Em outubro de 1993, um silêncio estranho tomou conta das instalações da Trol, tradicional fabricante brasileira de brinquedos e produtos plásticos. O que restava da empresa que popularizou o Playmobil no Brasil foi saqueado após uma invasão à fábrica. Moldes, estoques, máquinas, documentos e brinquedos desapareceram em meio ao caos da falência decretada pela Justiça naquele mesmo ano. Terminava ali a trajetória de uma das mais ousadas indústrias brasileiras do século XX, responsável por transformar um bonequinho de 7,5 centímetros em sonho de consumo de milhões de crianças. 

Durante décadas, a Trol simbolizou modernidade industrial. Seus brinquedos ocupavam vitrines, comerciais de televisão e quartos infantis em todo o país. A empresa não apenas fabricava brinquedos. Ela ajudou a moldar o imaginário de uma geração inteira. O Velotrol virou objeto de desejo nacional. O Playmobil brasileiro tornou-se referência internacional de qualidade. E seus pioneiros programas infantis misturavam publicidade e entretenimento numa época em que isso ainda soava inocente. 

Mas por trás da magia existia uma estrutura industrial gigantesca, dependente de tecnologia cara, matéria-prima importada e de um mercado protegido pela economia fechada do Brasil. Quando a abertura econômica chegou no início dos anos 1990, a Trol descobriu que sobreviver no capitalismo globalizado seria muito mais difícil do que fabricar pequenos bonecos sorridentes. 

A fábrica da Trol nos anos 1970 (Crédito: Reprodução)

A origem na garagem de um fugitivo 

Em 1935 desembarcou no Porto de Santos o alemão Ralph Rosenberg, fugindo do regime nazista. Um de seus primeiros empregos foi na área de plásticos, e assim ele criou uma pequena fábrica de botões, pentes e bijuterias na garagem de casa, naquela estranha cidade cinza ao sul do Brasil. Nascia a Trol, uma das pioneiras no setor de plásticos brasileiro, desenvolvendo-se rápida e acentuadamente, constituindo-se nos anos 1970 numa das maiores indústrias de plásticos da América Latina, em terreno próprio que atingia 110.000 m² com área construída de cerca de 30.000 m². 

Nos anos 1940 e 1950, o setor plástico brasileiro ainda engatinhava. Existiam poucas empresas capazes de trabalhar com injeção de precisão em larga escala. Isso deu à Trol uma vantagem tecnológica importantíssima. Nos anos 1960, a Trol já havia se consolidado no mercado em três grandes áreas produtivas. A primeira era a fabricação de peças industriais sob encomenda. A segunda concentrava utensílios domésticos. A terceira, que acabaria se tornando a mais famosa, era a divisão de brinquedos. 

A consolidação de um gigante 

A Trol rapidamente se tornou uma fornecedora essencial para mais de uma dezena de grandes empresas nacionais e multinacionais instaladas no país, demonstrando uma versatilidade produtiva impressionante. Durante décadas, geraldinos e arquibaldos em estádios de todo o país sofriam assistindo jogos de futebol com ouvido colado num radinho Phillips, cuja caixa era fabricada pela Trol. 

Ela foi uma das melhores ferramentarias do Brasil e produzia peças para gigantes como Philco, Gradiente e Walita, entre outros.  E participou até do início da expansão da informática no Brasil, produzindo as caixas dos famigerados TK85, TK-90X, TK95 e TK2000, da Microdigital Eletrônica.  

Em estádios de todo o país torcedores acompanhavam os jogos de futebol com ouvido colado num radinho cuja caixa era fabricada pela Trol (Crédito: Reprodução)

Quando a fábrica de botões descobriu a Televisão 

Bem antes de os bonequinhos Playmobil virarem o rosto da marca, a Trol já havia descoberto o poder do entretenimento como plataforma de marketing. Na TV Tupi, em 1956, passou a ser exibido o programa infantil Teatrinho Trol, onde eram encenadas ao vivo peças de teatro adaptadas para a TV. Foi um enorme sucesso com crianças e adultos, tornando-se um programa obrigatório para a criançada   

O programa durou dez anos, de novembro de 1956 a julho de 1966, nos quais mostrou cerca de 400 peças de diversos autores, de Monteiro Lobato a Maria Clara Machado. O programa teve participação de grandes atores nacionais: Norma Blum, Neyde Aparecida, Íris Bruzzi, Claudio Correa e Castro, Claudio Cavalcanti, Zilka Salaberry, e uma talentosa jovem chamada Fernanda Montenegro. 

A chegada do ministro 

A consolidação da Trol como potência nacional se deu em 1967, quando o empresário Dilson Funaro assumiu o controle da companhia. Além de controlar a Trol, ele foi presidente do BNDES e ministro da Fazenda do governo Sarney, período em que lançou o Plano Cruzado, uma tentativa de conter a inflação que o transformou em herói nacional. No entanto, com o fracasso do plano, pediu demissão em 1987. Dois anos depois, em 1989, um câncer linfático tirou-lhe a vida, o que afetou diretamente a empresa.  

O presidente José Sarney despachando o ministro Dilson Funaro (Crédito: Reprodução)

Funaro era um polvo do licenciamento global. Ele entendeu que o futuro do mercado de brinquedos dependia de inovação constante e de um marketing focado em personagens de grande apelo popular. E logo após assumir a Trol foi aos EUA e fechou com a Tonka Toys o lançamento de um triciclo de plástico injetado que viria a ser batizado e imortalizado no mercado nacional sob o nome de Velotrol. O velocípede transformou-se em uma febre de consumo sem precedentes entre as crianças do Brasil, vendendo centenas de milhares de unidades. 

Velotrol: Um clássico dos clássicos (Crédito: Reprodução)

Mas Funaro não parou por aí. Aproveitando o sucesso do seriado humorístico “Família Trapo”, que foi ao ar na TV Record entre 1967 e 1971, a Trol lançou uma linha de bonecos dos personagens, incluindo Bronco (Ronald Golias), Gordon (Jô Soares).  Além disso, a empresa também foi responsável pela primeira coleção de brinquedos da Turma da Mônica nos anos 60 e 70, licenciando os personagens de Mauricio de Sousa e ampliando ainda mais seu domínio sobre o público infantil brasileiro. 

Mas sua grande tacada ainda estava por vir. 

A versão Village People é só mais uma da seis mil figuras criadas do Playmobil (Crédito: Reprodução)

A Origem do Playmobil 

O sistema Playmobil foi criado na Alemanha em 1974 pelo designer Hans Beck, que trabalhava para a tradicional empresa de brinquedos Geobra Brandstätter. A genialidade do conceito surgiu como resposta direta à crise internacional do petróleo de 1973, que elevou drasticamente os custos das resinas plásticas e forçou a empresa a buscar um brinquedo menor, que exigisse menos matéria-prima do que os grandes e detalhados carros plásticos produzidos por ela até então. 

Hans Beck desenvolveu figuras de sete centímetros e meio de altura que cabiam perfeitamente nas mãos das crianças e possuíam feições simples, inspiradas nos desenhos infantis. O conceito baseava-se em um sistema aberto de cenários e acessórios intercambiáveis que estimulavam a imaginação, transformando o pequeno boneco articulado em um sucesso global instantâneo. 

Desde então foram lançados mais de seis mil tipos e figuras diferentes do Playmobil, que já vendeu mais de três bilhões de unidades em todo o mundo. Se todos esses bonequinhos fossem colocados de mãos dadas, além de ficar fofo, eles conseguiriam dar a volta na Terra mais de três vezes. 

A chegada ao Brasil na famosa caixa azul 

Funaro percebeu o espírito do tempo e ao saber da nova moda da Europa, trouxe o Playmobil para o Brasil em 1976, apenas dois anos após seu lançamento na Alemanha. E ainda adotou uma estratégia de comercialização inovadora: as famosas caixas azuis individuais, contendo apenas um boneco e seus acessórios básicos. 

As caixinhas com um só bonequinho foi uma jogada de mestre da Troll (Crédito: Reprodução)

Essa abordagem visava baratear o custo do brinquedo para o consumidor, permitindo que crianças de diferentes classes sociais iniciassem suas coleções sem a necessidade de adquirir conjuntos grandes e caros. A estratégia funcionou com precisão cirúrgica, transformando o boneco individual em uma opção de presente acessível e recorrente em aniversários e datas comemorativas. A facilidade de compra gerou um efeito colecionável em cadeia, onde a aquisição do primeiro boneco gerava no consumidor o desejo imediato de comprar os próximos personagens para expandir o universo de brincadeiras. 

A Trol caprichou na fabricação do Playmobil brasileiro. Diferente de outras licenciadas internacionais, ela conseguiu criar cores vivas que resistiam ao severo desgaste da radiação solar tropical e não desbotavam com o uso contínuo nas praias e quintais do Brasil. A excepcional qualidade do plástico e a fidelidade tonal dos bonecos brasileiros foram alvo de elogios formais por escrito por parte do próprio criador do brinquedo, Hans Beck, e da diretoria da Geobra Brandstätter na Alemanha. 

A construção do desejo colecionável 

Cada caixa de Playmobil que saía das linhas de montagem da Trol trazia em seu interior encartes coloridos que mostravam o universo completo de produtos disponíveis no mercado. Esses pequenos folhetos funcionavam como um poderoso mapa do desejo infantil, exibindo de forma integrada as linhas de piratas, cavaleiros medievais, caubóis, operários e astronautas. 

Ao visualizar os grandes cenários montados nos encartes, as crianças traçavam planos detalhados de expansão para suas coleções particulares, transformando cada brinquedo novo em um elo de uma grande engrenagem lúdica. O marketing impresso da Trol foi fundamental para sustentar o interesse contínuo pelo produto, garantindo que o sistema Playmobil permanecesse relevante ano após ano. 

Os encartes mostravam a variedade de opções de bonecos e cenários (Crédito: Reprodução)

O fim do império 

A morte de Funaro, em abril de 1989, foi o começo do fim. O sucesso da Trol estava diretamente ligado à sua figura. Sem sua liderança, a Trol não resistiu: acumulou dívidas, perdeu mercado e pediu falência em 1993. A abertura comercial promovida pelo governo Collor no início dos anos 1990 multiplicou o problema: manter o padrão de qualidade exigido contratualmente pela Geobra alemã, incluindo o pagamento de royalties em moeda forte, tornou-se progressivamente inviável em um ambiente de inflação galopante e concorrência asiática com custos incomparavelmente menores.  

Em 1993, foi decretada a falência da Trol. Fechada a fábrica, em 1993, crianças surpreendentemente saquearam o estoque. Em outubro daquele mesmo ano, a invasão foi além dos produtos acabados: moldes de produção, insumos e o patrimônio técnico acumulado em décadas de trabalho desapareceram. Um vandalismo que encerrou, de forma irremediável, qualquer possibilidade de recuperação ou de preservação da memória industrial da empresa. 

Nem mesmo os registros de quantos bonequinhos foram vendidos no Brasil foram preservados. Mas as estimativas ao longo de suas quase duas décadas de vigência da licença e fabricação ativa, indicam que a Troll vendeu dezenas de milhões de bonequinhos e conjuntos do Playmobil em todo o território nacional. 

A Estrela e os bonequinhos sorridentes 

Com a falência da Trol, o Playmobil não saiu do Brasil imediatamente. A Estrela adquiriu os direitos pelo produto até 1999, quando foi descontinuado. A empresa era, naquele momento, a maior sobrevivente da indústria nacional de brinquedos. Fundada em 1937 pelo imigrante alemão Siegfried Adler, que também fugiu do nazismo, a Empresa Estrela começou produzindo bonecas de pano e carrinhos de madeira em uma pequena fábrica no bairro do Belém, em São Paulo. A coincidência histórica é notável: tanto a Troll quanto a Estrela foram fundadas por refugiados judeus alemães que escaparam do nazismo e encontraram no Brasil a matéria-prima de um recomeço. 

A Estrela fabricou e distribuiu o Playmobil no Brasil até o final dos anos noventa, utilizando moldes importados e tentando revitalizar a presença dos bonecos nas prateleiras nacionais. A empresa acabou desistindo de dar continuidade à produção devido ao agravamento de suas próprias crises financeiras internas, causadas pela forte concorrência dos produtos chineses e pela desvalorização cambial que encarecia absurdamente a manutenção da licença internacional, encerrando assim mais um ciclo do boneco sorridente no Brasil.  O Playmobil só voltaria ao mercado brasileiro em 2008, através da importadora Sunny Brinquedos, trazendo os bonequinhos da Alemanha.  

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