Uma malharia desconhecida, fundada por um homem de nome ainda mais obscuro, venceu a Adidas numa concorrência para vestir o Palmeiras em 1993 e, nos dez anos seguintes, estampou sua logo em dezenas de clubes do futebol brasileiro, incluindo Santos, Botafogo, Cruzeiro, Internacional e até a seleção do Chile. Essa empresa se chamava Rhumell, nome meio parecido com o da centenária fabricante dinamarquesa Hummel, cujo símbolo ela também copiou descaradamente. A história da Rhumell é um retrato fiel dos anos 1990 no futebol nacional. Uma época de grandeza, escândalos, fartura e uma opacidade institucional tão densa que chegou a frustrar até os senadores que tentaram investigá-la. 

Em dez anos de apogeu, a Rhumell viveu o melhor e o pior da vida de uma fornecedora de material esportivo no Brasil. Vestiu o Palmeiras campeão da Libertadores de 1999, assinou a camisa do Botafogo que Túlio Maravilha usou na temporada 1994, comissionou ao designer austríaco Hans Donner uma camisa para o Criciúma que até hoje é objeto de desejo de colecionadores, e acumulou dívidas com a Previdência Social que nunca foram completamente esclarecidas. Quando a CPI do Futebol, nos primeiros anos dos 2000, tentou intimar seus fundadores, não encontrou ninguém. Eles simplesmente não estavam lá. 

O que restou da Rhumell é uma combinação de nostalgia e suspeita, de camisas lindíssimas e contratos celebrados sem passar pelo departamento jurídico dos clubes, de um registro de marca no INPI que persiste até 2034 e de uma história que o futebol brasileiro nunca resolveu direito contar. 

A origem 

Na tarde de 3 de abril de 1993, o Palmeiras entrou no gramado do Morumbi para enfrentar o Santos com uma camisa ainda listrada, mas num tom de verde mais escuro e com a logomarca da Rhumell no peito pela primeira vez. O clube havia abandonado a Adidas no meio do Campeonato Paulista, o que por si só já era suficiente para causar algum estupor. 

 Mas o espanto maior estava em quem havia vencido a gigante alemã na disputa pelo contrato: uma empresa praticamente inexistente até então, fundada por um homem chamado Joelson de Souza Prado, cuja história a imprensa nunca conseguiu apurar com profundidade. 

Há uma alegação de que a empresa ganhou a disputa pelo fardamento do verdão porque Joelson, seu fundador, era próximo do então presidente do clube, Mustafá Contursi. À ESPN, em 2018, Contursi alegou que a história era uma “fantasia”. 

Efetivamente a Rhumell foi criada especialmente para o Palmeiras e, em dez anos, se tornou uma das marcas mais influentes no cenário nacional. Chegou a vestir outros clubes como América de Natal, Atlético Paranaense, Bahia, Botafogo, Caxias, Criciúma, Cruzeiro, Joinville, Internacional, Paraná Clube, Portuguesa, Santos, Sport e até a seleção do Chile. Nenhuma outra fornecedora nacional da época alcançou carteira de clientes tão extensa, com equipes em todas as regiões do país e uma incursão internacional que só se explica pelo prestígio conferido pela parceria com o Palmeiras campeão da era Parmalat. 

Mas as suspeitas sobre a proximidade da Rhumell com o folclórico ex-presidente palmeirense Mustafá Contursi ganharam tamanha proporção que a relação comercial entre o clube e a empresa chegou a ser investigada formalmente pela famosa CPI do Futebol no Congresso Nacional, embora nenhuma prova definitiva de sociedade tenha sido apresentada. A polêmica era alimentada pelo fato de que o Palmeiras insistia na parceria mesmo quando propostas de marcas maiores eram apresentadas e, quando o vínculo com a Rhumell foi interrompido temporariamente, o clube passou a vestir Reebok, marca que era representada no Brasil justamente pela estrutura empresarial da Rhumell. 

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico… 

Fundada em 1923 pela família Messmer, em Hamburgo, na Alemanha, a Hummel atualmente tem a sua sede na Dinamarca, e é uma marca esportiva que cresceu vestindo equipes mundiais de handebol. A empresa, cujo nome significa “zangão” em alemão, migrou para a Dinamarca e ao longo das décadas passou a construir uma identidade fortíssima no esporte europeu. No futebol a Hummel apareceu no peito de jogadores de equipes gigantes como Real Madrid, Tottenham Hotspur, a histórica seleção dinamarquesa de futebol, campeã europeia em 1992 e até a seleção do Afeganistão. 

A marca ficou conhecida mundialmente pelo seu símbolo característico, o “chevron”, formado por duas setas apontadas para baixo, que estampava mangas e golas das camisas. Atuando na esfera onde a moda encontra o esporte, a Hummel entrou no século 21 relançando uniformes de treino dos anos 1970 e vendendo estes estilos old school através de lojas de moda multimarcas, tornando-se um hit instantâneo com celebridades como Jennifer Lopez, Pink e Paris Hilton. Era uma marca com história, prestígio e simbologia muito específica. E foi exatamente essa simbologia que a Rhumell usou, sem cerimônia, como inspiração para o próprio nome e logo. 

A Hummel nunca questionou a existência da Rhumell no Brasil? 

Questionar, questionou, mas chegou tarde demais. A empresa brasileira chegou a ser acusada de plagiar a marca europeia, utilizando uma escrita, fonética e logo similares para se passar pela original, com o intuito de enganar os consumidores. Segundo executivos da Hummel, a Rhumell teve que remover o “chevron” de seu logo, um símbolo característico da marca dinamarquesa. O problema é que o dano já estava feito: enquanto a Rhumell consolidava sua presença no Brasil, a Hummel descobriu, no ano 2000, que a concorrente havia requerido para si o nome da empresa dinamarquesa no INPI. 

Apesar de ter apresentado um recurso contra o registro de marca da brasileira em 2008, a Hummel nunca conseguiu derrubar o registro da concorrente. O sistema do INPI mostra que o registro da marca Rhumell da empresa titular RHUMELL INDUSTRIAL E COMERCIAL LTDA está em vigor para as categorias “roupas e acessórios do vestuário comum”, “roupas e acessórios para a prática de esportes” e “roupas e acessórios de uso profissional”, e vai até 2034. Os gringos dançaram. 

As marcas e o problema das duas setas

Para quantos times a Rhumell forneceu uniformes? 

A Rhumell não forneceu uniforme somente para o Palmeiras. O site Mantos do Futebol, referência em história das camisas do futebol brasileiro, contabiliza pelo menos duas dezenas de parcerias ao longo de toda a trajetória da marca. A Rhumell foi a fornecedora oficial de materiais esportivos para o Palmeiras por 10 anos e nesse período viu o clube ser campeão paulista em 1993, 1994 e 1996, campeão brasileiro em 1993 e 1994, Torneio Rio-São Paulo em 1993 e 2000, Copa Mercosul e Copa do Brasil em 1998, da Libertadores em 1999 e em 2000 da Copa dos Campeões. 

No Rio, a Rhumell deixou sua marca especialmente no Botafogo. Em 1993, ano da conquista da Copa Conmebol pelo Botafogo, a ProOnze assinava a produção das vestimentas do clube. Foi substituída pela Rhumell em 1994. A Portuguesa Carioca, da Ilha do Governador, também consta entre os clientes da malharia durante esse período. 

A audácia comercial da marca paulista cruzou fronteiras internacionais de forma surpreendente no ano de 2000. Durante a aquele esquecível Campeonato Mundial de Clubes da FIFA, realizado no Brasil, o time marroquino Raja Casablanca entrou em campo para enfrentar o Corinthians vestindo uniformes fabricados às pressas pela Rhumell, uma estratégia agressiva para expor a marca na transmissão televisiva global do torneio. 

Camisa desenhada por Hanns Donner para o uniforme do Criciúma

Hanns Donner desenhou mesmo uma camisa do Criciúma feita pela Rhumell? 

Uma das histórias mais peculiares e extravagantes do design esportivo nacional envolveu diretamente a Rhumell e o designer austríaco naturalizado brasileiro Hans Donner, o famoso criador das vinhetas e da identidade visual da Rede Globo de Televisão. Em 1995, em uma parceria comercial ousada bancada pela empresa de revestimentos cerâmicos Cecrisa, que patrocinava o clube catarinense, Hans Donner foi convidado para desenhar o novo uniforme do Criciúma Esporte Clube, confeccionado pela Rhumell. 

O resultado da parceria com Donner é um modelo incrivelmente elaborado, com o tradicional amarelo radiante contrastando com o preto e o branco. O escudo do clube permeia todo o uniforme, gerando formas geométricas marcantes, principalmente no peito e nas mangas da camisa. Mas os puristas torceram o nariz e fizeram dela a camisa número três do time. 

Valéria Valenssa, a Globeleza, no lançamento do uniforme (Crédito: Reprodução)

Mas o tempo é o senhor da razão e fez com que a baixa aceitação da terceira camisa do Criciúma de 1995 a transformasse em um objeto raro para colecionadores. O atual valor dessa camisa não está só na raridade, mas na história que ela carrega. Foi uma das primeiras vezes que um designer celebridade se meteu a desenhar uniforme de futebol, antecipando em anos algo que seria comum algumas décadas depois, como a parceria do Real Madrid com Yohji Yamamoto em 2014. 

Como o logo da Hummel foi parar no uniforme do América de Natal? 

Este é talvez o episódio mais curioso e revelador de toda a saga da Rhumell, e a prova mais explícita de que a malharia brasileira não tinha qualquer pudor na relação com a marca europeia. O América de Natal teve um uniforme produzido pela Rhumell, mas com a estampa da Hummel dinamarquesa. Isso é bem estranho e deixa bem claro a inspiração para o nome da marca. 

O uniforme do América de Natal com a logo da marca dinamarquesa

Em outras palavras: uma empresa que havia registrado em seu próprio nome um nome roubado da Hummel produziu, em algum momento, uma camisa para um clube nordestino com o logo verdadeiro da concorrente europeia. O episódio nunca foi devidamente explicado e permanece como mais um dos pontos nebulosos da história da Rhumell. Qualquer que seja a explicação, o América de Natal ficou para a história como o clube que usou, ao mesmo tempo, a fornecedora e a inspiração da fornecedora, sem que uma soubesse da outra. 

Túlio Maravilha foi garoto-propaganda da Rhumell? 

Essa é mais uma das histórias nebulosas da marca. Túlio Maravilha, talvez a principal figura do futebol brasileiro em 1994 e 1995, transformou-se sim em uma espécie de embaixador informal e o principal rosto dos catálogos da Rhumell. Em 1994, quando foi contratado pelo Botafogo, o clube iniciava sua parceria com a fornecedora paulista, estampando o logotipo da marca no peito. 

O problema é que aparentemente a Rhumell, ou seja lá quem tenha sido seu intermediário no acordo com o jogador, deu o beiço. E três meses depois do anúncio Túlio, para alegria da Pepsi que também patrocinava o craque, deu o acordo por encerrado. 

Como a marca entrou em decadência? 

A Rhumell não caiu de uma vez. Ela foi se esfarelando ao longo dos primeiros anos dos 2000, num processo de deterioração que misturou problemas financeiros, investigações parlamentares e um silêncio institucional que até hoje intriga os pesquisadores de camisas de futebol. A Rhumell foi alvo de investigações e denúncias, inclusive por dívidas com a Previdência e dificuldades de fiscalização.  

Mas nem mesmo a CPI do Futebol, no início dos anos 2000, foi capaz de localizar seus fundadores. A própria relação com o Palmeiras, que havia sustentado a reputação da marca por uma década, terminou sem alarde em 2002. O clube migrou para outros fornecedores e a Rhumell desapareceu do futebol de alto nível. 

A Rhumell ainda está em atividade no Brasil? 

A última aparição da Rhumell foi o uniforme do time mineiro Tupi Football Club, de Juiz de Fora, para o qual fabricou o uniforme da temporada 2024. Uma reportagem da InfoMoney, publicada em junho de 2025, não conseguiu localizar o site oficial da Rhumell. Ainda assim, é possível encontrar produtos da marca em marketplaces como a Netshoes, inclusive com o logo antigo, que possui o “chevron”.  

O CNPJ da empresa RHUMELL INDUSTRIAL E COMERCIAL LTDA e o registro de marca no INPI seguem formalmente ativos, com validade até 2034. Na prática, a Rhumell existe como pessoa jurídica registrada, como mercadoria numa prateleira virtual e como memória afetiva de uma geração que viu o Palmeiras conquistar uma Libertadores usando suas camisas.

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