Esta é uma cidade que parece maior e mais velha do que realmente é, uma salada histórica de colonização portuguesa, presença indígena, ambições políticas locais e até uma vista ilustre para matar de inveja muita cidade brasileira cheia gente fina e intelectual. Entre emancipações e reincorporações, Conceição de Macabu foi palco de sete capitães com mosquetes nas mãos e uma certa ambição em excesso, sem esquecer de um crime sangrento que mobilizou o jornalismo brasileiro no século XIX.

O nome “Macabu”, dizem uns, vem de uma palmeira, dizem outros, de confusão com outro rio; o certo é que ninguém realmente se importa com isso quando a cidade oferece histórias de quilombolas audaciosos e imigrantes japoneses tentando domar a mata virgem.

Tudo isso misturado à paisagem de serras e rios que parecem guardar, com discrição, maravilhas que só os mais sagazes conseguem perceber.

E como se não bastasse, Conceição de Macabu ainda teve seu instante de estrelato político: por uma semana, em 1966, abrigou a sede do governo estadual como quem organiza um chá de quinta-feira, tudo para chamar atenção sobre infraestrutura ausente e investimentos estrangeiros milionários que nunca se concretizaram.

Entre desastres corporativos e iniciativas simbólicas, a cidade mostra que é possível ter tamanho modesto e uma história grande o bastante para confundir historiadores e jornalistas.

Vista de Conceição de Macabu pela Serra da Bocaina | Crédito: Reprodução

História

Desde o nome até a origem Conceição de Macabu é um milk shake de colonização portuguesa população indígena e lutas regionais por autonomia política que fazem o município parecer mais velho que o tamanho que tem.

A área que hoje compõe Conceição de Macabu integrava a Capitania de São Tomé, e foi doada em sesmaria aos chamados “sete capitães”, sobre os quais falaremos adiante.

Durante muito tempo, entre os séculos XVI e XVIII, a ocupação da região permaneceu eminentemente indígena, sem exploração portuguesa até meados do século.

Sobre o nome “Macabu” não há nenhuma conclusão até hoje. Uns dizem que significaria “rio das macaúbas”, em referência a uma palmeira comum na região. 

Outra versão diz que quando os sete capitães descobriram o rio acharam que era parecido com o rio Macacu, e o batizaram como Macabu.  

Desde 1855 a cidade passou por emancipações e reincorporações: tornou-se município em 1891, voltou a se reunir a Macaé em 1892 e conquistou nova emancipação em 1952.

Praça Doutor José Bonifácio preserva clima bucólico da cidade | Crédito: Reprodução

Quem eram os Sete Capitães?

Os Sete Capitães eram militares portugueses aos quais foram doadas terras de sesmaria na região do Norte Fluminense, entre elas a área que viria a ser Conceição de Macabu.

Essas sesmarias tinham o sentido colonial de ocupação, extrativismo e controle do território que ainda era predominantemente indígena no século XVII e XVIII.

A participação dos Sete Capitães foi fundamental como marco jurídico e simbólico da colonização europeia na região, embora sua presença material tenha sido, por muito tempo, esparsa ou reticente.

Charles Darwin passou mesmo uma temporada em Conceição de Macabu?

Sim, o naturalista inglês Charles Darwin esteve hospedado e fez pesquisas em três fazendas do município de Conceição de Macabu, como descreveu em seu diário. Uma dessas fazendas, na qual chegou no dia 12 de abril de 1831, pertencia ao capitão Manoel Joaquim de Figueiredo.

A segunda fazenda, um pernoite, não há uma localização específica, mas especula-se a Fazenda São Manoel, hoje parte da localidade do Curato de Santa Catarina.

A terceira fazenda, ponto final da viagem de Darwin ao interior fluminense, pertencia ao cidadão irlandês Patrick Lennon, que não tem nada a ver com o John, e localizava-se na localidade da Palioca.

No total foram cerca de três semanas nas quais Darwin desenvolveu várias pesquisas, fez diversas observações e coletou centenas de animais e plantas na região de Conceição de Macabu, com destaque para um raro peixe, um tipo de piaba ou lambari, hoje exposto no Museu de História Natural da Universidade de Cambridge.

Charles Darwin fez pesquisas em três fazendas da cidade | Crédito: Wikimedia Commons

O que foi o Quilombo do Carukango?

Raras cidades pequenas têm um passado quilombola com reconhecimento tão explícito. O Quilombo do Carukango foi uma comunidade de resistência de africanos escravizados fugidos, localizada entre as serras no entorno dos atuais municípios de Macaé e Conceição de Macabu.

Seu líder, Carukango, era um escravizado moçambicano, batizado como Antônio Moçambique, que organizou o quilombo e confrontou fazendeiros e milícias da época.

Historicamente o quilombo representa um dos maiores (se não o maior) do estado do Rio de Janeiro, simbolizando a luta dos africanos escravizados por liberdade, autonomia e formação de comunidades fora do domínio colonial.

Sua importância reside não apenas no tamanho, mas no simbolismo de resistência: enquanto o colonizador assinava sesmarias, o quilombola recusava-se a aceitar as correntes. E esse contraste fica ainda mais marcante na paisagem de Conceição de Macabu, onde serras e rios guardam os ecos desse passado turbulento.

Quilombo do Cakurango era um dos maiores do estado | Crédito: Reprodução

O que sobrou dele?

Fisicamente, poucos vestígios concretos permanecem reconhecíveis ao visitante comum. A localização exata se perdeu em mitos e memórias orais, e embora algumas lanças antigas e artefatos tenham sido achados, não há um sítio estruturado de visitação.

No entanto, o legado sobrevive no nome de locais: o rio Carucango, a serra Carucango, e até um distrito que orgulhosamente carrega seu nome.

Em resumo: o que sobrou são os nomes, as histórias e o espaço natural que permite imaginar o quilombo; mas não há uma “ruína de quilombo” bem estruturada como se vê em outros points. Ainda assim, o valor simbólico e histórico é enorme.

Quem era a “Fera de Macabu”?

Essa história daria um filmaço. Manoel da Motta Coqueiro era um rico fazendeiro dono de diversas propriedades em Conceição de Macabu condenado à pena de morte por ter (supostamente) mandado matar toda uma família de colonos residente em suas terras.

Já idoso, viúvo, casado e cheio de filho, Motta Coqueiro sassaricou com Francisca, filha mais nova de um camponês chamado Francisco Benedito da Silva, e a jovem engravidou.

Deu-se o escândalo. Os demais pequenos produtores, indignados, ficaram ao lado de Francisco e numa discussão baixaram a paulada no coronel.

O crime

Em uma noite chuvosa de 1852, Francisco Benedito e toda sua família foram mortos a golpe de facões por um grupo estimado em oito negros, escapando somente Francisca, a filha grávida. Além de Francisco Benedito, foram assassinados a sua esposa, três filhos adolescentes e três crianças, uma delas com apenas três anos de idade.

Motta Coqueiro foi denunciado como mandante por uma escravizada e tentou fugir, sem êxito. Mas o caso viralizou, digamos assim, nos jornais de toda a região que passaram a tratar o fazendeiro com todo o sensacionalismo possível como “a Fera de Macabu”.

Em 6 de março de 1855, Motta Coqueiro foi enforcado em Macaé após um julgamento no qual os pesquisadores até hoje apontam inúmeras incongruências.

José do Patrocínio se inspirou no episódio para escrever “Mota Coqueiro ou a Pena de Morte”, uma obra de ficção, baseada em fatos reais, que confundiu muitos historiadores. Porém é mais um libelo contra a pena de morte do que uma narração histórica confiável. 

Manuel da Motta Coqueiro fora enforcado em Macaé, em 1855 | Crédito: Reprodução

A cidade recebeu os primeiros imigrantes japoneses no Brasil?

Sim. Segundo registros históricos em1907, um grupo de imigrantes japoneses liderado por Saburo Kumabe chegou à Fazenda Santo Antônio e formou a primeira colônia agrícola japonesa do Brasil.

Mas o grupo era relativamente pequeno, as terras apresentavam dificuldades, o apoio institucional era fraco e, como muitas colônias pioneiras, a turma esbarrou na realidade difícil do trabalho agrícola em ambiente de mata e serras. 

A colônia não sobreviveu por muito tempo:  os colonos ali permaneceram cerca de cinco anos até o insucesso do empreendimento. Hoje nem restaurante japonês tem por lá.

Conceição de Macabu já foi capital do Rio de Janeiro?

Por uma única semana, mas foi. Em 1966, a Rhodia desistiu de se instalar na cidade após anunciar um grande investimento. A empresa alegou falta de estruturas básicas, como abastecimento de água e até pavimentação de estradas.

Indignados, os políticos locais convidaram o governador Geremias de Matos Fontes para transferir a sede do governo estadual para lá, em uma espécie de campanha pública de visibilidade e de reivindicação por melhorias.

Deu certo. E assim, de forma absolutamente incomum, governador, secretários e assessores geriram o Rio de Janeiro em espaços improvisados nas escolas da cidade.

O que tem para fazer por lá?

Além da estação ferroviária, construída em 1879, e dos passeios históricos, Conceição de Macabu oferece natureza em abundância nas Serras de São Tomé e Santa Catarinas, com quedas d’água cachoeiras como a Cachoeira da Amorosa (com cerca de 15 m de queda e piscina natural rasa).

Na cidade funciona ainda a Casa da Seresta, dedicada à preservação desse gênero musical. Atualmente, as rodas de seresta são realizadas às sextas-feiras e são comandadas pelo Grupo Lua Cheia, fundado em 1979, considerado o mais representativo da seresta macabuense.

Cachoeira da Amorosa, em Conceição de Macabu | Crédito: Reprodução / TripAdvisor

Como chegar?

Partindo da Guanabara até Conceição de Macabu, na Região Norte Fluminense, são cerca de 160 km, o que dá uma viagem de umas três horas de carro. De ônibus, há saídas diárias da Rodoviária do Rio, com tarifas a partir de R$ 110 para uma viagem de quatro horas.

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