou quem sabe um papo-cabeça intergalático, estava ao alcance de um sinal da renomada Companhia Radiotelegráfica Brasileira. 

Era o auge de uma era onde a fronteira entre a ciência e o delírio era tão tênue quanto a atmosfera de Vênus, e Robinson, com sua inabalável fleuma britânica, parecia não notar que era meio estranho buscar inteligência extraterrestre partindo de um posto telegráfico formado por torres de 250 metros de altura, cercado por matas e manguezais.   

O jornal A Noite, em sua edição daquele dia, registrou o evento com a sobriedade que apenas o jornalismo da época conseguia manter diante do bizarro, descrevendo o esforço de Robinson como um marco da audácia humana. Mal sabiam os leitores que aquela recepção calorosa em Sepetiba seria retribuída da forma mais britânica que poderia vir das profundezas do vácuo sideral. 

A superfície do planeta vermelho (Crédito: Reprodução)

A Obsessão de uma Época 

Para entender por que um astrônomo britânico achou razoável viajar ao Brasil para chamar Marte pelo rádio, é preciso recuar ao outono de 1877. Naquele ano, o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli, diretor do Observatório de Brera, em Milão, observou o planeta durante uma oposição (o momento em que Marte se alinha com a Terra e o Sol, chegando à menor distância possível de nosso planeta) e registrou uma série de linhas finas que cortavam a superfície avermelhada. 

No trabalho realizado em 1877, ele deu a elas o nome de canali, palavra italiana para “canais” no sentido de “leitos” ou “sulcos”, sem necessariamente implicar construção inteligente. O problema é que canali foi traduzido para o inglês como canals. E canais, em inglês, são obras de engenharia, não caprichos geológicos. E assim mais um equívoco linguístico havia acabado de inflamar o mundo.  

A fagulha encontrou o pó de pólvora perfeito na figura de Percival Lowell, um milionário de Boston com tempo, dinheiro e entusiasmo às vezes mais intenso do que aconselha a prudência. Lowell publicou suas teorias em três livros: Mars (1895), Mars and Its Canals (1906) e Mars As the Abode of Life (1908). Com esses escritos, mais do que qualquer outro, ele popularizou a crença de que as marcas na superfície marciana indicavam a presença de formas de vida inteligentes. Não bastasse isso, fundou um observatório inteiro no Arizona (que ainda existe hoje) dedicado quase que exclusivamente a espiar o planeta vizinho.

Uma obsessão planetária muito antes do Elon Musk 

A “mania de Marte” não era fenômeno marginal. Astrônomo amador, Lowell apontou seu observatório particular para o planeta durante 15 anos seguidos e ficou obcecado com o que enxergava como uma rede de linhas que cruzavam a superfície marciana. Lowell deu palestras, foi a jornais, disse que a vida em Marte era um fato incontornável. 

O francês Camille Flammarion, em 1892, havia publicado um trabalho enciclopédico de quinhentas páginas sobre o planeta. H. G. Wells, em 1898, publicou A Guerra dos Mundos, na qual os marcianos invadem a Inglaterra. Um romance que, quarenta anos depois, em uma icônica adaptação radiofônica de Orson Welles, ainda seria capaz de causar pânico genuíno na população dos Estados Unidos. 

Essa obsessão se tornou de tal ordem, que em agosto de 1924, durante uma oposição particularmente favorável em que Marte se aproximou a apenas 56 milhões de quilômetros da Terra, o governo norte-americano tomou partido. Os Estados Unidos promoveram um “Dia Nacional de Silêncio no Rádio” durante um período de 36 horas, de 21 a 23 de agosto, com todos os rádios em silêncio por cinco minutos a cada hora.  

O astrônomo David Todd havia persuadido o Exército e a Marinha a usar suas estações receptoras para escutar qualquer sinal incomum. O criptógrafo-chefe do Exército americano foi designado para decifrar eventuais mensagens marcianas. Nenhuma mensagem chegou. Mas isso não deteve ninguém. 

O Observatório Lowell, no Arizona (Crédito: Reprodução)

As Antenas de Sepetiba 

Mas por que Sepetiba? A resposta é técnica, e prosaica, o que não a torna menos curiosa. No final da década de 1920, a Companhia Telegráfica Brasileira operava naquela localidade, às margens da baía homônima, uma das instalações de radiotelegrafia de maior potência do mundo, um feito que despertava a curiosidade internacional. 

Segundo registro dos Anais do Senado em 1926, quando foi inaugurada a estação tinha 12 mastros de 250 metros de altura cada um, pesando cerca de 140 toneladas por torre. Para compara, o Cristo Redentor tem 38 metros, e o Edifício Itália, no Centro daquela estranha cidade cinza ao Sul do país, tem 165 metros. Isso significa que as torres de Sepetiba tinham altura próxima a um prédio de cerca de 80 andares. Era um colosso tecnológico enfiado na Zona Oeste antes mesmo de muita gente ter telefone em casa. 

Essas antenas da estação eram utilizadas para comunicações de longa distância, incluindo transmissões transoceânicas. Para alguém que queria enviar um sinal ao espaço (ou pelo menos tentar), aquelas estruturas representavam a melhor infraestrutura disponível no hemisfério sul. 

E aqui há um detalhe geográfico que certamente não passou despercebida pelos mais atentos. A oposição de Marte de 1924, a mais próxima do século, havia sido amplamente aproveitada no hemisfério norte. Em 1928, outra oposição se aproximava, e Marte ficaria mais visível e acessível a partir de latitudes meridionais. O Brasil, e mais especificamente a Guanabara, oferecia uma janela privilegiada para o planeta vermelho. 

Havia também uma questão de disponibilidade. O programa norte-americano de 1924 foi liderado por David Peck Todd com a assistência militar do Almirante Edward W. Eberle, com o criptógrafo William F. Friedman designado para traduzir eventuais mensagens marcianas. Mas nenhuma foi recebida.  

Os militares norte-americanos, após aquela experiência, dificilmente concederiam novamente suas instalações para iniciativas desse tipo. A Companhia Telegráfica Brasileira, em Sepetiba, era uma opção disponível, potente e situada na latitude correta. Para Robinson, o Rio não era apenas um destino exótico: era a solução logística mais racional para um projeto que já era, por definição, um tanto quanto irracional. 

Mas quem era Richard Robinson? 

O jornal A Noite, em sua edição de 17 de dezembro de 1928, o apresenta como astrônomo inglês, descrevendo a iniciativa de usar as instalações telegráficas de Sepetiba para a tentativa de comunicação com Marte. Não há, porém, registro algum de que Robinson ocupasse posição de destaque em alguma instituição britânica de prestígio. O que, cá entre nós, já deveria ser considerado algo para pôr a pulga atrás da orelha. 

Robinson era, muito provavelmente, o que a época produzia com certa regularidade: um gentleman astronomer, um entusiasta instruído e com algum capilé no bolso, que havia absorvido as teorias de Lowell e Schiaparelli como verdades e decidira levar adiante o projeto interrompido pelos americanos em 1924. 

Na hora “agá” da experiência, Robinson respirou fundo e, como todo mundo sabe que o universo inteiro fala inglês fluente, ele escolheu uma frase que misturava religião, otimismo e objetividade telegráfica. Traduzindo: “Deus é Amor. Da Terra a Marte”.  #fofo

Ao final da experiência, o consenso foi de que não havia evidências de que o planeta vermelho tivesse mostrado qualquer interesse em falar com a Terra. Robinson, acredite, culpou o mau tempo e até insinuou interferências estrangeiras para justificar o fracasso.

Reportagem do jornal A Noite sobre a tentativa dos contatos imediatos de Sepetiba (Crédito: Reprodução)

A repercussão 

Essa bizarrice provavelmente não entraria nem na seção de curiosidades de alguma revista acadêmica séria se não fosse a cobertura do jornal A Noite, que registrou a iniciativa de Robinson em dezembro de 1928 com a seriedade que a imprensa da época costumava dispensar a esse tipo de empreendimento. Um tempero que levava uma pitada de ciência e generosas porções de espetáculo. 

Não há notícia de que a tentativa tenha gerado qualquer resultado, nem na forma de sinais recebidos nem qualquer clamor popular por mais informações. O episódio passou silenciosamente, como convém às comunicações que nunca chegam ao destinatário. 

Dez anos depois, em outubro de 1938, Orson Welles faria sua famosa transmissão radiofônica de A Guerra dos Mundos pela rede americana CBS. No dia seguinte, os jornais relataram que a transmissão provocou pânico em toda a costa leste dos EUA. Estimava-se que mais de um milhão de pessoas acreditaram que, de fato, aquilo estava acontecendo. 

Foi a última grande explosão da “mania de Marte” no imaginário coletivo mundial, antes do retumbante fracasso do filme do John Carter nos cinemas e de Elon Musk entrar na parada. Em 1965, a sonda americana Mariner 4 chegou a Marte e revelou, em imagens detalhadas, que se trata de um planeta aparentemente morto. Sem canais, oásis ou civilizações. Schiaparelli havia visto ilusões ópticas. Lowell havia construído uma cosmologia sobre elas. E Robinson, em Sepetiba, havia falado com as paredes. 

Quanto as torres gigantes da antiga estação, elas acabaram perdendo função com a evolução tecnológica. Por óbvio, a manutenção de mastros de 250 metros era caríssima. Parte da estrutura foi absorvida por sistemas posteriores de telecomunicações e instalações militares próximas de Santa Cruz ligados à Força Aérea Brasileira. E com o advento dos satélites os mastros gigantes desapareceram. 

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